A Justiça francesa está a investigar possíveis casos de assédio relacionados com vários suicídios e tentativas de suicídio ocorridos nos últimos meses entre funcionários do gabinete do primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, revelou esta segunda-feira a imprensa.
A rádio pública France Inter indicou que a investigação foi aberta em junho, através de um mecanismo previsto no Código Penal que permite a um funcionário comunicar ao Ministério Público a suspeita da prática de um crime.
A esse procedimento juntou-se a queixa apresentada em 25 de junho por uma funcionária daquele serviço.
A funcionária, identificada pela France Inter com o nome fictício de Laura para preservar o seu anonimato, tentou suicidar-se em abril, numa estação ferroviária perto da sua residência, atirando-se para a linha, mas foi impedida por outro passageiro no último momento.
Laura, que quatro meses antes tinha redigido o seu testamento para organizar o próprio funeral, acabou por ser hospitalizada no final de abril devido ao risco de suicídio, dias depois de ter sido notificada da instauração de um processo disciplinar relacionado com o facto de ter inscrito um colega de trabalho em plataformas de comércio eletrónico com referências injuriosas.
Pela ação, pediu desculpa e, segundo o médico do trabalho que a observou, o comportamento estava relacionado com o sofrimento psicológico associado ao trabalho.
A advogada da funcionária, Christelle Mazza, explicou à estação de rádio que a situação se arrastava há 16 meses.
Segundo a advogada, a funcionária, com mais de 30 anos de antiguidade e que trabalhava no serviço de correspondência do primeiro-ministro, tinha sido “invisibilizada”, deixara de ser convocada para reuniões de trabalho e fora colocada num gabinete na cave, isolada da restante equipa.
Segundo a France Inter, o caso não é isolado: em sete meses, ocorreram dois suicídios e duas tentativas de suicídio no mesmo gabinete oficial.
A 6 de outubro de 2025, um funcionário da Direção de Informação Legal e Administrativa feriu-se no pescoço com uma lâmina, embora uma investigação externa tenha concluído que não existiam riscos psicossociais no respetivo serviço.
Em março de 2026, outro funcionário suicidou-se na sua residência, onde estava em teletrabalho, após uma reunião particularmente tensa com o superior hierárquico sobre o desaparecimento de várias garrafas miniatura de bebidas alcoólicas, “num contexto de disfunções de gestão”, segundo um documento interno citado pela France Inter.
Alguns dias depois, outro funcionário, de 59 anos, que se encontrava frequentemente de baixa médica, suicidou-se, atirando-se para debaixo de um comboio, “num contexto de sofrimento no trabalho identificado”. Tinha deixado uma mensagem a anunciar a intenção de pôr termo à própria vida.
Segundo o gabinete de Sébastien Lecornu, “a prevenção dos riscos psicossociais é uma prioridade” nos serviços sob a sua tutela.
A instabilidade política em França levou a que, em dois anos, o país tenha tido quatro governos, chefiados por outros tantos primeiros-ministros: Gabriel Attal, Michel Barnier, François Bayrou e Sébastien Lecornu.
Segundo um representante dos trabalhadores citado pela estação de rádio, esta instabilidade tem consequências diretas no funcionamento da administração pública, com mudanças constantes e tensões suscetíveis de agravar situações já delicadas em determinados serviços.
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