Como comentador que deseja manter a sua licença, fui assistir ao filme que tem dado tanto que falar. E gostei muito. A aventura do herói que regressa a casa ao fim de 20 anos é empolgante. A única crítica, que partilho com muitos dos colegas, é a de que o realizador aplica anacronicamente códigos morais modernos que não fazem qualquer sentido na era em que decorre a acção. As atitudes são julgadas com base nos valores de hoje e isso faz com que alguns diálogos pareçam bizarros.
Há um momento em que o protagonista, quando ao fim de muito tempo finalmente chega ao lar, se depara com o seu reino exaurido e o castelo ocupado por quem não devia lá estar. A devastação que ocorreu durante a sua ausência impressiona-o. “Porque é que ele faria isso?”, questiona. “Porque é mau”, responde a sua companheira. “Tem de haver outra razão”, contrapõe o herói, não aceitando a mera maldade como explicação simples para um comportamento que exige um objectivo estratégico e planeamento e execução metódicos. Ao que ela replica: “A cara dele é uma caveira”. Obviamente, pois trata-se de Skeletor, o poderoso feiticeiro que destronou o Rei Randor e governa Eternia a partir do seu covil em Snake Mountain, pelo menos até o He-Man o tirar de lá.
Ao que me dizem, esta pertinente crítica ao filme Masters of the Universe também se aplica à Odisseia. No fundo, em Ítaca ou Eternia, não devemos usar os princípios éticos do presente para julgar situações do passado. Mesmo quando é o mês passado. Por exemplo, dizer que Pedro Sánchez está a ser muito duro ao expulsar os migrantes que entraram por Ceuta adentro, quando há duas ou três semanas encorajava a imigração ilegal, prometendo regularizar toda a gente. Ao fazê-lo, estamos a avaliar o que Sánchez faz agora com a bitola que Sanchez defendia tempos atrás. Como é evidente, entretanto caducaram.
A alternativa é imaginar uma tese que absolva Sánchez da incoerência. Há uma que está a sobressair: a invasão de migrantes foi uma conspiração orquestrada pelos Estados Unidos, Israel e Marrocos. Parece o início de uma anedota contada por um paranóico: um americano, um israelita e um marroquino entram numa sala de reuniões secreta na cave de um bar… Mas quem sou eu para julgar? Se calhar, foi mesmo isso que aconteceu. E não estou a ser cínico. Já fui crente em teorias da conspiração que se revelaram verdadeiras. Ainda esta semana, com a audição de Anthony Fauci no Congresso americano, tivemos mais uma confirmação de que a tese delirante, racista, xenófoba e burra, em boa hora proibida de circular no espaço público por indicação da Casa Branca prontamente acatada pela imprensa e redes sociais, de que o Covid teria origem num laboratório, afinal é a mais provável. Se calhar, esta da joint venture americana, israelita e marroquina também é assim.
No entanto, para esta teoria da conspiração de Ceuta ser verdadeira, os seus proponentes precisam de mudar a perspectiva sobre o que ocorreu. Para considerar que americanos, israelitas e marroquinos fizeram uma malfeitoria, têm de admitir que, afinal, a entrada irregular e descontrolada de milhares de migrantes de uma só vez é capaz de não ser positivo e que foi causado um dano a Espanha. Só assim se pode considerar que a suposta intervenção americana, israelita e marroquina foi um ataque. Caso contrário, terá sido uma benesse e falta ouvir um “Gracias, muchachos!”
Atenção, não descarto a possibilidade de intervenção externa por agente estrangeiro. É uma hipótese. Quem tem interesse no que se passou? Quem lucrou com o que aconteceu? Eu digo a Decathlon. Só em boias, braçadeiras e outros pneumáticos de recreação, fizeram o orçamento do ano.
Mais estranho que aplicar o mesmo código moral em épocas diferentes é aplicar códigos morais diferentes na mesma época. Que é o que se está a passar com Luís Neves em Portugal. Estamos a exigir a Luís Neves que seja mais impoluto que nós próprios. Só porque é Ministro e foi director da Judiciária, levamos a mal que faça obras à revelia da câmara municipal; que pague em dinheiro e sem factura o que o fisco exige que seja registado; que tenha uma relação comercial com um prestador de serviços à instituição pública que dirige; que aceite, em nome do Estado, um jeitinho desse prestador de serviços; que não cumpra as obrigações declarativas a que está sujeito; enfim, um sem número de embirrações despropositadas. No fundo, levamos a mal que Luís Neves seja português.
Assisti à sua conferência de imprensa e fiquei contente por saber que o nosso MAI prendeu milhares de bandidos. Por outro lado, fiquei preocupado com os milhares de bandidos que terá deixado escapar. É que Luís Neves ficou bastante satisfeito com as respostas que deu. Parecia mesmo acreditar que estava a ser convincente. A minha questão é: nos interrogatórios que fez, será que se deixou endrominar por explicações deste género? “Bom, senhor agente, o que se passou foi o seguinte: a faca que estava na minha mochila, que na altura eu disse que não era uma faca, afinal era mesmo uma faca. Só que originalmente não era uma faca, era uma espátula. O meu amigo João afiou-a sem me dizer nada. Ele é do Minho, mas vem aqui ao Alentejo tratar-me da cutelaria. Não é qualquer um que me trata dos talheres e o João é especial. Mas já prometeu que vai voltar a pô-la romba, por isso não faz mal. Adeus e boa tarde”.