A 20 de julho de 2026, Pedro Sánchez visitou a Argélia. O comunicado que se seguiu à viagem oficial do Palácio da Moncloa não poupava elogios ao país do Norte de África, que era uma “ponte entre África e a Europa”. “A Espanha não vê apenas a Argélia como um país vizinho, mas como um parceiro estratégico e, acima de tudo, uma nação amiga”, salientou o chefe do Governo espanhol. Argel e Madrid acordaram realizar uma reunião de alto nível no outono e prometiam continuar o diálogo político.
No Magrebe, houve um país que certamente vigiou esta visita oficial de Pedro Sánchez. E que dificilmente terá gostado das palavras do líder espanhol. No Norte de África, existe uma profunda rivalidade que já dura há décadas: a que opõe Marrocos e a Argélia. Desde a descolonização francesa da Argélia, a relação tem sido marcada por uma elevada tensão e antagonismo constante. Por exemplo, no Saara Ocidental (antiga colónia de Espanha), território que a Coroa marroquina vê como seu, as autoridades argelinas têm apoiado o movimento independentista Frente Polisário, algo imperdoável para Rabat.

Nem dez dias depois da viagem do chefe do Governo de Espanha a Argel, Ceuta — um enclave espanhol no Norte de África — sofreu uma das piores crises migratórias de sempre, com 60 mil pessoas a tentarem entrar no território. Marrocos assegurou que nada tem a ver com esta vaga massiva e culpou as campanhas de desinformação nas redes sociais, que terão sido alavancadas numa interpretação deturpada duma recente decisão do Supremo Tribunal espanhol. Mas também é certo que, segundo os serviços de informação espanhóis, Rabat não fez nada para impedir que milhares de marroquinos chegassem às praias de Ceuta.
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Em 2021, numa altura de tensão nas relações entre Espanha e Marrocos, Ceuta também sofreu o mesmo problema: milhares de imigrantes tentaram entrar pelo mar no território espanhol. Desesperadas por trabalho e para entrar na Europa, muitas pessoas veem no enclave espanhol uma solução para os seus problemas económicos. Este padrão parece repetir-se em julho de 2026, porque muitos políticos marroquinos sabem que o enclave — que até veem como seu, no projeto ultranacionalista do “Grande Marrocos” — é um ponto de pressão que podem apertar sempre que estão descontentes com as políticas de Madrid, ou quando ensaiam uma aproximação à Argélia.
Contudo, Marrocos não baseia a sua política externa apenas em Espanha e na Europa. Desde há vários anos que diversificou as suas relações e forjou várias parcerias na comunidade internacional. A mais importante? A aliança que mantém com os Estados Unidos da América (EUA) — em concreto, com a administração Trump. Além disso, faz parte dos Acordos de Abraão e é um dos poucos países de maioria muçulmana que estabeleceram relações diplomáticas com Israel. Piscando o olho a Washington, Rabat joga em vários tabuleiros para expandir a sua influência e, especialmente, para garantir o consenso internacional em redor da soberania sobre o Saara Ocidental.

Da Guerra das Areias ao Saara Ocidental: a origem da rivalidade entre Argélia e Marrocos
França controlou Marrocos até 1956 e a Argélia foi uma colónia francesa até 1962. Com uma guerra pelo meio no caso argelino, os dois países tornaram-se independentes, ainda que a rivalidade tenha surgido precisamente nessa altura. Durante o controlo colonial, os franceses traçaram fronteiras que incomodaram as autoridades marroquinas, ao incorporarem na Argélia territórios ricos em recursos minerais. Os movimentos de libertação argelinos tinham prometido que, após a independência, resolveriam os diferendos com Rabat. Mas nunca o fizeram. E isso causou um foco de tensão permanente e que até deu origem a um conflito: a Guerra das Areias, em 1963.
Na Guerra das Areias, em plena Guerra Fria quando funcionava a lógica das zonas de influência, o conflito rapidamente atraiu a atenção das superpotências, ainda para mais numa altura de elevada tensão — passara um ano desde a crise dos mísseis de Cuba. Norte-americanos e franceses apoiaram a Coroa marroquina, ao passo que soviéticos e cubanos enviaram ajuda militar direta aos argelinos. Esta clivagem ditou o futuro da região: Marrocos manteve-se alinhado com o Ocidente, enquanto a Argélia se consolidou na esfera de influência soviética.
As relações iriam azedar ainda mais em 1975. Nesse ano, numa altura em que se aproximava o fim do regime de Francisco Franco, Marrocos viu uma oportunidade no Saara Ocidental — a última colónia espanhola na região — para expandir o seu território. Rabat defendia que aquele território lhe pertencia por razões históricas, mas os movimentos independentistas de saarauís, que eram comandados pela Frente Polisário e apoiados pela Argélia, queriam ver-se livres da influência marroquina.

Em novembro de 1975, Marrocos decidiu enviar 350 mil civis para os territórios do Saara Ocidental — a chamada “Marcha Verde”, que irritou profundamente os movimentos independentistas e a Argélia. E a vantagem marroquina parecia consolidar-se de vez: à luz dos Acordos de Madrid, assinados escassos dias antes da morte de Franco, o território passava a ser administrado por Espanha, Marrocos e Mauritânia, não havendo, ainda assim, qualquer transferência formal de soberania nesta altura. De fora deste compromisso ficaram a Argélia e a Frente Polisário.
A Argélia não perdeu tempo e retaliou: expulsou 45 mil famílias marroquinas do seu território em dezembro de 1975. Poucos meses depois, tomou um passo que cristalizou a rivalidade com Marrocos: reconheceu a República Árabe Saarauí Democrática e pediu a intervenção da Organização das Nações Unidas, argumentando que os Acordos de Madrid não tinham qualquer validade jurídica. Em resposta, Marrocos rompeu relações diplomáticas com o Governo argelino, de inspiração socialista e que apoiava abertamente os movimentos anticoloniais em África.
Décadas depois, o Saara Ocidental continua num limbo diplomático. Marrocos controla de facto cerca de 80% da região, ainda que não exista um consenso na comunidade internacional em redor do assunto — nem nenhum tratado assinado. Por sua vez, mesmo tendo perdido o apoio soviético com o fim da Guerra Fria (mantendo, ainda assim, uma forte aliança militar com a Rússia), a Argélia continua a opor-se frontalmente às ambições marroquinas e defende a Frente Polisário.

O apoio de peso de Marrocos: Donald Trump, que até tem autoestrada no país
No mundo árabe, Marrocos tem convencido vários países a reconhecer a sua soberania sobre o Saara Ocidental. Por exemplo, o Egito — outra grande potência no Norte de África — tem dado sinais de finalmente tomar uma posição e apoiar as aspirações marroquinas. A Argélia tem ficado praticamente sozinha a defender a Frente Polisário. Contudo, apesar deste isolamento diplomático, Argel continua a ser um fator de pressão significativo, contando com a cumplicidade estratégica da Rússia e do Irão, de quem se tem tentado distanciar desde o início da guerra.
Na União Africana, a Argélia ainda mantém o forte apoio da Nigéria e da África do Sul, invocando a memória das lutas anticoloniais e contra o apartheid. Internacionalmente, os argelinos também contam com a simpatia de várias fações da esquerda europeia. No entanto, o país tem tentado fortalecer os seus apoios internacionais — e olha para vários países europeus como uma forma de o fazer.
Em declarações à Deutsche Welle, Alice Gower, consultora geopolítica na Azure Strategy, confirma que o conflito no Irão “reforçou a importância energética da Argélia”. Mas não se trata apenas de energia: o país “oferece cooperação em contraterrorismo, controlo da imigração e estabilidade no Mediterrâneo”. Sob o Governo de pulso firme do Presidente Abdelmadjid Tebboune, a especialista refere que a “crescente relevância da Argélia” providenciou ao regime “maior margem de manobra para prosseguir a sua agenda interna com menos resistência externa”.

A mesma especialista assinala que, no topo dessa agenda, está o fim do isolamento em relação ao Saara Ocidental e o reforço do apoio à Frente Polisário. A Argélia pretende cativar novos aliados para a sua causa — seja por aliança ideológica, seja através de complexas redes de dependência que cria através da exploração dos seus recursos naturais. Marrocos está perfeitamente consciente desta vantagem estratégica do rival e os alarmes soaram em Rabat. A consequência? O país reforçou a sua própria rede de apoios.
O principal veio de Washington, até porque os Estados Unidos não têm qualquer interesse nas reservas de gás natural argelinas. Historicamente, e desde a Guerra Fria, os marroquinos são vistos como aliados de confiança na Casa Branca. Marrocos tem também conquistado o apoio de várias monarquias do mundo árabe e Israel, transmitindo a mensagem de que a Argélia se está a aproximar do Irão e do seu eixo de resistência. Aliás, em 2018, Rabat cortou mesmo relações diplomáticas com Teerão, acusando a milícia xiita libanesa Hezbollah de “fornecer armas, formação militar e apoio logístico à Frente Polisário” através da embaixada iraniana em Argel.
Assim sendo, Marrocos tem em curso uma sofisticada operação de charme para contrabalançar a influência argelina no Ocidente. O Rei Mohammed VI atribuiu mesmo o nome “Donald J. Trump” à auto-estrada que liga a cidade marroquina de Tiznit a Dakhla, situada nos territórios do Saara Ocidental. Este fim de semana, chegou a retribuição do Presidente norte-americano, numa mensagem de apoio: “Os Estados Unidos reconheceram a soberania marroquina sobre o Saara Ocidental e apoiam a proposta de autonomia, credível e realista, como a única base para uma solução duradoura e justa“.
Ao mesmo tempo, no Congresso há neste momento várias iniciativas legislativas em curso, promovidas por senadores e representantes republicanos, para que os EUA designem a Frente Polisário como uma organização terrorista.
No seu primeiro mandato, Donald Trump já tinha levado Rabat a aderir aos Acordos de Abraão, estabelecendo relações diplomáticas com Israel, em troca do reconhecimento, pelos Estados Unidos, da soberania marroquina sobre o Saara Ocidental. Em 2026, os Estados Unidos parecem estar cada vez mais convictos de que esta é a solução para o problema. Na declaração deste fim de semana, o Presidente norte-americano pediu uma “solução urgente” para o assunto, de forma a “trazer prosperidade e uma maior integração para toda a África”.
Europa. Marrocos e Argélia testam alianças e moldam política europeia
O apoio norte-americano a Marrocos está praticamente garantido. O apoio de vários países africanos à Frente Polisário e à Argélia continua assegurado. No entanto, há um continente onde os dois rivais medem forças: a Europa. Os marroquinos procuram manter uma forte proximidade aos europeus, seja através do comércio, seja por via de campanhas associadas ao turismo. Contudo, os argelinos contam com as suas valiosas reservas de gás natural — um trunfo energético que acaba por anular muitas das vantagens de Rabat.
Discretamente, a Argélia tem conduzido uma eficaz diplomacia do gás. Cativando capitais como Berlim (onde o Presidente argelino esteve em julho) e Roma (com a qual mantém uma excelente relação de confiança), as autoridades de Argel têm aproveitado a guerra no Médio Oriente e o bloqueio do Estreito de Ormuz para demonstrar que a Argélia é um parceiro energético em que a Europa pode confiar.

Obviamente que nem tudo na política argelina gira em redor do apoio à Frente Polisário e do conflito com Marrocos. Porém, a Argélia sabe que a dependência energética da Europa abre portas a uma eventual pressão diplomática em relação ao Saara Ocidental. O país tem agora na mira uma eventual e poderosa aliança — com a Alemanha. Daí o Presidente argelino ter viajado em meados de julho para Berlim e ter-se reunido com o chanceler alemão, Friedrich Merz.
Com o fim da energia barata oriunda da Rússia na sequência da invasão da Ucrânia, a Alemanha entendeu que precisa urgentemente de diversificar as suas fontes de abastecimento energéticas. Já se falou de um possível acordo com o Azerbaijão, mas geograficamente está mais longe. Ora, a Argélia surge como o parceiro ideal, existindo um intermediário perfeito, quer em termos territoriais, quer diplomáticos: a Itália. Roma e Argel sempre mantiveram uma excelente relação, servindo a Península Itálica como a plataforma natural de entrada do gás argelino no motor industrial do centro da Europa.
Por outro lado, além dos Estados Unidos, Marrocos tem tentado angariar o interesse de outro peso-pesado da União Europeia: França. Devido ao passado colonial, às questões migratórias e às feridas históricas da guerra da Argélia, os sucessivos governos franceses privilegiaram quase sempre a cooperação com a Coroa marroquina. Assim, enquanto os argelinos seduzem Berlim e Roma, Paris tem-se aproximado cada vez mais de Rabat.

Como escreve o especialista em Estudos Africanos Abd-el-Kader Cheref num artigo da Al Jazeera, Marrocos e Argélia “não estão apenas a competir pelo apoio ocidental”. “Através da energia, migrações, cooperação de segurança, acesso aos mercados e influência regional, estão a moldar a forma como os governos europeus organizam as suas relações no Magrebe”, aponta o analista, acrescentando: “A rivalidade não divide a Europa em blocos, mas Marrocos e Argélia tornaram-se cada vez mais eficazes a levar os governos europeus a organizar as suas políticas para o Norte de África ao seu redor”.
Nestes jogos de poder nos bastidores, existe um país que se move em terrenos movediços: Espanha. Como nota Abd-el-Kader Cheref, Madrid está a “reconstruir os seus laços com a Argélia sem abandonar a sua aproximação a Rabat”. Ao longo dos mandatos de Pedro Sánchez, o chefe do Governo tem privilegiado as relações quer com Marrocos, quer com a Argélia. O líder espanhol enfrentou, ainda assim, várias crises sucessivas com os dois países. E existe já um historial de tensão, porque o Saara Ocidental era uma colónia espanhola.
A visita de Pedro Sánchez à Argélia, em meados de julho deste ano, serviu precisamente para tentar uma reconciliação com o país. Em 2021, Espanha e Marrocos tinham enfrentado uma profunda crise diplomática: Rabat foi acusado de utilizar o software israelita Pegasus para espiar o telemóvel do Presidente do Governo espanhol, ao mesmo tempo que foi outra vez acusado de instrumentalizar uma vaga migratória em Ceuta. Os dois países acabaram por sarar as diferenças, embora esta aproximação tenha tido um custo imediato: a diplomacia argelina fechou as portas a Madrid.
As relações entre Marrocos e Espanha melhoraram exponencialmente desde a crise de 2021 e os dois países passaram a colaborar intensamente. Pedro Sánchez conseguiu silenciar a oposição interna dos partidos de esquerda radical da coligação, como o Podemos ou o Sumar — historicamente favoráveis à causa da autodeterminação do Saara Ocidental. Em 2023, o chefe do Governo espanhol chegou mesmo a passar férias em Marrocos com a família, num gesto que demonstrava que a crise diplomática tinha ficado enterrada no passado.
A simpatia de Pedro Sánchez em relação a Marrocos nunca foi totalmente clara, sobretudo tendo em conta as suspeitas que existem de que Rabat tentou espiar o seu telemóvel. Além disso, existe ainda um enorme obstáculo nas relações entre os dois vizinhos que o chefe do Governo espanhol preferiu ignorar nos últimos anos: muitos políticos marroquinos continuam a ver Ceuta e Melilla como partes do seu território. Esta ambição enquadra-se no conceito histórico do “Grande Marrocos” — um projeto ultranacionalista que abrange o Saara Ocidental, os dois enclaves espanhóis no Norte de África e, no passado, ainda incluía uma parte considerável da Mauritânia.
Em 2026, num cenário de crise energética na Europa, Pedro Sánchez tentou reabrir os canais diplomáticos com a Argélia. Em simultâneo, acentuou-se a sensação de Espanha e Marrocos se encontrarem em polos geopolíticos opostos. Enquanto Rabat está do lado da administração Trump (um claro antagonista na retórica do chefe do Governo espanhol), Argel preserva uma postura de ambiguidade em relação ao Irão, embora se tenha manifestado contra a guerra em Gaza.

Mas as variáveis económicas talvez tenham pesado ainda mais na reconciliação com a Argélia. Após a visita de Pedro Sánchez a Argel em julho, chegou-se a um acordo estratégico que prevê um aumento de cerca de 15% nas exportações de gás natural argelino para território espanhol. Uma prova de que a diplomacia do gás de Argel está a ser muito eficaz: conseguiu seduzir Espanha que, anos antes, se tornara num dos maiores aliados de Marrocos na Europa.
Na nota oficial do Palácio da Moncloa, lê-se mesmo que Pedro Sánchez enfatizou que a Argélia “foi o principal fornecedor de gás natural” de Espanha num contexto de “incerteza internacional considerável” em 2026. O presidente do Governo espanhol destacou ainda que a relação bilateral se estende “além do setor energético”, apelando a uma maior “cooperação em setores como a indústria, as infraestruturas, o agroalimentar, os serviços, a inovação tecnológica e a digitalização”.
Marrocos agiu — e fez uma demonstração de força à Europa
Anos a cultivar boas relações. Anos a manter a esquerda espanhola em silêncio em relação ao Saara Ocidental. Anos de intensos esforços diplomáticos. Anos de palavras cordiais. Tudo isto parecia estar a desmoronar-se após a visita de Pedro Sánchez à Argélia. As autoridades marroquinas não podiam permitir que Espanha se deixasse seduzir pela diplomacia de gás argelina, cujos tentáculos já estão a chegar a Berlim e a Roma.

É certo que, até ao momento, não ficou provado que Marrocos tenha incitado diretamente os 60 mil migrantes a irem para as praias de Ceuta. Quebrando o silêncio este domingo, as autoridades marroquinas culparam as redes de tráfico de pessoas e as redes sociais por propagarem “interpretações erradas que acompanharam as recentes decisões” da Justiça espanhola, nomeadamente uma decisão do Supremo Tribunal que alegadamente impediria que os imigrantes fossem deportados se chegassem a nado ao enclave.
Apesar de se desresponsabilizar desta crise, os relatórios dos serviços de informação ocidentais dividem-se em duas teorias: por um lado, apontam dados que sugerem uma facilitação orquestrada, como noticiou o Telegraph; por outro, a leitura das secretas espanholas é ligeiramente distinta, de acordo com o El País: o país pode não ter planeado a crise migratória, mas absteve-se de fazer o que quer que fosse para a travar — e viram-na inclusivamente como uma “oportunidade”.
Independentemente do que seja verdade e do que se vier a concluir, é certo que Marrocos tinha motivos de sobra para deixar que milhares de migrantes entrassem pelas praias de Ceuta e dar dores de cabeça a Pedro Sánchez. Funcionou como um aviso para que Madrid não se aproximasse de Argel e mantivesse as boas relações com Rabat. Ao mesmo tempo, as autoridades marroquinas expunham as fraturas no seio da União Europeia em relação à política migratória, lembrando aos europeus que qualquer aproximação aos argelinos pode ter um preço alto a pagar.

A imigração é um tema que assusta os políticos europeus. E, à boleia dele, os partidos mais radicais ganham espaço e dominam ainda mais a presença mediática. Esta pressão obriga praticamente todos os Governos centristas europeus a agirem e a apertarem a malha. Espanha tem sido a exceção na União Europeia em relação a este assunto, tendo regularizado meio milhão de migrantes ainda este ano. Se efetivamente nada fez para travar a crise migratória, Marrocos colocou a nu uma realidade para o Governo espanhol: na UE, está praticamente isolada na gestão deste tópico. Nem a social-democrata e primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, apoia o modelo espanhol.
Itália suspendeu os acordos em vigor do Espaço Schengen com Espanha, encerrando na prática as fronteiras aéreas e marítimas. Por questões de política interna e numa constante competição com os partidos mais à direita, a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, foi a única a agir. No entanto, praticamente todos os Estados-membros demonstraram que a política migratória de Pedro Sánchez, no atual contexto político, não é bem-vinda. Nesta lógica, o Governo espanhol reclamou mesmo da “reação egoísta, polarizadora e ilegal” de muitos países europeus.
Para além do impacto europeu, a vaga migratória também pode ter consequências na política interna espanhola. Falta menos de um ano para as eleições legislativas e Pedro Sánchez encontra-se já numa posição frágil, rodeado por diversos casos de corrupção que envolvem o seu partido, o PSOE, e até a sua família. A questão migratória pode agora ser um tema que a oposição em Espanha pode introduzir com mais facilidade no debate político, como nota o analista Nic Lawley, num ensaio para o think tank Chatham House.
“As imagens dramáticas vistas em Ceuta chocaram muitos em Espanha e podem levar a que a imigração ofusque a economia como principal preocupação para os eleitores”, avisa o analista. A decisão de aprovar a regularização extraordinária de 500 mil pessoas ainda está bem viva na memória do eleitorado. “Esta crise pode seriamente minar a posição de Sánchez, que precisa agora de persuadir os espanhóis e os aliados europeus de que a crise não estava relacionada com as suas políticas de imigração”, conclui Nic Lawley.
A crise migratória em Ceuta já trouxe consequências nefastas para Pedro Sánchez, que se vê contestado tanto no plano interno como externo. Ao pelo menos abster-se de travar a vaga massiva a chegar às praias do enclave, Marrocos transmitiu uma mensagem ao chefe do Governo espanhol: sabe exatamente quais são — e como explorar — as suas fragilidades e contradições. A Coroa marroquina continuará a desafiar Argel sempre que tiver oportunidade para isso, usando todas as plataformas para demonstrar que o Saara Ocidental lhe pertence e que nenhum movimento independentista se atravessará no seu caminho. Ao mesmo tempo, a Argélia não vai deixar cair o apoio à Frente Polisário.
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