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Os demónios de Charli — e outros quatro álbuns que levamos de julho

Não é fácil nem é comum, mas Charli XCX também não: 1 anos depois do verão "BRAT", um regresso inesperado, mas coerente na surpresa. Foi um dos picos de um mês com diferentes temperaturas.

João Bonifácio
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“Music, Fashion, Film”

Charli XCX

Ainda não sei ao certo se Charlie XCX é uma estrela pop, a tipa mais esperta do marketing, ou uma ocorrência sísmica na cultura ocidental, mas depois de transformar BRAT num fenómeno cultural, ela evita a tentação de repetir a fórmula e responde com Music, Fashion, Film, um álbum que troca a euforia rave por guitarras cruas, produção minimalista e uma reflexão mordaz sobre fama, consumo e identidade artística – vamos lá ser sinceros: quantos artistas ao cimo da Terra trocariam assim as voltas aos seus fãs?

https://open.spotify.com/intl-pt/album/4bR7pd6TVS53l24qFV4wI8?si=D8t6isqkThKbGU9Yu0O0tw

A parceria com A. G. Cook e Finn Keane mantém o espírito experimental, mas canaliza-o para um território mais próximo do rock alternativo dos anos 2000, sem abandonar os detalhes eletrónicos que sempre definiram Charli. Faixas como Rock Music, Card Declined, Wink Wink e I’m Afraid revelam uma artista menos interessada em criar hinos para a pista de dança do que em desconstruir a personagem “Charli XCX”. A mudança pode alienar quem esperava outro BRAT, mas confirma a recusa da britânica em ficar presa ao próprio sucesso. Music, Fashion, Film é uma forma de mostrar que XCX é a grande musa contemporânea.

“Lovesweet”

girlsweetvoiced

Sabiam que girlsweetvoiced é do Canadá? E que Lovesweet é o seu álbum de estreia? E que esse mencionado álbum de estreia revela a canadiana como uma das compositoras mais promissoras da nova geração do indie-pop? Pois então, se não sabiam, maravilha, têm aqui uma bela novidade para se entreterem. Entre arranjos minimalistas, batidas lo-fi e uma produção calorosa de Michael Uzowuru e Mike Furlong, girlsweetvoiced constrói um universo íntimo onde cada canção parece um excerto de diário.

https://open.spotify.com/intl-pt/album/6N28jc2uCBf2mswIramLRa?si=5NpMISumTV-gC-AIkxEtog

A influência de Joni Mitchell, Phoebe Bridgers e Frank Ocean sente-se na escrita confessional, mas temas como Mirror Pics, Energizer, Tonight ou Spearmint mostram personalidade suficiente para evitar a simples imitação. O grande trunfo está na forma como transforma pequenos gestos do quotidiano em retratos emocionalmente intensos, equilibrando com naturalidade romantismo, frustração e autoanálise. Lovesweet nunca perde coerência nem sinceridade: é um disco delicado, envolvente e surpreendentemente maduro para uma estreia, confirmando girlsweetvoiced como uma pessoa que sim senhora.

“Helado Tropical”

Helado Negro e Reyna Tropical

Helado Tropical, a colaboração entre Helado Negro e Reyna Tropical, junta dois dos nomes mais delicados da música alternativa latina num álbum que privilegia a cumplicidade em vez do virtuosismo. Ao longo de apenas nove temas, o duo funde indie-folk, ambient pop, eletrónica lo-fi e ritmos latino-americanos numa paisagem sonora quente e contemplativa, onde guitarras suaves, sintetizadores discretos e batidas minimalistas parecem respirar ao ritmo das vozes dos dois músicos.

https://open.spotify.com/intl-pt/album/4O96jPlSmIgEMIl84oTl4s?si=HbvZ5H5SQnqRtYEk3J0N8A

Canções como Sensación, Tocando, El Tiempo, Fluye e Un Calor destacam-se pela forma como evocam intimidade sem recorrer a grandes explosões emocionais. Essa contenção é a maior força de um disco com uma atmosfera hipnótica e extremamente coesa. Uma colaboração inspirada, que transforma a simplicidade numa linguagem própria e oferece um dos retratos mais serenos e envolventes da música alternativa de 2026.

“Daughter from Hell”

Gracie Abrams

Gracie Abrams não é só uma das grandes nepo babies da indústria do entretenimento, é uma obsessiva cronista de desgostos amorosos que, em Daughter from Hell, procura transformar a vulnerabilidade num retrato mais amplo da ansiedade, da culpa e da identidade. As letras recorrem a imagens de facas, sangue, fantasmas e acidentes para traduzir conflitos interiores, enquanto a produção elegante de Aaron Dessner  (um dos dois moços das guitarras dos National) privilegia pianos delicados, guitarras acústicas e arranjos discretos.

https://open.spotify.com/intl-pt/album/4BZydSQMfJNphTFZzyIxh5?si=ti9QIXY7QvezTATeV7GzMg

Esta — por assim dizer — atmosfera mantém-se quase inalterada ao longo das 16 faixas do álbum, o que poderá levar alguns a queixar-se de baixa intensidade emocional. Mas nada temas, amigo coleccionador de discos, porque canções como The Knife, Good Reason, Men Like You e a faixa-título mostram uma compositora ambiciosa e confiante, a sacar algumas das melhores canções da sua carreira. Talvez ainda não seja aqui que ela dê um salto para o multi-estrelato, mas sempre subiu mais uns degraus.

“Different When It’s Silent”

Tricky

Tricky regressa ao formato a solo sem qualquer preocupação em recuperar a glória de Maxinquaye. Em vez disso, apresenta um disco austero, quase claustrofóbico, onde o trip-hop surge apenas como ponto de partida para explorar pós-punk, rock alternativo, eletrónica minimalista e ambientes sombrios. A produção privilegia guitarras cruas, bateria orgânica e vozes espectrais, criando um contraste permanente entre fragilidade e tensão.

https://open.spotify.com/intl-pt/album/39TwXOWMIvjv4kzErdhoOj?si=abb3cbc1c6e44c8a

Temas como I’m Yours, So Cold, Be Still in the Pain, Hengrove Blues e Out of Place revelam um artista que continua marcado pelo luto, mas que já não procura transformar a dor em espetáculo. Different When It’s Silent é um disco denso, desconfortável e profundamente humano, que confirma que um dos grandes inovadores da música britânica continua a preferir evoluir a viver da nostalgia.