(c) 2023 am|dev

(A) :: “Uns vendem viagens, outros emagrecimento. Temos de ter um espaço onde falamos de Cristo.” A Igreja Católica à conquista das redes sociais

“Uns vendem viagens, outros emagrecimento. Temos de ter um espaço onde falamos de Cristo.” A Igreja Católica à conquista das redes sociais

Perante a multiplicação de influencers católicos nas redes sociais, uma nova "Rede Nacional dos Missionários Digitais" quer reuni-los e impulsionar a capacidade de comunicação digital da Igreja.

João Francisco Gomes
text

“Queres ser como o Cristiano Ronaldo?”

A pergunta é feita diretamente para a câmara por um jovem padre, vestido à antiga, de batina preta até aos pés, enquanto segura uma bola de futebol nas mãos. Depois de exibir as suas capacidades futebolísticas dando toques na bola, o sacerdote continua: “Mas o Cristiano Ronaldo é o Cristiano Ronaldo e tu deves ser tu próprio, porque o Senhor escolheu-te para uma missão concreta, e tu és único e irrepetível, e deves verdadeiramente cumprir a missão que o Senhor te deu. É isso que o Senhor pede de ti. Que sejas aquele que deves ser, para pegar fogo ao mundo.”

O vídeo, filmado na vertical, legendado e publicado em formato de reel, recolheu mais de 14 mil gostos no Instagram e abriu as portas à fama digital do padre Afonso Sampaio Soares, pároco da Lourinhã transformado num dos mais célebres influencers católicos das redes sociais portuguesas. Conhecido como o “padre Ronaldo”, Afonso Sampaio Soares multiplica-se em vídeos no Instagram em que é impossível não detetar o paradoxo: a forma é totalmente moderna, mas o conteúdo (um padre vestido de batina preta a falar de Deus com uma mensagem ortodoxa) é totalmente tradicional. Tornou-se tão popular nas redes sociais como fora delas — tanto que, na Lourinhã, quando se soube que o padre Afonso havia sido nomeado para outra paróquia, houve até uma petição para tentar impedir a mudança.

No topo dos comentários com mais likes do vídeo futebolístico está outro padre. “Fogo tá muito bom. E a edição, top!”, comenta o padre Pedro Figueiredo, outra superestrela do Instagram católico nacional. Com mais de 80 mil seguidores no Instagram, Pedro Figueiredo é conhecido pelas “homilias express” em formato de reel, pelos vídeos que faz com os seus paroquianos e por se filmar, de camisa e cabeção, a fazer parkour pelas instalações da paróquia dos Olivais, em Lisboa.

Mas o furor católico nas redes sociais não se esgota aqui. O podcast +365, feito pelo movimento das Equipas de Jovens de Nossa Senhora, com episódios diários destinados a ler a totalidade da Bíblia num ano, é um sucesso de audiências e figura em todos os tops. No Instagram, mais de 33 mil pessoas seguem a página “Queima-te”, iniciativa do jovem arquiteto Pedro Viana, leigo e membro do Opus Dei, que partilha regularmente mensagens provocadoras a partir do pensamento cristão. E, claro, não há como escapar ao fenómeno do Padre Guilherme, o padre DJ com mais de 3 milhões de seguidores no Instagram, que alcançou a celebridade mundial depois de atuar na Jornada Mundial da Juventude.

A tendência mostra que a Igreja Católica começa a compreender algo que a generalidade das marcas e empresas já percebeu ao longo da última década: nos dias de hoje, a melhor forma de passar uma mensagem para o mundo é mesmo através dos influencers digitais. Os números não mentem: enquanto o consumo dos media tradicionais cai a pique, o mercado da publicidade transfere-se para o digital e, em particular, para os criadores de conteúdo. Entre os jovens da Geração Z, uma parte significativa das decisões financeiras já é afetada por influencers nas redes sociais.

“Todos nós, pelo batismo, somos chamados a ser missionários. Faz parte da nossa condição sine qua non. Cada católico tem de viver, onde quer que esteja, esta vontade de anunciar Jesus, de falar dele. E, hoje, o mundo, quer queiramos, quer não, passa pelo digital. Hoje, todos nós vivemos nas redes digitais”, diz ao Observador o padre Manuel Ribeiro, sacerdote da diocese de Bragança-Miranda. “É nestas redes que também somos chamados a viver e a anunciar o evangelho.”

O padre, de 41 anos, está a organizar a “Rede Nacional dos Missionários Digitais”, uma iniciativa para reunir influencers católicos portugueses e impulsionar o seu trabalho rumo àquilo que descreve como uma humanização do espaço digital. O primeiro passo desta rede será um encontro nacional em Alfândega da Fé, no distrito de Bragança, a 26 de setembro deste ano, com um programa que inclui conferências, debates, uma oração pela paz no mundo digital, a publicação de um manifesto sobre a ação católica nas redes sociais e um concerto do Padre Guilherme.

Perante o discurso de ódio, humanizar as redes

Os números também mostram outra coisa: a Geração Z parece estar a voltar à religião, contrariando a tendência de secularização das últimas décadas. Os dados são ainda preliminares e alguns precisam de mais contexto para serem bem compreendidos (como, por exemplo, o impressionante número de 20 mil jovens e adultos batizados em França na última Páscoa), mas há um facto evidente: as notícias da morte da religião no final do século XX eram manifestamente exageradas.

Durante décadas, cada geração foi sucessivamente menos religiosa do que a dos seus pais. O século XX ficou marcado por uma forte secularização do Ocidente — e as igrejas esvaziaram-se. Foi assim até aos Millennials, mas a Geração Z parece estar a inverter este processo. Na imprensa norte-americana, onde este fenómeno se tem verificado de forma mais evidente, multiplicam-se os relatos que dão conta de um regresso dos jovens às igrejas, particularmente às comunidades mais tradicionais. Alguns estudos mostram que, apesar de os jovens continuarem largamente secularizados, entre os membros da Geração Z que são religiosos já se identifica um maior compromisso com a prática religiosa regular, em relação aos elementos religiosos de gerações anteriores. Várias explicações têm sido avançadas para este aparente ressurgimento religioso, incluindo a possibilidade de se tratar de uma resposta à crise de sentido provocada nos adolescentes que atravessaram a pandemia na idade decisiva da formação da sua personalidade, ou a incapacidade do secularismo e do ateísmo de entregar as respostas prometidas às grandes inquietações de hoje.

“O Papa Francisco, de saudosa memória, dizia de forma repetida: contra a globalização da indiferença, é preciso uma globalização do cuidado”, salienta Manuel Ribeiro, sublinhando a necessidade de criar uma sociedade, “mais do que humanista, de rosto humano”, que possa começar “no digital”.

Além disso, o ressurgimento religioso entre os mais jovens também não pode ser dissociado da crescente polarização política e ideológica das sociedades ocidentais contemporâneas, marcada em grande parte por uma viragem à direita e pela radicalização digital de alguns setores da Geração Z. Alguns estudos mostram, por exemplo, que o ressurgimento religioso juvenil se verifica sobretudo entre os jovens rapazes, também crescentemente atraídos para recantos obscuros da internet como a manosfera, onde se exalta a masculinidade tradicional e se repudiam as mulheres. Tudo isto em paralelo com as tendências que se têm registado nos partidos da direita radical, capazes de atrair os homens e, em particular, os jovens, graças a uma estratégia assumidamente focada nas redes sociais. Nestes meios, o regresso à religião, particularmente ao Cristianismo tradicional e conservador, é instrumentalizado como forma de resgatar um Ocidente percecionado como estando em crise, ameaçado pela imigração e pelo progressismo.

Neste caldo cultural, que mistura política, machismo e religião, abundam também os conteúdos nas redes sociais que promovem o Cristianismo tradicionalista e as missas em latim. Grupos como a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, o movimento ultratradicionalista que recentemente entrou em cisma com o Vaticano, são o rosto mais evidente deste paradoxo: são simultaneamente antimodernistas e campeões das redes sociais.

Perante a “proliferação do discurso de ódio”, diz o padre Manuel Ribeiro, os influencers católicos são chamados a “pôr um pouco de água na fervura” das redes sociais. “Não podemos ficar indiferentes ao fenómeno global, que está a acontecer em todo o mundo”, reconhece o clérigo, frisando que muitos países “já estão a ser governados por partidos de extrema-direita” e que Portugal “não está imune” a esse fenómeno. Diante dos radicalismos que ocupam uma parte significativa das redes sociais, “a Igreja portuguesa tem de saber encontrar um ponto de equilíbrio, ter uma comunicação de equilíbrio, em que todas as pessoas se aproximem”.

No contexto das redes sociais, insiste Manuel Ribeiro, a Igreja não pode estar “indiferente” aos fenómenos que estão a acontecer. Em Portugal, o fenómeno da direita radical a fazer sucesso nas redes sociais encontra o exemplo mais eloquente no Chega. O padre Manuel Ribeiro reconhece-o e destaca que o partido “trabalha muito nessa área”, o que é “revelador do que está a acontecer” no mundo. “Mas podemos trabalhar essa área de forma humanista e não de forma disruptiva, não é?”

O sacerdote diz ao Observador que a ideia de criar uma Rede Nacional de Missionários Digitais partiu do desafio lançado em 2025 pelo Papa Leão XIV, quando convidou influenciadores digitais de todo o mundo para um evento no Vaticano enquadrado no Ano Jubilar. “Temos essa pretensão de provocar a sociedade portuguesa, e a Igreja de Portugal, para trabalharmos o digital de forma mais humanista”, sublinha Manuel Ribeiro, que lançou o projeto a partir de Alfândega da Fé, onde é reitor do Santuário do Imaculado Coração de Maria, pároco de várias paróquias, presidente do conselho de administração da Fundação Cónego Manuel Joaquim Ochôa e diretor do Secretariado Diocesano da Cultura e Turismo.

Apesar da origem local da iniciativa, o objetivo é que ela possa ter continuidade nacional: depois da primeira edição do encontro nacional em Alfândega da Fé, a ideia é que outras dioceses assumam a missão de organizar as edições seguintes noutros pontos do país. Um dos objetivos centrais do primeiro encontro, diz, é criar um manifesto com “caminhos e propostas para reflexão”. Esse documento será entregue aos bispos portugueses, para que, “tendo na sua mão este documento”, possam criar “propostas públicas e pastorais” capazes de ir “ao encontro daquilo que são as reais necessidades da comunidade e deste mundo global em que vivemos”.

“O Papa Francisco, de saudosa memória, dizia de forma repetida: contra a globalização da indiferença, é preciso uma globalização do cuidado”, salienta Manuel Ribeiro, sublinhando a necessidade de criar uma sociedade, “mais do que humanista, de rosto humano”, que possa começar “no digital”. O primeiro passo, de acordo com o sacerdote, é “sentar à mesa” todos aqueles que já estão a fazer alguma coisa nas redes sociais, para a partir daí começar a fazer “caminho em conjunto”. A rede que Manuel Ribeiro pretende criar ainda está, em grande parte, em aberto: além dos encontros anuais, o projeto pode incluir outros eventos, mas a ideia central, como se lê na carta fundadora da iniciativa, é “constituir uma rede nacional que una dioceses, paróquias, movimentos, comunidades, criadores de conteúdos, jovens, sacerdotes, religiosos, catequistas, professores, comunicadores e influencers católicos”, com o objetivo de “contribuir para que a cultura digital permaneça humana”, o que se traduz em “colocar a pessoa acima do algoritmo, a verdade acima da manipulação, a escuta acima da reação, a esperança acima do cinismo, a comunhão acima da polarização e o Evangelho acima da procura de protagonismo”.

Manuel Ribeiro admite que a Igreja portuguesa tem muito a aprender com os seus “irmãos brasileiros”, que “nesta matéria estão muito mais à frente”. Isso inclui a própria profissionalização dos conteúdos que são produzidos para as redes sociais. “Não podemos compadecer-nos com amadorismos”, diz o padre, sublinhando que, por exemplo, vídeos com “fraca qualidade, pouca iluminação e conteúdos que, às vezes, não têm grande interesse” reduzem a credibilidade da Igreja no mundo digital. “Temos de ter esta capacidade de apresentar um produto com qualidade. Porque, senão, não nos levam a sério.”

“Não se pretende uma linguagem uniforme”, diz, explicando que a linguagem da Igreja Católica é, por definição, “multiforme”, mas “tem de ser profissional” para ser credível e capaz de dialogar com o mundo contemporâneo. “Nós, outrora, quando queríamos falar de um negócio, era boca a boca”, sublinha. “Hoje, o boca a boca acontece nas redes sociais, nos comentários, e nós precisamos de criar esta capacidade de perceber que é no digital que o mundo está a acontecer.”

“Há uma sede de infinito no coração das pessoas”

O objetivo do encontro de Alfândega da Fé é, na expectativa do padre Manuel Ribeiro, ser um pontapé de saída para uma nova presença da Igreja Católica nas redes sociais, mais capaz de compreender e falar a linguagem dos jovens de hoje, mais eficaz, mais genuína, mais profissional e mais pensada do ponto de vista estratégico.

Isso implica a “escuta de todas as partes”, destaca o sacerdote, sublinhando que essa vontade está plasmada no programa do encontro. Entre os oradores convidados encontram-se projetos digitais como o Passo a Rezar, influenciadores como o padre Afonso Sampaio Soares, representantes de media católicos como a Ecclesia e a Rádio Renascença e responsáveis de comunicação de instituições como o Santuário de Fátima — mas também figuras do meio ultraconservador do Instagram português, como Andreia Sousa Viegas, influencer católica com mais de 300 mil seguidores, que intercala os frequentes conteúdos sobre fé e religião com vídeos a falar de remigração, a apoiar André Ventura, a estabelecer equiparações entre o aborto, a escravatura, o tráfico humano ou a lobotomia, e a dar conselhos sobre como as mulheres devem respeitar os homens. Mais recentemente, Andreia Sousa Viegas foi uma das influenciadoras portuguesas envolvidas na viagem de influencers a Israel a convite da embaixada do país.

Manuel Ribeiro destaca que, ainda assim, Andreia Sousa Viegas é “uma leiga que fala de Deus” nas redes sociais, algo que “também é importante”, e sublinha que o debate e a promoção da presença da Igreja Católica nas redes sociais implica ouvir todas as perspetivas.

A ideia é que o encontro de setembro seja o lançamento de um processo “inspirador e agregador” para humanizar as redes sociais. Isso passa por promover o surgimento de mais influencers de grande impacto, como os padres Pedro Figueiredo e Afonso Sampaio Soares, que “criaram um habitat ou uma comunidade digital capaz de fazer coisas diferentes, pelo melhor”, rompendo com o esquema da polarização que povoa a generalidade do espaço nas redes sociais. Mas o objetivo, garante o sacerdote, não é criar “divas das redes sociais”, mas promover entre os católicos um sentido de “serviço”.

"Todos, sem exceção, desde o Santo Padre ao jovem mais recentemente batizado, [são chamados a] viver esse batismo nas redes sociais. E a habitar essas redes sociais, habitar este mundo digital, este ecossistema digital, de forma cristã, humanista, de rosto humano."
Padre Manuel Ribeiro

“Todos, sem exceção, desde o Santo Padre ao jovem mais recentemente batizado, [são chamados a] viver esse batismo nas redes sociais. E a habitar essas redes sociais, habitar este mundo digital, este ecossistema digital, de forma cristã, humanista, de rosto humano”, sublinha o padre Manuel Ribeiro, destacando que é preciso fazer isto sem ceder ao “esquema do sucesso” e “do like”, ou seja, sem produzir conteúdos apenas para gerar audiências.

“Temos de lutar contra isso”, frisa. “Cada um tem de viver este espaço, esta dimensão digital, com outra integridade. Não entrarmos na lógica de contrários. No digital encontramos vários ecossistemas. Há uns que vendem produtos, outros que vendem viagens, outros que vendem saúde, outros que vendem programas de emagrecimento. Está tudo bem. Agora, nós temos de ter um espaço onde falamos de Cristo. Tem de ser uma linguagem fresca? Tem. Uma linguagem do mundo de hoje? Tem. Não podemos [seguir] arquétipos nem linguagens do passado. Mas também tem de ir ao encontro da resposta. Noto isso na minha vida sacerdotal, na relação com as pessoas que vou encontrando: há uma sede de infinito no coração das pessoas.”

Como se lê na carta fundadora do projeto, “o mundo digital deixou de ser apenas um instrumento de comunicação para se tornar um verdadeiro ambiente de vida, onde se constroem identidades, se formam opiniões, se criam relações, se partilham feridas, se procuram respostas e, muitas vezes, se experimenta a solidão silenciosa de quem está permanentemente ligado, mas profundamente só”.

“As redes sociais, os podcasts, os canais digitais, a inteligência artificial e as novas linguagens da comunicação são hoje lugares habitados por milhões de pessoas. São uma nova geografia humana, cultural e espiritual”, diz ainda a carta. Se a aposta será eficaz, dependerá da capacidade que a Igreja Católica em Portugal — uma instituição com crónicos problemas de comunicação (a Conferência Episcopal, por exemplo, só em 2023 passou a ter uma assessora de imprensa) — tiver para implementar uma estratégia que passe pela moderação e pelo humanismo, nas palavras do padre Manuel Ribeiro, num universo digital em que a raiva e a polarização é que alimentam o algoritmo.