ISO 12312-2. É este o código que terá de fixar antes de, no próximo dia 12 de agosto, colocar os seus óculos de proteção para observar o eclipse solar que vai cobrir toda a Península Ibérica. Feitos de papel, à semelhança dos que eram utilizados nos cinemas para ver filmes em 3D, têm de cumprir uma norma específica para garantir a segurança daqueles que os usam, sob pena de causar graves e irreversíveis lesões nos olhos de quem não obedecer a estas recomendações.
Os óculos de sol que utiliza no quotidiano não servem para ver o eclipse. Uma vez que se espera uma observação prolongada da maior estrela do nosso sistema solar, será necessário munir-se de equipamento específico que não deixe passar a radiação nociva para a retina.
Fruto da comissão Eclipse 2026, criada para organizar todas as atividades relacionadas com o eclipse solar — que será total numa estreita faixa no Parque Natural de Montesinho, mas ainda assim visível no resto do país (cobertura acima de 92%) —, surgiu uma iniciativa entre a ZEISS e a rede Club da Visão para disponibilizar óculos de eclipse gratuitos, em todo o país. Em mais de 600 óticas espalhadas por Portugal Continental e as regiões autónomas dos Açores e da Madeira, foram distribuídas “centenas de milhares” de óculos, segundo a Ciência Viva, e esgotaram em poucos dias.
Porém, não faltou quem aqui visse uma oportunidade de negócio. Dias depois de o stock ter terminado nas óticas, voltou a ser reposto nas plataformas online de venda em segunda mão. Na Vinted, um par dos óculos amarelos e cor-de-rosa com uma representação do eclipse solar a dizer “Oferta” no centro da haste foi vendido por três euros. E continuam anúncios ativos por mais de 5€ ou até 10€.
A cerca de uma semana do fenómeno que só voltará a ser observado a partir do nosso país em 2144, existem mais de 80 anúncios no OLX para a venda de óculos de eclipse. Na sua maioria, são produtos comprados em massa através de plataformas como a AliExpress e adquiridos já com o objetivo de revenda. Além de partilharem fotografias, os clientes destes fornecedores chineses notam que os óculos são enviados sem proteção e chegam, muitas vezes, dobrados e com as lentes danificadas. Apesar da garantia de que são certificados com a norma ISO 12312-2, existe quem continue com dúvidas.

Uma convenção internacional e os testes à luz do Sol: como saber se os seus óculos estão aptos para um eclipse
Não deve esperar até ao dia do eclipse para experimentar o equipamento. Quando colocar os óculos pela primeira vez, se estiverem certificados, não deverá conseguir ver nada. Estes protetores de radiação e ferramenta única para observar diretamente um eclipse solar bloqueiam praticamente toda a radiação ultravioleta e infravermelha que é nociva para os nossos olhos — tal como a luz visível mais intensa emitida pelo Sol.
Existem algumas formas de verificar se os óculos reúnem todas as condições necessárias para protegerem os seus olhos no dia 12 de agosto. A norma ISO 12312-2 deverá estar identificada nas hastes ou na embalagem que sela os óculos. Trata-se do filtro que é utilizado nas lentes, que resulta de um consenso assinalado em 2015 pela Organização Internacional de Normalização (ISO, na sua sigla em inglês), para definir o que é ou não seguro para a observação deste género de fenómeno astronómico.
Apesar de a norma não ser “uma lei” e de não ser “necessariamente ilegal” vender itens que não cumpram estes requisitos, a agência internacional — da qual Portugal é membro — mantém que “não é aconselhável comprar ou utilizar um produto deste tipo, uma vez que o incumprimento dos requisitos de uma norma aplicável significa que o produto não é verdadeiramente seguro, que não é adequado para a finalidade a que se destina, ou ambas as coisas”.
Pedro Mota Machado, astrónomo e responsável pela comissão Eclipse 2026, afirma que este é “realmente um cuidado a ter”. Os óculos certificados “só deixam passar uma parte em mil da luz solar” e, por isso, “é importante” que estes produtos em circulação “tenham a certificação para observação de eclipses”. Para referência, estes filtros são “1.000 vezes” mais escuros que os óculos de sol mais escuros do mercado.
“Os óculos obtidos em farmácias, câmaras municipais ou nos centros Ciência Viva estão todos certificados, as pessoas não têm de ter preocupação. Em relação aos adquiridos em grandes superfícies, deve verificar-se se têm a certificação ISO para observação solar e a marcação CE [Conformité Européenne] gravada no lado dos óculos. Se tiverem uma ou outra, a pessoa está salvaguardada. Caso não aconteça, pode tratar-se de contrafação e aí não sabemos se os filtros são adequados ou não”, avisa ao Observador.
Pedro Mota Machado diz que “não vê nenhum problema” que existam outros fornecedores para “cobrir a procura”, mas desaconselha que se recorra a plataformas como a Vinted ou o OLX — tal como os sites chineses que não apresentam a devida certificação. Assim, para além de recomendar apenas a aquisição de óculos que cumpram a norma ISO 12312-2, também a Ordem dos Farmacêuticos recomenda que seja consultada uma lista de modelos certificados para utilização em segurança.
“Adicionalmente, os consumidores devem verificar a integridade dos óculos e confirmar que apresentam a identificação e endereço do fabricante ou importador, o número de lote que permita a rastreabilidade do produto e uma declaração de conformidade, que poderá estar acessível através de um código QR ou de um link”, diz a Ordem numa resposta enviada ao Observador.

Caso já tenha adquirido um par de óculos de um fornecedor que não conste na lista elaborada pelos especialistas ou numa grande superfície, existe um “teste” que se pode fazer, como explica o astrónomo do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. “Pode colocar-se, por exemplo, a lente da câmara do telemóvel atrás dos óculos e captar um pequeno vídeo ou fotografia do Sol ou de uma luz forte. Se os óculos forem certificados, o resultado deve ser todo escuro”, indica Pedro Mota Machado.
“Se olhar para uma fonte brilhante através dos óculos e não se ver nada, significa que estão a bloquear a grande parte da luz necessária”.
“Sem dor”, observação indevida do eclipse pode causar “lesões permanentes” nos olhos
Tal como num dia normal, olhar diretamente para o Sol é muito desaconselhado. Num cenário de eclipse, mesmo que esteja 95% coberto pela Lua no seu pico, como vai acontecer em Lisboa, por exemplo, os avisos são reforçados.
Quando se olha para o Sol, os olhos “não doem”, mas os efeitos desta visualização prolongada podem provocar “lesões permanentes”. “A observação de um eclipse do Sol sem proteção adequada pode causar danos irreversíveis nos olhos. Embora a luz solar direta não provoque dor no momento, pode originar queimaduras na retina, resultando em manchas escuras na visão, visão distorcida ou até perda permanente da visão”, escrevem os especialistas que compõem a comissão Eclipse 2026.

“Olhar diretamente para o Sol pode lesar a retina, a estrutura localizada no fundo do olho que capta a luz e participa na formação das imagens. A lesão afeta sobretudo a mácula, a região central da retina responsável pela visão nítida e detalhada”, explica a Ordem dos Farmacêuticos. Devido à ausência de dor, podem não perceber logo que sofreram uma lesão. Os sintomas podem surgir apenas horas após a observação e podem incluir visão desfocada, um ponto cego no centro da visão ou até uma maior sensibilidade à luz.
Segundo a Ordem, “a recuperação pode ser parcial ou completa e prolongar-se por vários meses”, mas existem casos em que as alterações da visão “podem ser permanentes”. Naquelas quase duas horas do período de eclipse, os óculos só devem ser retirados quando o Sol estiver totalmente ocultado — isto, em Portugal, só deverá acontecer entre Rio de Onor e Guadramil, no concelho de Bragança. “Devem voltar a ser colocados antes de reaparecer a primeira parte luminosa do Sol”, aconselham os farmacêuticos.
Também não deve fazer a observação através de câmaras, telemóveis ou até mesmo telescópios e binóculos, a não ser que tenha acesso a “filtros apropriados”. “As lentes destes aparelhos concentram a radiação solar, podendo provocar lesões oculares imediatas e graves. A radiação concentrada também pode danificar a câmara, o telemóvel ou outros componentes do aparelho”, acrescenta a Ordem dos Farmacêuticos.
Uma vez que um fenómeno como um eclipse solar atrai um público muito diverso, é preciso ter atenção à população mais jovem que se vai deslocar dentro da Península Ibérica para assistir a este evento astronómico. Dos que estarão nas ações organizadas para observação do eclipse ou nas ruas a acompanhar, as crianças são os principais alvos dos avisos emitidos pelos especialistas que estão a participar na organização do programa em Portugal.
Para a Ordem dos Farmacêuticos, é fundamental explicar “antecipadamente os riscos de olhar para o Sol sem proteção” e “supervisionar continuamente a sua observação”, para garantir que cumprem sempre as recomendações. Contudo, menciona que pode ser preferencial optar por “métodos de projeção indireta” no caso de crianças mais pequenas.

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