É possível que já alguém tenha escrito isto, é provável até que o argumento já tenha sido desenvolvido com mais argúcia, mas (que me lembre) nunca o escrevi, por isso aqui vai: na realidade, queremos que as bandas permaneçam para sempre iguais ao momento em que nos apaixonámos por elas – em particular, quando as descobrimos na altura em que nos estamos a descobrir a nós próprios.
Não é que não compremos os discos seguintes, que não mandemos mensagens a dizer “tens de ouvir a [nome da 4.ª canção do 3.º disco]”, que não compremos bilhetes para o concerto, ou que não marquemos uma ida a Coura só para os ouvir. E é certo que as melhores bandas evoluem e são capazes de nos surpreender, mas na realidade o que mexe com as nossas entranhas é aquele primeiro momento.
Sim, somos egoístas: queremos que as bandas façam sempre a mesma canção (ligeiramente diferente, para parecer nova, mas no fundo a mesma), queremos que as bandas nos provoquem o exato mesmo sentimento de euforia que nos provocaram da primeira vez. Porque, no fundo, e este é que o ponto danado, queremos permanecer exatamente no sítio em que nos apaixonámos por determinada banda – o que por norma ocorre ali algures entre os 17 e os 25 anos, quando a vida está cheia de potencialidades, quando temos o coração aberto para sermos surpreendidos, quando nos apaixonamos perdidamente por livros e discos e filmes e amigos e romances.
Esse momento em que descobrimos os Nirvana no momento em que saem, ou os Pavement ao primeiro disco, ou os National ao terceiro, esse primeiro momento de êxtase, para mais partilhado com os nossos melhores amigos (e metade da humanidade), não corresponde apenas a um pacato apreço estético. A música é aspiracional: gostamos da banda X porque nos representa, diz o que sentimos, com a intensidade que sentimos, mas faz tudo isso melhor do que nós – e no fundo, quando os olhamos, sentimos que somos um bocadinho como eles, aspiramos a ser um bocadinho como eles porque ser um bocadinho como eles é ser bastante melhor do que somos.
https://open.spotify.com/intl-pt/album/6x0nmCMjHeuN3rYBmI5Bor?si=3PdHiG3mReaLT1pE4xZvyg
Sagazmente, logo após o primeiro disco pelo qual nos quedamos de amor, percebemos – mesmo que inconscientemente – que iremos a vida toda perseguir esse momento de êxtase. Queremos que as bandas fiquem iguais e se repitam porque queremos voltar a essa inocência e euforia.
Quantas vezes é que sentimos esta epifania na vida? Dependerá de cada pessoa – lembro-me de o sentir, pelos 14 anos, com discos dos Cure, dos Pixies, dos Jesus and Mary Chain ou dos Violent Femmes, que só então descobria; e lembro-me de o sentir em primeira mão com os Nirvana ou com os Pavement ou, mais tarde, com os National e, recentemente, com os Big Thief ou os Geese (estou a falar de bandas, mas acontece-me sentir o mesmo com Rosalía, por exemplo).
Houve um momento que já não devia ter sido meu, mas ainda foi: o lançamento de Is This It, o disco de estreia dos Strokes – Is This It faz agora 25 anos, na mesma altura em que os Strokes voltam aos discos (seis anos depois do anterior) com Reality Awaits, um álbum em que Julian Casablancas usa autotune em barda, o que tem provocado o desgosto dos fãs mais velhos – provando assim que nós queremos que as bandas nunca mudem, mesmo que a média de idades dos Strokes seja agora de 46 anos, e não os 21 com que apareceram.
Costuma dizer-se que Is This it salvou o rock, ou trouxe o rock de volta, e eu, que sempre tive pé e meio na onda, mas meio pé fora, costumava dizer “Que disparate, então e os [seguia-se lista infindável de bandas de guitarra]”. Acontece que essa lista infindável de bandas de guitarra era ligeiramente mais torturada do que os Strokes. O charme dos Strokes era outro: as canções eram dinâmicas, mas melódicas, e eles tinham a pose de quem está a um passo de fazer merda, mas com toda a confiança do mundo. Eram cool e senhores de si mesmos, como se fossem uma espécie de Ramones que tomavam banho, e que apesar das suas dúvidas juvenis, estavam sempre enfiados numa festa.


Estes elementos não são negligenciáveis: o rock fora tomado pelo grunge, depois vaio a pop das Britney Spears e o rock voltou para o underground – os Sonic Youth e os Pavement ficaram ali a meio caminho, mas sejamos honestos: eles não tinham propriamente hinos adolescentes para quem estava a descobrir o corpo, as raparigas e os rapazes. Não tinham o feel good factor que os Strokes, por mais pose que fizessem de gang de moços perigosos, tinham – e tinham porque onde quer que se ouvisse uma canção dos Strokes as pessoas desatavam a fazer festa.
O poder festivo e sexual dos Strokes tornou-se-me absolutamente claro ali por 2002, quando DJ Kitten começou a organizar festas no Triplex, no Porto – festas que tinham uma particularidade: era suposto as pessoas vestirem-se de forma glamourosa ou excessiva; isto é: que não encarassem aquela festa como uma festa comum, mas sim como uma oportunidade de serem o que queriam ser.
E, Deus meu, se foram – porque aquelas festas transformaram-se no maior espaço de deboche e transgressão de que me recordo na juventude; quer dizer, eu já tinha 27 anos e de repente sentia-me como tivesse 17 outra vez, com tudo o que isso implica. Duas canções destacavam-se sempre, pela loucura que instituíam na pista: a recém-saída House of Jealous Lovers (que me fez, à primeira audição, ir a correr ter o DJ a berrar “O que é isto? O que é isto”) e, obviamente, Last Nite, dos Strokes.
Foi assim para quem tinha 27 e para quem tinha 22 e para quem tinha 17 anos, e foi assim por todo o mundo: de repente, toda a gente queria ter um casaco de cabedal (o que não acontecia desde os tempos dos Jesus and Mary Chain) e queria usar sapatilhas All Star e queria ter aquela pinta. De repente, essa geração dos 17 aos 27 anos tinha a sua banda de rock não suicida – do mesmo modo que os miúdos de 17 anos têm hoje os Geese.


Albert Hammond Jr, um dos guitarristas dos Strokes, dizia recentemente, numa entrevista ao produtor e agora podcaster Rick Rubin, que a cada um dos últimos discos tem notado que a audiência dos Strokes tem ficado mais e mais nova – alguns velhos mantêm-se fiéis, mas eles vão apanhando outras gerações pelo caminho. Ele dizia que às vezes falava com os fãs mais novos e perguntava qual a canção preferida deles e respondiam coisas como The Adults Are Talking, a faixa de abertura de The New Abnormal, o disco anterior dos Strokes. E depois complementava: “É que esse era o primeiro disco nosso que eles tinham ouvido”.
Conheço bem esses miúdos, diga-se: os Strokes são a banda preferida do meu filho e ainda me lembro de estar na sala a trabalhar, pôr Is This It a tocar, e o miúdo sair disparado do quarto a perguntar o que era aquilo. Isto é pouco dito, mas Julian Casablancas é um melodista de exceção e os arranjos de guitarras daquelas canções, desenhados com paciência de gente santa, são imaculados.
Talvez estes miúdos tenham menos problemas com o autotune que Julian Casablancas trouxe para Reality Awaits – algo que ele usa muitas vezes na sua outra banda, os Voidz. Os Voidz são mais experimentais e esquisitos do que os Strokes, o que não é difícil: Is This It tem exatamente um total de zero ideias originais, mas é o melhor bitoque com ovo a cavalo e batatas fritas dos últimos 25 anos.
A receção pública aos discos dos Strokes pós-Is This It foi sempre complicada. Room on Fire, de 2003, levou porrada por não ser Is This It, embora fosse muito parecido com este – era um Is This It ligeiramente mais sofisticado e que cometia o pecado de ter 2 ou 3 canções que não eram singles perfeitos. First Impressions of Earth ainda tem boas composições por ali, mas é preciso assinalar que a dada altura o simples facto de os membros dos Strokes estarem vivos já era um milagre. Aqueles cérebros estavam espalhados por demasiadas bandas paralelas, demasiadas drogas, demasiado álcool, demasiado sexo. Angles e Comedwon Machine podiam muito bem nunca ter saído que não se perdia grande coisa.
https://www.youtube.com/watch?v=4u3iI1WuU0k
Mas Reality Awaits tem graça – não lembra os Strokes do início e acho que não era essa a ideia deles; aliás, Hammond Jr. dizia recentemente que eles não podiam ter a intensidade de outrora, mas essa limitação era usada como ferramenta para compor de maneira diferente. Reality Awaits soa a não sei quantas bandas que nunca associaríamos aos Strokes (os Roxy Music, os Tuxedomoon) e está cheio de grandes canções – o riff escuro de Dine n’Dash é uma maravilha, o de Lonely in the Future idem (e esta é a talvez a canção do disco que mais se aproxima do passado dos Strokes).
Exigimos aos artistas que permaneçam jovens, magros, cheios de energia e com uma intensidade impossível quando o tempo passa, que é coisa que acontece sempre – exigimos-lhes que sejam a esperança dos miúdos, que sejam aquilo que os miúdos imaginam vir a ser. Mas as pessoas envelhecem, casam, têm filhos, compram casa, divorciam-se; como é que alguém pode permanecer a ser o que já não é?
Reality Awaits é uma bela coleção de canções avariadas, de cinco tipos que já não têm nada a provar e que sobretudo querem divertir-se a criar. Não obedece minimamente às regras do bom gosto e não levará nenhum rapaz ou rapariga de 22 anos a dançar de tronco nu na pista, como nas festas do Triplex há vinte e muitos anos. Falling out of Love, uma lindíssima balada com auto-tune, falsete e belos arranjos de guitarras, podia ser uma canção da fase soul dos Tindersticks (não estou a brincar).
Estes já não são os Strokes de antigamente. Mas sabem que mais? Este disco, estas canções, este gresso, assim que deixamos de lhes exigir que sejam os Strokes de há 25 anos, sabe mesmo bem.