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(A) :: Anna Wintour escolhe John Galliano como tema da próxima Met Gala. "A sua carreira não se define por um único momento"

Anna Wintour escolhe John Galliano como tema da próxima Met Gala. "A sua carreira não se define por um único momento"

O polémico designer, que depois de fazer comentários antissemitas em 2011 viu a sua carreira na moda arruinada, prepara um regresso há anos. Agora consagra-se com a ajuda da amiga de longa data.

Sâmia Fiates
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Há 30 anos a princesa Diana subia a escadaria do Metropolitan Museum para, pela primeira e única vez, participar numa Met Gala. O baile, que na altura era muito mais discreto do que nos dias atuais, tinha como objetivo homenagear o legado de Christian Dior. E foi num vestido de alta costura da maison francesa que a recém-divorciada fez a sua tão impactante aparição. Não era uma criação original do pioneiro designer, ou um vestido de arquivo. A peça em seda azul-escuro com uma fina renda preta a contornar o decote transbordava o boudoir de John Galliano. Foi a sua primeira criação para a Dior depois de um sucesso arrebatador na Givenchy — seguiriam-se 15 anos à frente da casa de moda, a construir uma narrativa própria e a dar o seu nome a um novo estilo. Mas a Dior foi a sua ascensão e queda.

Passados 15 anos da polémica que o afastou da posição de topo — os comentários antissemitas, uma condenação por um crime de ódio num tribunal de Paris e um período de reabilitação –, o designer britânico vem dando passos lentos rumo ao lugar que muitos julgam que nunca deveria ter perdido. E em 2027, com um empurrãozinho da amiga de longa data, Anna Wintour, John Galliano poderá receber a derradeira absolvição.

A próxima exposição do Costume Institute — e consequentemente, tema do baile de máscaras mais concorrido do mundo da moda (e não só) — tem como tema: “John Galliano: Horizons”. O criador é apenas o terceiro na história do evento a ser homenageado ainda em vida. O primeiro foi Yves Saint Laurent, em 1983, e a segunda foi Rei Kawakubo, da Comme des Garçons, em 2017.

“Não há ninguém mais merecedor de uma exposição desta magnitude do que John Galliano”, disse num comunicado a diretora de conteúdo da Condé Nast e diretora editorial global da Vogue. “É um grande criador e a sua carreira não se define por um único momento — algo com que ele conviverá pelo resto da vida. A exposição não se esquivará de nenhum aspeto sombrio do passado de John. Faz parte do que o moldou. A mostra abrangerá toda a trajetória da sua carreira e abordará todos os seus aspetos”, promete.

Uma escolha no mínimo “espinhosa” para o atual contexto, como assinala o New York Times, lembrando como a Big Apple tem vivido o tema do antissemitismo na era Mamdani. De acordo com o jornal, a polémica foi antecipada: Anna Wintour, o curador do Costume Institute, Andrew Bolton e John Galliano reuniram-se durante o último ano com alguns dos rabinos mais influentes e líderes da comunidade judaica da cidade.

“Compreendo perfeitamente por que razão o momento pode parecer particularmente difícil agora, dado o alarmante aumento do ódio, mas acredito que isso torna as questões atuais ainda mais urgentes — e não menos”, disse ao jornal o curador da exposição. “A questão mais importante não é se o comportamento artístico justifica a transgressão, mas como conciliar a realização artística e a responsabilidade ética sem permitir que uma apague a outra. E num momento de crescente polarização, sinto que o museu e eu temos uma responsabilidade real de enfrentar essas questões”, assinala Bolton.

Ouvidos pelo NYT, alguns dos líderes da comunidade judaica de Nova Iorque que participaram das reuniões assumem acreditar que Galliano “resolveu” as suas questões. “Já aceitámos há muito tempo as suas desculpas. Os seus esforços para reparar os danos que as suas palavras causaram e para aprender com o incidente devem ser aplaudidos”, disse Jonathan Greenblatt, diretor da Anti-Defamation League. “O que dissemos a eles foi que seria impactante, comovente e produtivo se eles pudessem aproveitar a oportunidade para ensinar sobre a realidade do antissemitismo e, de alguma forma, incorporar à exposição a importância de combatê-lo e os perigos do antissemitismo neste momento”, disse o rabino Joshua Davidson, do Templo Emanu-El, uma sinagoga de 180 anos localizada a poucos quarteirões ao sul do Metropolitan Museum.

Horizons é uma exposição que se aproveita do acervo considerável da instituição — que inclui peças do primeiro desfile do designer, em 1984, quando apresentou a coleção de formatura na Central Saint Martins. Há ainda roupas, acessórios, esboços, protótipos, cadernos e materiais de arquivo que contam a história dos primeiros anos de Galliano em Londres; passando pelos poucos meses na Givenchy; os 15 anos à frente da Dior e a reinvenção na Maison Margiela, já depois da polémica, entre 2014 e 2024.

“Cada coleção de Galliano começa como uma jornada entre coisas separadas pelo tempo, lugar ou meio: retrato e postura, silhueta e história, memória e material”, disse Bolton num comunicado divulgado pela Vogue. “Horizons aborda a moda como uma forma de cartografia, mapeando não territórios, mas afinidades, tensões e transformações”, assinala o curador. “A exposição, portanto, considera tanto como Galliano remapeou o mundo através da moda quanto como a sua conduta, suas consequências e a mudança dos valores culturais remodelaram a nossa compreensão da sua obra.”

A exposição consagra um ano já importante para o regresso de Galliano. Em janeiro esteve no desfile de alta-costura da Dior e posou ao lado de Jonathan Anderson, marcando uma espécie de pazes públicas com a maison francesa. Já em março, foi a Zara a anunciar aposta no designer, confiando que a sua popularidade poderia alavancar uma coleção premium — que ainda não tem data para ser revelada.