Um ataque de drone contra um tribunal comunitário no estado do Darfur do Norte, no Sudão, matou 35 pessoas este domingo, relatou um grupo de defesa dos direitos humanos, acusando o exército regular de ser o responsável.
Segundo o Emergency Lawyers, um grupo independente que documenta o conflito entre o exército e os paramilitares iniciado em 2023, o ataque visou o tribunal da aldeia de Garra al-Zawaya a meio do dia, numa altura em que civis “se tinham reunido para assistir a audiências sobre um conjunto de processos e litígios locais”.
O ataque também danificou o edifício do tribunal, uma instituição tradicional utilizada para resolver disputas locais e tribais, indicou o grupo.
O conflito entre o exército e as Forças de Apoio Rápido (FAR), que eclodiu em abril de 2023, fez dezenas de milhares de mortos, provocou o deslocamento de milhões de pessoas e desencadeou o que as Nações Unidas descrevem como a crise de fome mais grave do mundo.
Entre as pessoas mortas figuravam “quatro chefes tribais e dois comandantes das FAR”, declarou à agência France-Presse uma testemunha, que pediu para não ser identificada por razões de segurança.
O exército não reagiu no imediato, enquanto o Governo autoproclamado das FAR condenou o ataque, classificando-o como um “crime horrível”, e relatou, por sua vez, que 37 pessoas tinham sido mortas e 50 outras ficado feridas.
A guerra dividiu, na prática, o Sudão em dois: o exército controla o norte, o leste e o centro do país, enquanto as FAR consolidaram o domínio sobre o Darfur, a oeste, e algumas regiões do sul.
Garra al-Zawaya fica situada perto da cidade de Kabkabiya, no Darfur do Norte, a cerca de 150 quilómetros a oeste de El-Fasher, o último bastião do exército no Darfur antes da sua tomada pelas FAR durante uma ofensiva sangrenta em outubro passado.
Após conquistarem a cidade, as FAR, oriundas das milícias Janjawid, acusadas de atrocidades no Darfur no início dos anos 2000, consolidaram o seu controlo sobre uma grande parte da região.
Os investigadores da ONU declararam que as violências ligadas ao cerco e à tomada de El-Fasher pelas FAR apresentavam “as características de um genocídio”.
A utilização de drones tornou-se uma característica cada vez mais proeminente do conflito nos últimos meses. Segundo as Nações Unidas, mais de 1.000 civis foram mortos em ataques deste tipo durante os primeiros cinco meses do ano.
Na semana passada, após perder o controlo de uma autoestrada estratégica que liga a capital Cartum à cidade de El-Obeid, o comandante das FAR, Mohamed Hamdan Daglo, divulgou uma mensagem de vídeo na qual disse aos combatentes que podiam considerar-se “livres de qualquer limitação” na guerra contra o exército.
A ONU alertou repetidamente que os avanços das FAR em El-Obeid e em toda a região do Kordofan poderiam levar a atrocidades de grande escala.
El-Obeid, a maior cidade da região do Kordofan do Sul, tem sido alvo de intensos ataques de drones nas últimas semanas, o que levou a ONU a emitir um “alerta vermelho” perante a “catástrofe” aí em curso, onde as FAR procuraram reimpor um bloqueio e onde se teme que estejam a preparar uma ofensiva terrestre.
Ambos os lados são acusados de crimes de guerra, nomeadamente de ataques indiscriminados contra civis. As FAR têm sido particularmente acusadas de violência sexual sistemática e de saques.