O atentado cometido em Berlim a 25 de Julho, em que Abdul Ballout, alemão-libanês, conduziu a sua carrinha contra os manifestantes, tendo-os atacado com um machete ao abandonar a viatura, causou um morto e 29 feridos, três dos quais em estado grave, e suscitou um comentário revelador e instrutivo por parte de uma participante numa vigília de homenagem às vítimas. Tomou a palavra e disse que, ao receber a notícia, pensou: espero que o condutor não tenha sido um canaca, mas uma pessoa branca cristã.
O desvio é imediato. Em vez da vítima, foi a qualidade ideológica (a raça, neste caso branca, é igualmente vista ideologicamente, na medida em que dela se derivam comportamentos) do autor do crime a suscitar a identificação. A compaixão natural, que transcende as diferenças e se dirige ao sofrimento humano em geral, não aflorou sequer à consciência. Trata-se de uma destrivialização do juízo moral, o qual visa – imediatamente – uma vítima de violência, sem impedir a análise posterior do caso de uma perspectiva ideológica. A compaixão, por definição, não escolhe, e por isso pode dirigir-se tanto a amigos como a inimigos. As ideologias, pelo contrário, podem ser debatidas, modificadas e escolhidas em processos argumentativos. Ora, a destrivialização da compaixão tem como seu avesso dialéctico a trivialização da ideologia, que por essa via é subtraída à esfera argumentativa e se incrusta como sentimento. Por outras palavras, a compaixão deixa de ser sentimental e passa a matéria de escolha, tal como a ideologia deixa de ser matéria de escolha e passa a sentimento. Sem dúvida que, na realidade, os matizes são muitos; e os casos puros, uma impossibilidade.
Uma ideologia, contudo, tem de poder ser exposta e fundamentada com um grau mínimo de racionalidade, uma vez que, enquanto ideologia, transcende a esfera privada do sentimento, e se reveste de um carácter público e prosélito, no bom sentido do termo. Quem acredita em alguma coisa atribui-lhe uma validade intersubjectiva, penhor óbvio de um grau mínimo de objectividade. Assim sendo, é sempre possível decompor um sentimento político em razões e motivos. As declarações daquela participante provam-no à saciedade quando ela diz – espero. Uma tal confissão é tanto mais sintomática quanto mais involuntária. O que é dito é que a violência decorre da qualidade da pessoa como um mero processo natural, orgânico e, ponto essencial, involuntário. Tudo estaria na ordem natural das coisas, o mundo continuaria nos seus eixos, se o autor do atentado fosse uma pessoa branca cristã. Desse modo, a história é reabsorvida na imanência da natureza. O espero assinala, no entanto, a contradição. As duas ontologias, história e natureza, entram em conflito, dado que a unidade da natureza não admite divisões a partir do exterior e só se especifica por movimento interno. Significa isso que a natureza tem de aparecer ideologizada a partir de si e não definida a partir do exterior, por essa razão a esperança não cumprida desmente a unidade postulada de natureza e história, e devolve cada ontologia à sua validade própria, bem como revoga a funcionalização do sujeito ideológico, sediando-o na particularidade. O sujeito ideológico não fala em nome da natureza das coisas, do universal, mas tão-somente de uma perspectiva limitada e sujeita a discussão. A desidentificação com o universal põe a nu o que se quer ocultar: a definição negativa que subjaz à identificação primária. O atentado contra os manifestantes da marcha Pride apenas pode decorrer de uma pessoa branca cristã porque se aceita de antemão que não poderia, na boa ordem do mundo, ser cometido por um terrorista islâmico. E porque não? De imediato vem à tona a motivação: porque o islamismo é contra as pessoas brancas cristãs. A unidade do universal faz-se a expensas de uma divisão moral primordial entre bem e mal. A natureza traz no seu bojo a maldade das pessoas brancas cristãs, tal como traz a bondade de todos os que se lhes opõem – a morte dos manifestantes às mãos de uma pessoa branca cristã demonstra in actu o bem-fundado da tese – funde a natureza e a história (ideologia) e oculta a própria fusão. É o sacrifício – amparo espúrio da esperança – que aquieta as consciências. Esperam na morte, nunca na vida.