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Os nossos tempos: Estranhos

A ideia de que podemos ter uma relação íntima com um estranho é capaz de despertar os nossos terrores mais profundos. Somos inquietados pelo medo de que nos aconteça

Patrícia Fernandes
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Lançado em 2004, o filme Closer abre com uma Natalie Portman muito nova e de cabelo vermelho a caminhar pelas ruas cinzentas de Londres. O seu olhar cruza-se com o de Jude Law, do outro lado da rua, ao som da música The blower’s daughter, de Damien Rice, num jogo de atração mútua que reconhecemos imediatamente: I can’t take my eyes off you. A cena termina, como é quase inevitável em Londres, com um atropelamento: Alice é norte-americana e esquece-se de que os carros correm em sentido contrário. Quando Dan se aproxima, ela cumprimenta-o com uma frase que marca toda a história: Hello, stranger.

O filme é baseado na peça de Patrick Marber, de 1997, entendida como uma espécie de versão moderna de Così fan tutte, a ópera de Mozart com libreto de Lorenzo Da Ponte, apresentada pela primeira vez em Viena no ano de 1790: o objetivo é provar a natureza traidora das mulheres, no final fica tudo perdoado. Em Closer, a história envolve igualmente quatro personagens em relações complicadas de amor, desejo e traição. No final, ninguém se conhece realmente: parecem todos estranhos uns aos outros.

A ideia de que podemos ter uma relação íntima com um estranho é capaz de despertar os nossos terrores mais profundos. Somos inquietados pelo medo de que nos aconteça, mas queremos saber quando acontece aos outros – o que é, provavelmente, a razão pela qual o livro de Belle Burden se tornou presença assídua no top de não-ficção do The New York Times desde o início do ano: trata-se de um relato real e que, ainda por cima, envolve pessoas com algum reconhecimento público.

Estranhos é uma espécie de versão moderna do fenómeno dos “homens fugitivos”, aqueles que foram comprar tabaco e nunca mais voltaram. O casamento, aparentemente estável, tem 20 anos e três filhos quando Belle descobre que o marido tem uma relação extraconjugal. Enquanto pensa em toda a terapia e esforço que serão necessários, o marido diz-lhe que quer o divórcio e sai imediatamente de casa. Ficam pendentes questões de dinheiro e propriedade: dos filhos, ele nunca quis a guarda; a explicação que ela queria – e de que precisava – ele nunca dará.

É difícil não nos colocarmos do lado de Belle. Parece ponderada, sobretudo quando tenta o exercício da responsabilidade:

“Apesar de o James me ter garantido que não tinha sido por minha culpa, o meu maior medo continuava a ser a explicação mais simples: foi por minha causa. Não tinha feito o James feliz. Pior, tinha-o feito infeliz. Talvez fosse tão simples quanto isso. (…) [T]alvez eu não tenha conseguido ver os sinais da sua infelicidade – o deitar-se muito cedo, a repetição maquinal da sua rotina diária (trabalho, ténis, televisão), o cocktail assim que chegava a casa. Devia ter percebido e devia ter feito algo a esse respeito.

Concluindo depois:

[Mas] será que a culpa é realmente repartida em partes iguais quando a pessoa infeliz não diz que se sente infeliz? Quando age como se nada lhe faltasse, deixando que seja o cônjuge a adivinhar o que não está bem? Quando não dá ao cônjuge nenhum aviso, nenhuma oportunidade para mudar de rumo, para crescer, antes de o trair, antes de cortar os laços?

Belle poderia ter avançado, a partir daqui, para uma reflexão mais profunda de como uma cultura em que o divórcio é assumido como normalidade está longe de ser bem-sucedida. De como a falta de penalizações morais e sociais para aqueles que decidem simplesmente ir-se embora está longe de ser um progresso social. De como uma cultura tão individualista – ao ponto de garantir que alguém se consegue sentir feliz depois de fazer a coisa errada – falha no objetivo de tornar as pessoas melhores. Ou de como uma cultura que coloca a autonomia pessoal num altar se dispõe a sacrificar valores igualmente importantes, relacionados em particular com os filhos.

Infelizmente, Belle opta por diatribes feministas – que, no seu caso, são especialmente classistas e desinteressantes – e termina o seu livro na posição hoje habitual de vitimização feminina: todas as mulheres teriam sido “ensinadas a preencher o vazio deixado pelos homens, a calar-nos sobre a sua conduta, a seguir em frente com dignidade” e as dúvidas que por vezes tinha sobre se faria bem em escrever um livro não ficcional sobre o fim do casamento não passariam, afinal, de uma voz sexista:

“Percebi que a voz na minha cabeça, a voz que me envergonhava, estava presente desde que eu era pequena, a avisar-me para não falar, especialmente acerca de um homem. Percebi que aquela voz era sexista. Percebi que estava a silenciar-me.”

Belle poderia ter reconhecido que, nos Estados Unidos, estima-se que as mulheres sejam responsáveis por 70% de todos os pedidos de divórcio e poderia ter reconhecido que há muita responsabilidade feminina nesta cultura de desleixo familiar. Mas, claro, isso não tornaria Estranhos num livro típico dos nossos tempos.