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(A) :: Mensagens nas redes sociais sobre "fronteira aberta" em Ceuta aliciaram milhares de jovens. Resistentes prometem ficar "até morrer"

Mensagens nas redes sociais sobre "fronteira aberta" em Ceuta aliciaram milhares de jovens. Resistentes prometem ficar "até morrer"

A mensagem de que a fronteira entre Espanha e Marrocos estava aberta circulou nas redes sociais durante horas. Migrantes que resistem em Ceuta garantem que vão fazer tudo para não regressar.

Inês André Figueiredo
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João Porfírio
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Adbelkarim está a beber café e a fumar um cigarro num pequeno bairro de Tânger, em Marrocos, quando um vendedor ambulante passa de mota e grita: “Quem quer ir a Ceuta pode ir, a fronteira está aberta. Não precisam de papéis nem dinheiro.” Recebe a notícia desta forma e não hesita nem um segundo. Chama um táxi, pede que o levem até Castillejos (também conhecida por Fnideq, a cidade marroquina mais próxima de Ceuta), faz quase uma hora e meia de caminho a pé e recorda uma passagem de fronteira sem quaisquer imprevistos: “Nadei por dois ou três minutos e entrei na praia sem problemas.”

Está há três dias em Ceuta, mas no último ano e meio tentou a mesma travessia “muitíssimas vezes”. Nunca com sucesso. Adbelkarim viveu quase toda a vida na Europa. Chegou sozinho a Espanha aos 12 anos. Na altura, fugiu e deixou a família para trás. Ao fim de alguns anos conseguiu documentos para permanecer legal na Europa. Mas uma série de “azares” e uma “cabeça perdida” deram cabo do sonho.

Esteve três anos a trabalhar ilegalmente em Estocolmo, foi “apanhado sem papéis” e devolvido a Espanha, onde lhe disseram que o processo dele tinha caducado. Tentou fugir para a Alemanha de comboio e foi detido em Paris. As autoridades mandaram-no de volta para território espanhol e foi deportado para Marrocos. “Passei mal na Europa, mas no meu país só tenho razões para chorar.”

Agora que conquistou uma “nova oportunidade” para regressar à Europa, Adbelkarim recusa qualquer outra opção: “Quando não se tem nada, não se pode perder nada.”

O marroquino é apenas um entre centenas de migrantes que se acumulam à porta do CETI, o centro de alojamento temporário para imigrantes, que já estava cheio mesmo antes da mais recente crise. Estão 750 pessoas no interior daqueles muros protegidos por seguranças, polícias e, por vezes, militares do exército — dependendo dos ânimos daqueles que estão do lado de fora e que desejam entrar. Não há espaço para mais ninguém e nos últimos dias abriu-se apenas uma exceção: uma mãe que chegou com um filho recém-nascido nos braços. É um segurança que trabalha ali há vários anos que o conta, garantindo que a atual situação é “muito pior do que em 2021.” (Em maio desse ano, cerca de 10 mil migrantes entraram no território espanhol em apenas 48 horas, a nado ou a pé, depois de Marrocos ter abrandado os controlos fronteiriços).

O centro tenta ajudar as pessoas com problemas de saúde, como os diabéticos, mas não tem capacidade de fazer mais. Não há comida para tanta gente. Nem sequer sítio para deitar as pessoas. E teme-se que o pior da crise esteja para chegar. Mesmo assim, antes de a polícia fechar definitivamente a estrada que dá acesso à entrada do CETI, quem tem a sorte de viver no interior faz o que pode: um gesto tão simples como encher as garrafas, já esmagadas, das pessoas que ficaram de fora e que chegam através das grades. Com o calor abrasador que se sente em Ceuta, sem comida e a dormir na rua há dias, agradece-se a água da torneira como se de um milagre se tratasse.

Resistentes garantem que não regressam: “Prefiro morrer a voltar para Marrocos”

Agora que a esmagadora maioria dos migrantes que pisaram Ceuta nos últimos dias regressaram a Marrocos, sobram os mais resistentes, os que não têm nada a perder, os que vão fazer tudo para não voltar para trás. Quase todos estão nos arredores do CETI ou na Playa Del Trampolín, a poucos metros — porque a polícia está a impedir a passagem para que não se acumulem todos no mesmo local. Entre a praia por onde entraram e o sítio onde estão à espera que algo aconteça há uma hora de distância a pé.

Quem sai daquele local para ir buscar comida já não consegue regressar porque há elementos do exército a reencaminhá-los para a fronteira. Essa é, atualmente, a estratégia das autoridades: tentar que as pessoas saiam pela fronteira terrestre e voltem a casa.

Aya, de 22 anos, é uma das poucas mulheres migrantes que se mantêm em Espanha. É do Sudão, fugiu da guerra, perdeu a mãe e o pai. Conseguiu chegar a Marrocos e vivia lá há cinco meses, mas diz ser vítima de racismo. Foi proibida de ir à escola. Por isso, não quer voltar e garante estar preparada para ficar em frente ao centro de acolhimento o tempo que for necessário.

Conta que a mensagem que circula é a seguinte: “Quem conseguir vaga no centro tem onde dormir e comer até obter documentos e seguir para Madrid, de barco.” Sem desviar o olhar do chão, sentada num lancil de passeio, Aya mantém o mesmo tom de voz calmo para confidenciar: “Neste momento, prefiro morrer a voltar para Marrocos.”

De dia para dia, as condições naquela zona são mais complicadas. O chão serve de cama, seja ele de alcatrão ou terra. Tudo é usado para se protegerem do sol. A pele está queimada. Os pés descalços estão feridos e ressequidos, sinal de quem percorreu as ruas de Ceuta durante os últimos dias. As garrafas estão tão usadas que parecem ter saído do lixo. Suplica-se por comida e água. Mas também por internet e carregadores para ligar para casa. O cheiro está pior a cada dia que passa.

“Está tudo nas mãos de Deus”, diz Azham, ao mesmo tempo que tira as mãos dos bolsos para apontar para o céu. Também veio de Marrocos, de Casablanca, mas é da Guiné Equatorial. Está curioso para perceber o que é que as autoridades espanholas vão fazer com os migrantes que chegaram a Ceuta e que ainda permanecem. E essa é uma conversa comum entre os grupos de pessoas que se vão criando: “Estão a tentar manter-nos o máximo possível sem água e comida para desistirmos? Querem matar-nos?”

Entre as centenas de migrantes que se mantêm em Ceuta, muitos são da África Subsariana. Mohamed nasceu na Nigéria, saiu do país há cinco anos e já passou pela Argélia e por Marrocos. Distribui jogo com uma bola de futebol entre vários amigos que fez recentemente. Agora que chegou a Espanha, nem lhe passa pela cabeça desistir. “É aguentar e sobreviver até que alguém nos ajude. Não acredito que nos deixem morrer neste estado.”

Uns metros abaixo, na Playa Del Trampolín, Zakaria está na fila para preencher uma folha da Asociación Elín, uma organização não governamental (ONG) de Ceuta. Diz que foi distribuída pela Cruz Vermelha e que servirá para que “venham trazer comida”. Não tem a mínima certeza sobre se esse momento vai mesmo chegar e até estranha a folha: “Será que serve apenas para saberem quantos somos e quem está cá?”, questiona.

Na praia, transformada num centro de asilo ao ar livre, em que a polícia tenta impedir que mais migrantes cheguem ao CETI, há centenas de homens. Aproveitam as sombras dos chapéus para descansar, banham-se nos chuveiros de praia, enchem garrafas e alguns até aproveitam para mergulhos no mar. Na tarde de domingo, pela primeira vez, o exército espanhol distribuiu água através de uma cisterna. Mas há migrantes a fazer sinal de que têm fome. Há quem esteja há cinco dias sem comer.

Num espanhol aperfeiçoado nos anos em que viveu na Europa, o jovem marroquino Zakaria é um dos poucos que fala em “asilo” — e explica que Espanha, por lei, não os pode mandar embora porque entraram pelo mar, “nem sequer pode deixar esta gente morrer à fome”.

Por outro lado, Achraf tira do bolso uma carta do Ministério do Interior, onde se lê que o “interessado” tem de comparecer na Oficina de Asilo e Refúgio no posto fronteiriço de El Tarajal para solicitar proteção internacional. Assinada por um funcionário, um intérprete e pelo próprio marroquino, a carta teria de ser apresentada no dia 30 de julho, mas o jovem não foi ao local, perto da praia por onde entrou no país. Tem medo de ser obrigado pelas autoridades a deixar Espanha pela fronteira terrestre, mesmo ali ao lado. A confiança foi minada porque muitos sentem-se enganados.

As mensagens que circularam à velocidade da luz

Nos últimos dias, multiplicam-se as perguntas relativamente ao que levou milhares de pessoas a atravessar a fronteira entre Marrocos e Espanha, muitos arriscando a vida, quando Ceuta não tem capacidade para os acolher — de tal forma que a cidade foi obrigada a parar.

Politicamente, há duas razões que podem ter contribuído para a situação. A primeira é o facto de o Supremo Tribunal de Espanha ter confirmado, no dia 8 de julho, a decisão que proíbe as devoluções imediatas para quem entra a nado, por falta de “barreiras físicas” no mar. A segunda foi a visita do presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, à Argélia, o país vizinho e rival de Marrocos.

Sem haver uma relação comprovada entre os dois acontecimentos e a vaga de migrantes que entraram em Ceuta, a verdade é que Sánchez sugeriu que a decisão do tribunal “correu como pólvora nas redes sociais”, o que terá levado a um incentivo da travessia. Por outro lado, para o governo marroquino, “as interpretações erradas e a divulgação enganosa” da decisão do tribunal fizeram com que os migrantes pensassem que era possível “evitar o regresso imediato”. Além disso, o governo culpou as mensagens nas redes sociais e as “máfias de tráfico humano” pelo volume inesperado de pessoas que atravessaram a fronteira para Ceuta.

Até agora, não é possível comprovar como é que o boato de que as fronteiras estavam abertas circulou, mas a verdade é que se espalhou a uma velocidade estonteante — de tal forma que, em apenas poucas horas, entraram em território espanhol mais de 60 mil migrantes.

Se Adbelkarim ouviu o recado através de um vendedor ambulante, Azham, que trabalha numa escola há cinco anos, recebeu um áudio de um amigo no WhatsApp, amigo esse que tinha visto uma publicação no Facebook e estava já a caminho da fronteira. “Ele ligou-me a dizer que as pessoas estavam a sair de forma gratuita e, como estava de férias, pensei: ‘Por que não dar lá um salto e ver? Posso tentar a minha sorte. E aqui estou.”

A cadeia humana tornou-se gigantesca e impossível de controlar. Mounaim Belhaj, criador de conteúdo digital com mais de 30 mil seguidores no Instagram, foi um dos marroquinos que atravessou a fronteira e já voltou para casa. Também viu apelos nas redes sociais, mas assume que foram os vídeos enviados por amigos que o incentivaram a fazer a passagem.

De um momento para o outro, as redes sociais dos jovens marroquinos foram invadidas por imagens de outros jovens a chegarem a Ceuta — alguns gravaram e publicaram a travessia, outros relataram em direto e houve ainda quem fosse tirando fotos e partilhando as horas seguintes à entrada em território espanhol. Um grupo de amigos marroquinos que passou junto à fronteira chegou a garantir que foi a própria polícia marroquina que confirmou que “a fronteira estava aberta”, o que os deixou mais tranquilos.

A hashtag “hrig” — que em árabe marroquino significa “queimar os papéis” — tornou-se viral, bem como os nomes das cidades Fnideq e Ceuta, em vários idiomas. De acordo com o El País, “Hrig Sebta” transformou-se na maior comunidade (presente no Facebook, TikTok, X, Instagram e outras redes sociais) a amplificar a mensagem. Já foi desativada, mas chegou a ter mais de 20.000 seguidores. Além das publicações, acredita-se na possibilidade de terem sido usados bots para viralizar as mensagens.

Em Ceuta, os migrantes que ainda estão na cidade e muitos dos que já saíram contam a mesma história. “Ficámos a saber pela internet, toda a gente estava a falar disso. Como disseram que a fronteira estava aberta e que não precisávamos de papéis nem de pagar nada, não havia razões para não tentar”, explicou Aya, a jovem do Sudão que não pretende voltar para Marrocos.

Por muito que haja razões políticas por detrás das decisões de atravessar uma fronteira a nado, por muito que Marrocos tenha deixado de controlar a fronteira por algumas horas — como revelaram vários meios de comunicação social espanhóis — e por muito que a mensagem tenha corrido nas redes sociais à velocidade da luz, para aqueles que arriscaram a vida em busca de melhores condições de vida bastou ouvir duas ou três palavras: a fronteira está aberta, é grátis.

“Quando tens a oportunidade pela qual esperaste a vida inteira, não há como olhar para trás”, desabafa Walid. Zakaria resume o sentimento dos milhares que ainda estão em Ceuta. “Não sei se houve ou não razões políticas, não sei se é culpa de Marrocos ou de Espanha. Não sei se Marrocos não gostou da viagem de Sánchez à Argélia, mas sei que nenhuma das pessoas que está a morrer de fome quer saber disso. Estamos aqui para lutar por nós e pelos nossos sonhos. E ninguém se importa de morrer a tentar.”