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Os telemóveis, de novo

Se é tão simples que os adolescentes sejam capazes de se auto-regularem na relação com os telemóveis porque é que os pais e os professores não o conseguem fazer?

Eduardo Sá
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A proibição de telemóveis na escola vai ser alargada até ao 9.º ano, a partir de Janeiro. E, desde logo, têm surgido opiniões que se manifestam contra isso. Afirmando que proibir não é o caminho e que temos que ajudar os adolescentes a regular a sua relação com os telemóveis. E a afirmar que os telemóveis não são o principal motivo de distracção dos alunos na escola.

Voltemos, portanto, a este tema.

É razoável que os telemóveis não sejam permitidos nos recreios, no bar e nos refeitórios da escola até ao 9.º ano.

Em primeiro lugar, porque a ideia não passa por criar uma geração de infoexcluídos e, muito menos, por alimentar uma clivagem entre tecnofílicos e tecnofóbicos. Mas por criar condições para que os adolescentes se socializem nos espaços comuns da escola, falem, corram ou joguem. E isso não é uma restrição que tenha em vista o seu prejuízo mas, pelo contrário, representa a escola a estar atenta com a promoção da saúde mental dos seus alunos.

Em segundo lugar, a proibição de telemóveis em espaços comuns da escola não representa que ela crie, com isso, obstáculos ao uso das novas tecnologias ou do digital nas aprendizagens. (Que sentido teria?) Por mais que a escola tenha sobre si o enorme desafio de compatibilizar os formatos indispensáveis aos processos cognitivos, afectivos, motores e sociais das aprendizagens básicas das crianças com a introdução, em paralelo, das novas tecnologias. Se bem que um certo deslumbramento com a sua introdução acelerada possa prejudicar, por vezes, a estruturação dos alicerces das aprendizagens.

Em terceiro lugar, essa proibição não resulta da forma com a escola associa, de forma linear, distracção e equipamentos digitais. A distractatibilidade dos adolescentes depende das horas de aulas que eles têm. Dos seus “nano-recreios”. Da qualidade dos seus professores. Dos programas das disciplinas. Da pedagogia. Do stress com que vivem os resultados e a escola. Do período da sua própria adolescência. Das turmas onde estão. Etc. Mas, também, nalgumas circunstâncias, da forma como as novas tecnologias lhes trazem ruído ao processo de aprendizagem.

Em quarto lugar, a escola serve, também, para trazer regras e educar. Logo, não faz sentido que se espere dos adolescentes aquilo de que os adultos não são capazes. Se é tão simples que os adolescentes sejam capazes de se auto-regularem na relação com os telemóveis porque é que os pais e os professores não o conseguem fazer?

Em quinto lugar, a proibição de telemóveis nos recreios não invalida que haja professores que, quando assim o entendam, convidem ao seu uso, em contexto dum determinado tema, na sala de aula.

Por tudo isto, é verdade que não é razoável que as crianças tenham acesso muito precoce a telefones com dados. Isso faz-lhes mal e manipula-as. E compromete a sua inteligência e as suas aprendizagens. Mas se os pais os entendem oferecer, não medindo todas as consequências desse gesto, porque não há-de a escola definir regras, diferentes das deles, para a sua utilização?

É claro que ninguém pretende que as crianças cresçam longe do mundo em que vivem, como se protegê-las fosse criá-las em bolhas em relação à escola, à televisão ou às novas tecnologias, por exemplo, como se fosse isso que as tornasse robustas. Mas não é razoável que a escola não comparticipe na educação dos nossos filhos. Em relação ao ambiente, à cidadania ou às novas tecnologias; à escala do que é equilibrado. Um mundo em que a família é educada pela escola ao mesmo tempo que os pais a educam, também, e família e escola educam as crianças da mesma forma que elas nos educam dentro do que é razoável, não nos põe a construir um mundo feio e prepotente. Mas sensato. E claro, naquilo que nos pede. E desafiador em relação ao que nos convida. Mas, acima de tudo, mais humano. E há medidas, como esta, que podem contribuir muito para isso.