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(A) :: O medo, a revolta e a certeza de que a crise ainda não acabou. Ceuta volta a ter vida, mas traumas não desaparecem

O medo, a revolta e a certeza de que a crise ainda não acabou. Ceuta volta a ter vida, mas traumas não desaparecem

Milhares de migrantes que ainda não regressaram tentam agora esconder-se para sair do enclave e rumar à Europa, enquanto os habitantes de Ceuta começam a sair de casa e a tentar voltar à normalidade.

Inês André Figueiredo
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João Porfírio
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“Sai daí. Sai daí.” Três homens gritam para chamar a atenção. A polícia de Ceuta está a uns metros. Lançam o apelo para o interior de um carrossel desmontado, que já está em cima de um camião, pronto para seguir para o porto da cidade. As vozes assustam um jovem que sai a medo. Mas não é o único. Estão três no mesmo tubo. Tentavam a sorte para sair de Ceuta e rumar à península espanhola. Desaparecem rapidamente, sem que a polícia os tente travar.

Mas há mais. Nas últimas horas, Christopher encontrou doze migrantes nas suas atrações de feira. Rasgaram as lonas para se esconderem e passarem despercebidos às autoridades que controlam as fronteiras no porto. Foram apanhados antes de lá chegarem. Todos fugiram e regressaram às ruas da cidade.

Dias depois de entrarem mais de 60 mil pessoas em Ceuta através da fronteira com Marrocos e de a grande maioria ter regressado ao país voluntariamente, sobram os mais resistentes — aqueles que querem, a todo o custo, manter-se em território europeu e arranjar maneira de sair do enclave espanhol. De acordo com as últimas estimativas, podem ainda ser 12 mil em Ceuta. Uns aguardam uma vaga em centros de acolhimento que estão a rebentar pelas costuras, outros deambulam nas ruas à espera de um destino melhor, outros ainda vão procurando soluções mais criativas.

O cenário na Feira de Ceuta é imprevisível. É sábado, as festas da cidade começavam hoje, porém os responsáveis resolveram cancelar tudo quando a vaga de refugiados aumentou. “Dizem que não podiam garantir a segurança”, explica Christopher, que tinha tudo montado e pronto a arrancar. Quatro atrações e duas roulotes de comida. Estima 30 mil euros de prejuízo — o valor investido antes de ligar os carrosséis.

Na quinta-feira, quando acordou para acabar as montagens, começou a ver as primeiras notícias sobre a chegada de migrantes. Caminhou até à zona da feira e não se apercebeu de praticamente nada. Duas horas depois descreve uma cidade desconhecida: “Parecia a série The Walking Dead. Iam correndo sem rumo, por todos os lados, a polícia tentava pará-los, mas não havia maneira. Já eram demasiados. Roubaram pessoas, meteram-se dentro de fontes para tomar banho, entraram nas caravanas dos feirantes para assaltar.”

Nesse dia, quando David, que tem apenas uma atração na feira, regressou à caravana para descansar, o panorama já se tinha alterado. Estava deitado a ver vídeos nas redes sociais e começou a ficar preocupado. “Quando caiu a noite estávamos nas caravanas com um pouco de medo. Estão num recinto fechado, mas há duas portas e havia apenas um vigilante”, conta, garantindo que não teve problemas. É a segunda vez do jovem empresário em Ceuta, estreou-se na feira o ano passado e desta vez regressa a casa com 10 mil euros de prejuízo.

A revolta de quem tem memória de tanques nas ruas

Nos últimos dias, o medo tomou conta dos habitantes de Ceuta. Fecharam-se em casa para não se cruzarem com os migrantes que estavam em cada recanto da cidade. Fecharam as lojas. Foram impedidos de comprar comida. E a incerteza tornou-se a nova realidade.

A portuguesa Gabriela é uma dessas pessoas. Mudou-se para a cidade há um ano para trabalhar na área de jogos e nunca viu nada assim. Recorda-se dos tempos em que vivia na América Latina e era habitual ver tanques e militares nas ruas, mas nunca esperou recuperar essa memória numa cidade espanhola.

Apercebeu-se da situação nas ruas quando começou a ver mais e mais migrantes. E esteve dois dias trancada em casa com o namorado. Só voltou a sair este sábado. “Não me sinto segura porque eles podem estar com fome, eles podem roubar, podem assaltar, podem fazer o que for”, sugere, realçando que estas pessoas “entraram de forma ilegal” e a acreditar que “pisam Espanha e têm papéis para trabalhar, comida e casa”. E sublinhando que a vida de quem vive em Ceuta não é a mesma há dias: “Mudámos a nossa rotina.”

Na visão de Gabriela, esta entrada de migrantes é sinónimo de “invadir um território” e, apesar das pessoas que já regressaram pela fronteira terrestre a Marrocos, está certa de que ficará sempre gente para trás, tendo em conta que “há pessoas que já estão em casas de conhecidos e outras nos bairros mais afastados do centro”.

O tema é inevitável. Em grupos de WhatsApp, stories de Instagram ou no Facebook, os habitantes partilham vídeos de migrantes pelas ruas: uns a pilhar lojas, outros a tentarem entrar em terrenos e ainda jovens a esconderem-se em autocarros — à semelhança dos que procuraram fugir em carrosséis.

Fechados em casa com medo

Leandro tem uma loja de conveniência bem no centro da cidade. É pequena, vende bebidas e comida, tabaco e guloseimas. Fechou durante dois dias porque “não se podia abrir, era impossível”. Conta que numa outra loja ali bem perto decidiram abrir na sexta-feira e foi “uma loucura”. “Bateram na porta, tentaram entrar à força. Foram obrigados a voltar para casa.”

“É algo que não se imagina. É como estar numa quarentena, sem vírus e sem nada. É impensável. Se me dissessem há uma semana eu não acreditava. Achar que pode não haver tranquilidade e segurança na rua para não andar tranquilamente nem levar o cão à rua? Demo-nos conta de que entraram quase tantas pessoas como as que vivem na cidade, é uma loucura”, relata o vendedor.

Raul trabalha numa bomba de gasolina e assistiu a tudo em primeira mão. Começaram a entrar pessoas de repente, as prateleiras começaram a ficar vazias, uns pagaram, outros não. Foram obrigados a fechar a porta e a vender apenas combustível. “Não podia vender a uns e a outros não. Mesmo assim sentaram-se aqui no passeio e ficaram. Estavam por todo o lado. Havia muito medo, parece que nos estavam a tirar tudo”, desabafa.

Em casa ficou a família e a preocupação foi dirigida principalmente às mulheres. Os migrantes que passaram a fronteira a nado são quase todos homens jovens e isso reflete-se no medo das pessoas. José sentiu-se “humilhado e envergonhado” enquanto espanhol e recorda que a mulher esteve “três dias sem sair de casa”. “E, agora, só veio ao supermercado por causa deles”, diz, enquanto aponta para o tanque rodeado de militares que está estacionado à porta do supermercado.

Francisco tem um sentimento muito próximo. Não sentiu medo, mas assume que não se “sentiu bem”. “Saí para trabalhar e não era o meu país. Não se podia andar na rua. De cada passo que dava pediam-me alguma coisa. Há um sentimento de que fomos invadidos”, aponta, enquanto admite que os migrantes venham “à procura de uma vida melhor” e conclui que “não pode ser assim”.

Michelle e Maria aproveitam a liberdade que lhes foi roubada nos últimos dias para correr pelas ruas de Ceuta. Vivem na cidade, mas não são de cá. As famílias ficaram em pânico com as notícias e imagens que estavam a circular. Nem sequer desceram do apartamento para ver o que se passava, usaram o terraço: “Era uma autêntica loucura. Sentimos medo e impotência.” Agora, com o corpo policial espalhado pelas ruas de toda a cidade sentem-se seguras para sair, contudo referem que os migrantes “aparecem mais à noite e de manhã cedo”, o que não as deixa “totalmente descansadas”.

Ceuta acordou uma cidade diferente

Da noite para o dia, Ceuta acordou diferente na manhã de sábado. Poucas horas antes de a bóia prometida por Pedro Sánchez ter sido colocada no mar para impedir a passagem de mais migrantes por via marítima, os marroquinos continuavam a chegar a nado. O exército, que tinha praticamente desmobilizado ao fim da tarde, mantinha-se focado nas pessoas que saíam pela fronteira terrestre e a encaminhar mais para o local.

Mas os gritos de dor de um jovem chamaram a atenção do único elemento que estava na areia, a controlar o pouco que se passava. Fardado e de capacete na cabeça, o homem entrou na água para salvar o homem em aflição. Acalmou-o enquanto suplicava por ajuda e para não ser magoado. Retirou-o da água e levou-o para um sítio seguro.

Sem polícia ou exército a impedir, à Playa de El Tarajal continuaram a chegar, durante toda a noite, migrantes — nada comparado com os dias anteriores.

Por estas horas, a rota com mais afluência é mesmo a dos que deixam Espanha de livre vontade para regressar a Marrocos. Ao longo de um passadiço enorme estão elementos do exército a aconselhá-los a fazer o percurso até ao portão que lhes permite a entrada no país vizinho. Vão andando lentamente, sem a pressa com que chegaram horas ou dias antes. Regressam e deixam para trás o sonho que, quando pisaram a Playa de El Tarajal, acreditaram ter alcançado.

Nem todos os migrantes acedem aos conselhos das autoridades. Pela cidade ainda se veem muitos que pretendem não voltar para trás. Quase todos sonham sair de África e rumar à Europa e muitos pretendem manter-se até conseguirem os papéis para seguir caminho. Até lá, há um fator que atenuou o desespero: as lojas e supermercados reabriram e já é possível comprar comida.

Os cafés e lojas tentam controlar as entradas. Nuns só podem entrar dois de cada vez, mesmo que o estabelecimento esteja vazio e com espaço para dezenas de pessoas. Noutros, as barras de segurança transformam-se na barreira física entre vendedores e compradores. Há sandes de queijo a cinco euros. Bolos e leite a seis. E as portas dos supermercados abertas são uma esperança renovada. Quem ainda não voltou para Marrocos jura estar para ficar.