Nascido numa família de médicos (pais e avô paterno) e tias professoras universitárias, quando me casei entrei numa de profissionais liberais e nenhum funcionário. Sentado ao topo da mesa nos almoços de domingo, o meu sogro era o maior e o melhor de nós, meros aprendizes. Sem estudos universitários era dono de uma empresa em Évora com dezenas de funcionários que, em décadas, nenhuma crise (e foram muitas) afectou ao ponto de ter problemas. O meu sogro tinha esta característica que admiro e que só tinha encontrado no meu patrono, também empresário, quando fiz o estágio de advocacia: preparava-se para o pior sendo cauteloso e não dando um passo sem garantir primeiro que tinha forma de recuperar e não se tornar num encargo para os outros. E como o fazia, raramente foi surpreendido. Naturalmente, tudo isso tem um custo. “Ó André, sabes, há uma coisa que eu faço questão”, contou-me numa das muitas conversas que tivemos, dessa vez sobre a hora a que nos levantávamos de manhã para trabalhar. Eu cedo, porque gosto. Ele madrugador, porque adorava. “Sou sempre o primeiro a chegar à empresa. Sou eu quem abre a porta” para acrescentar logo de imediato “e sou o último a sair”. “Sou eu quem a fecha”.
A minha mulher e eu fizemos a nossa vida profissional a trabalhar por conta própria. Correu bem, mas naturalmente houve momentos de maior preocupação. Nessa altura não se cansava de nos recordar que foi quando teve menos trabalho que tomou as melhores decisões. “Temos mais tempo para pensar”. E não é que é mesmo verdade? Com ele aprendi a viver algo que me tinham ensinado, mas que nunca praticara: ver o lado bom das dificuldades que, mais tarde e se devidamente aproveitadas, nos fazem ganhar mais. Criou (é a palavra certa) a sua empresa do nada porque quando começou fazia tudo sozinho, algo que nos recordava, via-se no seu rosto, com orgulho, é verdade, mas acima de tudo com prazer e saudade. Era aquele género de pessoas que só teríamos a ganhar se mais de nós fôssemos como ele.
O meu sogro, o Sr. Narciso Cristóvão Almeida, faleceu há dias após uma doença rápida. Não fosse ela e trabalharia até ao fim. “André, não tiro férias porque fazer isto é o que me descansa” ainda o ouço dizer enquanto me indicava a papelada da contabilidade, as encomendas, as cartas. Era o que o alimentava. Como estar com as pessoas que iam ter com ele. Conversava com umas, despachava outras. “Quando comecei a trabalhar, era um gaiato, o meu patrão chamou-me e disse-me: ‘Narciso, quando todos gostarem de ti, é nesse dia que deves ficar preocupado’”. A partir daí deixou de ter medo de fazer o que achava certo.
Nasceu na Beira Baixa e a sua vida foi um espelho do Portugal de 1940 em diante. Cedo foi trabalhar para Évora. As irmãs seguiram-no. Os irmãos, mais velhos, foram para o Brasil para não irem para o Ultramar. A família ficou definitivamente separada embora não tivesse perdido o contacto. Nos anos 80 beneficiou da estabilidade política e conseguiu ser dono do seu destino. “André, sempre vivi por objectivos. Estabelecer metas. Agora é este”, vencer a doença que o atraiçoara. Foi há dias, poucos antes de falecer.
O mais extraordinário é que sendo um homem de negócios e de muito trabalho também era afável, de bom trato, simpático e acessível. A melhor imagem que tenho dele é a sorrir com a nossa chegada. Adorava o neto, “dá-me um abraço, meu monte de ossos”, pedido a que o meu filho correspondia com gosto. Gostava de relógios de pêndulo e há dias ensinou o neto a regular um dos que tinha em casa, “requer paciência, mas depois sentes-te bem”. É impressionante como, ao escrever este texto, me deparo com os inúmeros dizeres e recomendações que nos deixou. Era um daqueles bons conversadores que escutava mais que falava. Não fazia questão de ter a última palavra. Cada um sabia de si melhor que ninguém. Confidenciou-me preocupações, mas também me escutava. Ficou todo satisfeito quando lhe dei um exemplar do meu livro de crónicas. Era leitor do Observador e não perdia um texto meu. Não tenho dúvidas de que ficou sensibilizado com este.