As razões que me levam a não ver reality shows são bíblicas e, receio, quase marxistas: bíblicas porque a vaidade é um pecado e exibir a nossa vida em show qualifica; quase marxistas porque, ainda que não concorde com tudo o que Marx disse sobre a luta de classes, é sobretudo a minha classe média suburbana que é explorada nestes programas. Até 2026 resisti com alguma facilidade nesta minha resolução.
Lembro-me quando em 2000 estreou o Big Brother. Claro que vi partes. Claro que me recordo do pontapé do Marco e da vitória do Zé Maria. Mas já na altura me insurgia contra o prime time que ganhou em casa dos meus pais. Um dia fechei-me no meu quarto de solteiro (ainda era solteiro e ainda vivia com os meus pais) e fiz uma canção de intervenção chamada “As pessoas deviam ter vergonha” (podem encontrá-la nas plataformas digitais). Não consegui convencer ninguém a mudar de canal.
Quando casei em 2002 nasceu uma regra que não precisava de ser escrita. Eu e a Rute desprezávamos reality shows. Sim, reconheço um zapping ocasional mas nada que comprometesse os nossos princípios. Vivi nesta paz coerente até 2026, 24 anos depois. Estraguei o testemunho que até aqui estava diante dos nossos filhos. E isto porque há meses permiti-me ver um episódio completo do “Casados À Primeira Vista” da SIC. É triste, eu sei. Caí e admito.
Ao início tentei racionalizar. No fundo, este reality show até é algo conservador: afinal, as pessoas casam sem se conhecerem, libertando a duradoira instituição do casamento do recente monopólio do romance prévio. Claro que agradeço hipocritamente ter conhecido a Rute e ficado apaixonado por ela antes de me casar — não recebi uma boda combinada e acho que também não vou ser capaz de o fazer com os meus filhos. Mas creio firmemente que é preciso libertar o casamento da modern love story.
Enquanto a modern love story mandar no casamento, qualquer casamento terminará assim que deixe de haver a modern love story. Nessa medida, o programa “Casados À Primeira Vista” acalentava alguma narrativa alternativa. Independentemente das tão mencionadas químicas dentro do casal (como se uma família fosse uma aula prática de físico-química), havia um espaço de reconhecimento do papel da vontade além desses supostos constrangimentos biológicos do desejo. Fiquei cativado pelas experiências no ecrã.
Mas por muita argumentação filosófico-moral que tente, o programa vivia de sensações. Claro. Conflitos, intrigas, traições, quase-amores, ódios. Os participantes ofereciam um menu emotivo apreciável: o rejeitado que compensa com o carisma, a simpática que ainda assim não atrai ninguém, a megera que aceita algumas lições de humildade, o sensato que contra todas as expectativas abandona a mulher que a custo conquistou, a mentirosa compulsiva que termina de coração aberto, entre outros exemplos possíveis. Foi um fartote.
Todavia, o fartote terminou quase da mesma maneira que começou. Sim, em oito casais só um chegou ao final em estado de casamento: houve trocas bizarras e, quem sabe, numa delas, poderá surgir outro futuro. Mas o saldo é escassíssimo. Nem as luzes da ribalta e as audiências seguram um casamento, parece querer surgir daqui uma espécie de moral da história. Mais: a presença de especialistas conjugais ainda torna o cenário mais desolador porque nem com especialismo lá se chega. É difícil estar casado dentro e fora da TV.
Quando assistia à gala final dizia à Rute que não volto a ver um reality show. A minha vida foi chupada todos os dias (também porque não sei fazer nada pela metade) e sofri bíblica e sociologicamente. Viver implica mostrar a nossa realidade (implica reality showing) mas não deve servir a nossa vaidade. Viver implica notar as diferenças entre as pessoas mas entristece ver suburbanos de classe média oferecerem-se para serem explorados pela indústria audiovisual sem nenhum ganho real posterior (é verdade que havia um beto).
Tudo isto é real mas não precisa de ser show. Consta que o programa vai voltar em Setembro. Eu não volto a ele.