Os ministros do Interior da União Europeia vão reunir por videoconferência na próxima terça-feira, dia 4 de agosto, para discutir a crise migratória em Ceuta. O encontro dá-se após o pedido feito por Espanha ao Conselho da União Europeia presentemente presidido pela Irlanda, à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e ao presidente do Conselho Europeu, António Costa.
Desde quinta-feira, mais de 60 mil pessoas entraram em Ceuta vindas do mar e, segundo os dados recolhidos pela Guardia Civil este sábado, pelo menos 67 morreram durante a travessia rumo ao enclave espanhol no continente africano. Vários países, como Itália, Áustria, Chéquia e Finlândia, pediram o fecho do espaço Schengen ao país liderado por Pedro Sánchez por alegadas falhas na proteção das fronteiras externas.
Simultaneamente, várias nações europeias reforçaram o controlo de fronteiras, caso de França mas também em Portugal, onde as autoridades aumentaram a vigilância, especialmente marítima, na região do Algarve.
Líderes mundiais, como Donald Trump ou o ministro da Segurança Nacional israelita, Itamar Ben-Gvir, também se manifestaram, com o Presidente americano a declarar que Espanha “está a ser invadida” porque o respetivo Governo “não sabe o que está a fazer” e adotou “políticas muito liberais”. Ainda este sábado, Trump defendeu a soberania de Marrocos quanto ao Saara Ocidental.
Antes de pedir a reunião, Pedro Sánchez afirmou que as autoridades espanholas conseguiram “restabelecer plenamente o controlo da fronteira, proporcionar uma ampla assistência humanitária, devolver praticamente todos os migrantes que atravessaram de maneira ilegal e evitar qualquer deslocação não autorizada até à Europa continental”, num curto espaço de tempo.
O ministro do Interior do Governo liderado pelo PSOE, Fernando Grande-Marlaska, denunciou a atividade das “máfias que traficam seres humanos em situações de máxima vulnerabilidade”, que, na opinião do governante, deviam ser a prioridade das políticas migratórias. Em resposta às nações europeias, Marlaska enfatizou que “Ceuta não faz parte do espaço Schengen e foi instrumentalizada com fins puramente políticos”.
O rei de Espanha também se pronunciou acerca do tema este sábado. Felipe VI revelou, em comunicado, ter acompanhado “com grande preocupação e indignação” os “graves acontecimentos” dos últimos dias. Em contacto com os presidentes de Ceuta, Melilla e com o governo espanhol e o líder da oposição, o rei de Espanha referiu que “o Estado deve zelar pela segurança” das duas cidades e que deve “impedir que estes acontecimentos — que, além disso, se traduziram numa triste e trágica perda de dezenas de vidas — voltem a repetir-se”.
Países escreveram carta a líderes europeus
Depois do pedido de reunião de Espanha, várias nações europeias dirigiram uma missiva aos líderes europeus a reivindicar o mesmo. Na declaração, citada pelo El Mundo, lê-se que “esta reunião deveria permitir uma avaliação comum da situação [em Ceuta] e um acordo sobre uma resposta europeia coordenada, que inclui a rápida mobilização dos instrumentos da UE disponíveis e do apoio necessário a Espanha para restabelecer o controlo efetivo da fronteira externa da União Europeia e evitar novas travessias descontroladas”.
Entre os signatários estão a Áustria, Bélgica, Bulgária, Chipre, Croácia, República Checa, Estónia, Finlândia, Alemanha, Grécia, Hungria, Lituânia, Letónia, Malta, Holanda, Polónia, Roménia, Eslovénia, Eslováquia e Suécia. Ursula von der Leyen elogiou a iniciativa numa publicação do X, na qual destacou a importância de fortalecer o sistema migratório europeu. “Recebi cartas de vários líderes e acolho com satisfação a realização de uma videoconferência extraordinária para fazer o balanço do que aconteceu”, escreveu a presidente da Comissão Europeia.
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O executivo italiano, liderado por Giorgia Meloni, tem sido dos mais vocais nas reações às notícias que chegam de Ceuta. Na manhã deste sábado, a primeira-ministra enviou uma carta a Bruxelas em que defendia que “a defesa das fronteiras externas da União não é do interesse de uma única nação”. “É uma responsabilidade comum da Europa”, afirmou, depois de suspender provisoriamente os acordos de livre circulação da UE com Espanha.
Oposição a Sánchez critica resposta do governo espanhol
O líder do Partido Popular (PP) espanhol — principal partido de oposição ao Governo do PSOE —, Alberto Núñez Feijóo, criticou a resposta “tardia e insuficiente” do executivo de Pedro Sánchez. Feijóo destacou a imagem “lamentável” que a crise migratória em Ceuta ofereceu de Espanha. O político comprometeu-se a devolver à nação o estatuto de “país seguro”, reforçando que “a integridade territorial do país não se negoceia, defende-se”.
Na mesma circunstância, o político admitiu que a população espanhola tem “o direito de ser informada sobre se o Governo sabia da invasão [de migrantes] e por que motivo não atuou”.
O autarca da cidade autónoma, Juan Jesús Vivas, também do PP, afirmou que o reencaminhamento dos migrantes para os locais de origem está a acontecer com “notável intensidade”. “Apesar disso, Ceuta não regressou à normalidade”, destacou o dirigente, citado pelo El País, recordando que “vários milhares de pessoas” permanecem no enclave espanhol em regime irregular.
Santiago Abascal, líder do partido de direita radical Vox, irá a Ceuta este domingo.