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Uma arma de erosão massiva: as vagas que se dizem migratórias

Sanchez, o homem que em todo o lado vê colonialismo, acabou em Ceuta a declarar que a integridade territorial de Espanha fora atacada. A História quando se vinga é impiedosa.

Helena Matos
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Enquanto milhares de jovens marroquinos entravam em Ceuta perante a impotência das forças de segurança espanholas e a indiferença cúmplice das autoridades marroquinas, em Madrid tinha lugar a festa do Dia do Trono, organizada pela embaixada de Marrocos para assinalar a chegada à chefia do Estado de Mohamed VI. Só a importância que Marrocos foi ganhando nas suas relações com a UE, e muito particularmente com Espanha, justifica na lista de presenças anunciadas nos jardins da embaixada que tanta gente se tenha disposto a enfrentar o calor de Madrid em tal data.

Vários membros do governo espanhol deveriam estar presentes mas como era inevitável o ministro do Interior Fernando Grande-Marlaska anulou a sua presença. Afinal, a essa mesma hora, em Ceuta, milhares de espanhóis estavam fechados em casa com medo enquanto levas de marroquinos atravessavam a fronteira. Sobrou para o ministro da Agricultura, Pesca e Alimentação, Luis Planas, e, ironia das ironias, para a ministra da Inclusão, Segurança Social e Migrações, Elma Saiz, ouvirem a embaixadora marroquina a celebrar o progresso do seu país e a declarar que o que estava a acontecer em Ceuta não era nada que agradasse a Marrocos. De facto Ceuta, cidade onde 80 mil residentes viram chegar 60 mil marroquinos em poucas horas, é o exemplo de quando a inclusão passa a ser vista como invasão.

Como é mais que óbvio, nunca em Marrocos 50 a 60 mil pessoas se podiam ter concentrado num lugar e em seguida terem-se colocado em marcha para um ponto concreto, ainda por cima policiado como é uma fronteira, sem que as autoridades marroquinas estivessem a par e, mais importante, sem que essas autoridades o permitissem e até colaborassem.

Os interesses de Marrocos são tão óbvios quanto a sua linguagem para com Espanha: se os interesses de Marrocos são pisados por Espanha, Ceuta será simbolicamente tomada por vagas de jovens que ninguém barra na fronteira marroquina. Em Maio de 2021, dez a doze mil jovens, mas também crianças sós e adultos, entraram em Ceuta. Depois, a maioria partiu tão impressivamente como tinha chegado. (Sim, para trás ficaram muitos desses jovens e particularmente os menores que vieram engrossar o grupo dos chamados “menas”, que viriam a tornar-se num problema cultural, social e moral em Espanha porque a esquerda, em vez de repatriar as crianças que chegam sós mas têm família, resolveu institucionalizá-las num entramado de centros, quiçá com a esperança de que de tanta mediação cultural nasça o futuro homem novo que não conseguiu no operariado).

A vaga de 2021 foi lida como a resposta de Marrocos ao facto de a Espanha ter permitido ao líder da Frente Polisário, Brahim Ghali, receber tratamento num hospital espanhol: Brahim Ghali foi internado no Hospital San Pedro de Logroño a 18 de abril de 2021. A 17 de Maio começou o assalto à fronteira.

Cinco anos depois voltou a acontecer mas os 10 mil passaram a 50 mil. Ou 60 mil. Novamente os mesmos rostos jovens. O mesmo ar de quem vem ali falar para os microfones, sorrir para as fotografias e depois logo se verá. Mas quem são estes jovens? Donde vêm? Onde estão as suas famílias? As roupas que usam não serão caras mas estão longe de serem velhas ou estragadas. Alguns até usam equipamentos de desportos marítimos. Estes jovens, rapazes na sua maioria, têm um aspecto saudável, bem alimentado. Nada que ver com os refugiados económicos ou fugitivos de guerras.

Pretende o reino de Marrocos que não deu por nada? E Espanha não estava farta de ser avisada para esta possibilidade? Não ouviu os avisos sobre o efeito de chamada da regularização massiva decidida pelo Governo?

Justificar o que está a acontecer em Ceuta com a viagem de Sanchez à Argélia a 20 de Julho é curto. Sim, Marrocos não gostou certamente de ver os apertos de mão entre Pedro Sanchez e o presidente argelino, Abdelmayid Tebune. Mas sejamos realistas: tratou-se de uma visita relâmpago, uma paragem no regresso de Sanchez dos EUA a Espanha, onde estivera na final do Mundial.

E convém não esquecer que o governo de Sanchez reconheceu em 2022, em Março, menos de um ano depois do assalto à fronteira em Ceuta, o plano de Marrocos para o Saara Ocidental.

Marrocos é certo que reage ao ver os seus interesses ameaçados e certamente que os marroquinos tomaram nota da ida de Sanchez à Argélia mas, mais importante, Marrocos é particularmente atento à fragilidade do lado espanhol: a Marcha Verde que visava obrigar a Espanha a entregar a administração do Saara aconteceu quando Franco agonizava e não são poucos os que veem nos atentados islâmicos do 11M em Espanha a sombra cúmplice de Marrocos a querer vingar o episódio de Perejil. Ora em 2026 a Espanha governada por Sanchez é uma espécie de navio comandado por um narcisista megalómano disposto a tudo para se manter no poder. Sanchez progressivamente isolou a Espanha dos seus parceiros europeus — compare-se a actual reacção dos países da UE em relação ao que está a acontecer em 2026 com a solidariedade mostrada em 2021 — e que resolveu partir numa deriva anti-americana (coisa muito diferente de marcar uma posição não subserviente) sem perceber que do outro lado do estreito Marrocos capitalizava a sua ligação aos EUA.

Como invariavelmente acontece aos demagogos, estes acabam a provar o seu próprio veneno e Sanchez, o homem que se demarca das políticas de controlo de fronteiras da UE e cujos apaniguados levam os dias a acusar países como os EUA ou a Itália por causa do repatriamento de imigrantes, resolveu responsabilizar uma recente decisão do Supremo Tribunal espanhol pelo que está a acontecer em Ceuta. Porquê? Porque este tribunal proibiu as expulsões imediatas na fronteira sem processo, nos casos em que os imigrantes não encontrem “barreiras de contenção física”. Mas não são precisamente estas expulsões imediatas que Sanchez e aqueles que vêem nele um novo Churchill costumam condenar?

Mais simbolicamente ainda, Sanchez, o homem que em todo o lado vê colonialismo e que quer ajustar contas com o passado e rever a História, acabou a ir a Ceuta, cidade conquistada pelos portugueses em 1415, que faz hoje parte do reino de Espanha porque em 1640 o seu governador ficou fiel a Filipe IV (III para Portugal), declarar, depois de ter de atravessar uma multidão que o menos grave que lhe chamava era “traidor”, que a Espanha sofrera um ataque à sua integridade territorial. Uma vez na vida Sanchez falou verdade. Em 2026, Sanchez descobriu quanto custa não defender a integridade territorial. O primeiro a perder-se não são os bens nem a vida. É a dignidade.