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O projeto megalómano da FIFA durou pouco mais do que a Superliga Europeia: 72 horas depois, Infantino volta atrás

UEFA boicotou provas, AFC e CONCACAF mostraram-se contra, CAF também não achou muita piada. 72 horas depois, nem com ultimatos a ideia saiu do papel e FIFA deixou cair venda de ações do Mundial.

Bruno Roseiro
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Quando em 2021 o futebol foi surpreendido com a apresentação de um projeto chamado Superliga Europeia, falou-se em abalo, em terramoto, em fim de uma era, em caos. Afinal, todos os principais clubes da Premier League estavam presentes, além de outros dos principais conjuntos do Velho Continente entre Espanha e Itália, perante as recusas de Bayern, B. Dortmund ou PSG. A cenourinha estava lá: os melhores jogavam com os melhores, as melhores receitas ficavam entre os melhores, mas havia ainda umas vagas para alguns eleitos andarem entre os melhores. A ideia estava lançada, as reações foram surgindo. 48 horas depois, finito.

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Resumindo o filme: os adeptos manifestaram-se contra a ideia de uma elitização das competições europeias fugindo ao modelo habitual, a UEFA começou a fazer ameaças, os clubes convidados que recusaram foram deixando clara a sua posição, as manobras de bastidores começaram a ter efeito. Com muita política à mistura (literalmente), todos os clubes ingleses desistiram da ideia, alguns italianos começaram a vacilar e essa ideia que tinha como principal ideólogo Florentino Pérez ficou suspensa temporariamente (tão temporariamente que ainda hoje, cinco anos depois, continua a não passar de uma espécie de mito).

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Agora, na sequência de um Campeonato do Mundo que teve muitos pontos de americanização mas que, em traços gerais, correu melhor do que era vaticinado, Gianni Infantino, presidente da FIFA, quis dar também um passo em frente nas revoluções no futebol, anunciando um projeto megalómano que, em resumo, tinha como objetivo criar uma nova empresa, a FIFA Forward Enterprise (FFE), que ficava com toda a parte de exploração dos direitos comerciais dos grandes torneios de futebol, incluindo o Mundial de seleções e de clubes, e podia abrir parte do seu capital social a investidores externos privados, com o fundo Thrive Eternal, de Joshua Kushner, a estar à cabeça dos potenciais interessados em toda essa operação global.

Os valores deixavam qualquer um de cabeça no ar, com 20% de ações da FFE a serem avaliados em 4,2 mil milhões de dólares (3,9 mil milhões de euros). Percebendo que a ideia era tudo menos unânime, houve um passo seguinte: fazer um ultimato de menos de dois meses para as federações manifestarem a sua opinião, juntando a isso uma diferença de 30 milhões de dólares entre quem aceitasse e seguisse em frente e quem achasse que não fazia sentido. As críticas já eram muitas, as críticas aumentaram mais de tom.

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A UEFA foi a mais veemente a deitar por terra a ideia. Não conseguiu encontrar um candidato para desafiar Gianni Infantino em 2027, com Nasser Al-Khelaïfi a declinar o convite apesar do apoio que reunia entre as 55 federações do Velho Continente, mas avançou com um boicote a todas as provas da FIFA caso esse projeto avançasse – ou seja, e em termos práticos, o Mundial de seleções e de clubes deixaria de contar com equipas europeias (que são aquelas que têm mais peso na prova). Em paralelo, a Ásia (AFC) também se mostrou contra a ideia, acrescentando a estranheza por não ter sequer sido ouvida antes do anúncio. Seguiu-se a CONCACAF, da América do Norte, América Central e Caraíbas, que refutou também essa “venda” do Mundial. A CAF (África) começou a fugir a essa possibilidade. Havia muito mais contra do que a favor.

https://twitter.com/FIFAcom/status/2082777220846596301

A certa altura, Infantino foi percebendo até que aquilo que tinha como certo, a vitória provavelmente até sem oposição no sufrágio de 2027, podia correr risco. Eis que, 72 horas depois, a “derrota” foi assumida.

“Depois de ouvir atentamente todas as opiniões, ficou claro que o projeto criou divisões de tal ordem que, independentemente do nível de apoio, já não serve o objetivo inicialmente definido. O nosso propósito sempre foi, e continuará a ser, unir e melhorar. Por isso, esta proposta não avançará. Daqui para a frente, pretendo reunir todas as partes interessadas nos próximos dias e semanas, num espírito de interesse partilhado pelo nosso jogo, e com o objetivo de continuar a fazer crescer o futebol em todo o mundo, especialmente nos países que mais precisam do nosso apoio”, anunciou na madrugada deste sábado a FIFA, através de um comunicado que não demorou a circular por toda a imprensa internacional de manhã.

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Quer isto dizer que tudo acabou? Nem por isso. Houve perdas pelo meio do processo, nomeadamente a demissão de Carlos Cordeiro, conselheiro sénior de Infantino e braço direito do presidente da FIFA, e uma janela de oportunidade para a imagem do líder do órgão que tutela o futebol mundial ser colocada em causa. Agora, como diz o próprio comunicado, Infantino pretende estar com todas as partes interessadas “num espírito de interesse partilhado pelo nosso jogo”. Até ao dia em que, de outra forma, possa existir contexto para avançar de novo com um projeto que mantenha as mesmas bases e tente “privatizar” o Mundial. E foi por isso que, após ter sido assumido esse recuo, a UEFA fez um longo comunicado a olhar para o futuro.

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“A UEFA mostra-se agradada com a decisão da FIFA de retirar o seu plano de vender a privados uma participação nas suas competições – incluindo o Mundial. A proposta foi rejeitada por unanimidade pelas associações nacionais da UEFA e por muitas outras federações e confederações ao redor do mundo, cujo dever é proteger o futebol. A UEFA agradece a todos os adeptos, ligas, clubes, jogadores, entidades individuais, associações e confederações que se opuseram a este plano, a par dos muitos primeiros-ministros, Chefes de Estado e comentadores que demonstraram ao presidente da FIFA que o futebol não está à venda”, começou por escrever em comunicado o órgão liderado por Aleksander Ceferin.

https://twitter.com/UEFA/status/2083488910123106611

“Não podemos continuar assim, com esquemas secretos concebidos em prazos recorde, delineados por figuras sem rosto e de benefício duvidoso para o desporto. Temos de identificar os responsáveis e exigir que prestem contas. É justo que, nos próximos dias e semanas, a UEFA trabalhe com as suas associações e em estreita cooperação com outras confederações para refletir sobre como isto aconteceu e conceber um plano para garantir que não volte a ocorrer. Esta análise deve ser minuciosa e fundamental. Nenhuma opção deve ser descartada. A atual liderança da FIFA perdeu não só a confiança da UEFA, mas também a de muitos outros membros da família do futebol”, prosseguiu, olhando também para as eleições.

“Quando Gianni Infantino pediu a confiança e os votos das Associações-Membro da FIFA para o elegerem presidente em 2016, afirmou: ‘É claro que temos de ser transparentes. Foi o que fiz nos últimos 15 anos da minha vida na UEFA. Terão de fazer parte do dia a dia da FIFA’, antes de dizer aos intervenientes reunidos: ‘O dinheiro da FIFA é o vosso dinheiro. Não é o dinheiro do presidente da FIFA. É o vosso dinheiro. Vocês são as associações nacionais e o dinheiro da FIFA tem de servir para o desenvolvimento do futebol e para mais nada’. Em ambas as promessas, falhou o seu cumprimento. O negócio mesquinho, de bastidores e opaco que tentou impor foi tudo menos transparente. Com reservas superiores a cinco mil milhões de dólares, também falhou na utilização do dinheiro das associações em benefício do futebol”, criticou.

https://twitter.com/UEFA/status/2082854732020760880

“A UEFA começará a trabalhar imediatamente com parceiros e intervenientes de todo o mundo e de todo o universo do futebol para propor uma nova forma de distribuir recursos através do atual programa FIFA Forward. Temos de começar a utilizar parte desse dinheiro que está parado na conta bancária da FIFA para dar o impulso de que o futebol de formação e a modalidade em geral necessitam em cada um dos 211 países da FIFA. Mas não precisamos de vender as joias da coroa para o pagar. Esta é uma vitória de todo o futebol. Mas não pode ser o fim da história. A proposta caiu. A tarefa de reconstruir a confiança na FIFA está apenas a começar”, concluiu o comunicado da UEFA, que visa de forma direta Gianni Infantino.