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(A) :: Ecrãs com 20 metros, bobines de quase 300 kg e apenas 41 salas no mundo: “A Odisseia” vai recuperar o IMAX ou é uma febre passageira?

Ecrãs com 20 metros, bobines de quase 300 kg e apenas 41 salas no mundo: “A Odisseia” vai recuperar o IMAX ou é uma febre passageira?

O filme já fez mais de 600 milhões de euros, a procura continua e as salas “especiais” estão entre as mais desejadas — em Portugal não há nenhuma “true IMAX”. Que formato é este e que futuro pode ter?

André Filipe Antunes
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Sessões esgotadas no mundo inteiro e uma corrida aos bilhetes como há muito não se via; se era previsível que A Odisseia, filme de Christopher Nolan que adapta o poema épico de Homero, seria um dos grandes eventos cinematográficos do ano, a dimensão do fenómeno continua a espantar, numa era em que tanto se apregoa o fim da experiência em sala e a ideia de que o cinema perdeu centralidade.

Não falamos apenas de um mero sucesso de bilheteira, mas de um verdadeiro caso de estudo: nos EUA e na Europa, as sessões têm esgotado numa questão de minutos, a qualquer hora – até em horários pela madrugada dentro, às 2h00 ou às 6h00, em algumas cidades americanas. Portugal não escapa à tendência, sendo fácil por estes dias encontrar relatos de espectadores frustrados com a dificuldade em conseguir bilhetes para as sessões, algumas até com duas semanas de antecedência.

Além do “fator Nolan”, realizador que por estes dias se assume incontestável como o grande nome da sua geração, seja por razões mais criativas ou por motivos mais financeiros, um outro elemento tem contribuído para a dimensão da “febre”: o lançamento de A Odisseia em formatos IMAX por todo o mundo, uma experiência premium, se quisermos, vendida como a melhor forma de ver o filme – e para a qual este foi, de resto, pensado, tendo sido filmado com câmaras certificadas pela empresa com sede no Canadá, e que nos últimos anos se tem afirmado como um importante player na indústria da exibição cinematográfica.

Ao Observador, Nuno Aguiar, diretor dos Cinemas NOS, que em Portugal explora as três salas existentes no país com o “selo” IMAX, não esconde a satisfação pelo sucesso até aqui verificado. “Tínhamos uma grande expectativa em relação ao filme e está-se a cumprir”, afirma, reconhecendo ao mesmo tempo que “tem acontecido que parte da conversa tem girado em torno da forma como o realizador gravou para um formato onde na teoria – e na prática – a pessoa vê nas melhores condições possíveis”. Um fator que, considera, acaba por funcionar como atrativo extra a “uma história excelente, contada de forma épica”.

A expressão “na teoria” não deixa de suscitar curiosidade. Explicar o que é, afinal, o IMAX, é um tema surpreendentemente controverso, que gera amplo debate e pouco consenso entre “puristas” da experiência audiovisual e espectadores mais casuais. Se por um lado será correto afirmar que o “verdadeiro” IMAX existe apenas em 41 salas de cinema no mundo inteiro (na sua grande maioria concentradas na América do Norte), por outro é também um facto que são mais de 1.700 os cinemas mundiais explorados sob a chancela IMAX – incluindo os que em Portugal se encontram nos centros comerciais Colombo (Lisboa), MarShopping (Matosinhos) e Cascais Shopping. Filmes como A Odisseia acabam por ser apresentados em diversos formatos, que nalguns casos partilham o mesmo nome, contribuindo assim para a confusão (e, poderá dizer-se, arrecadando milhões no processo).

Experiência “premium” para uma indústria em crise

Uma visita rápida ao site do filme permite ter uma ideia quanto às diferenças: na secção “Explorar Formatos”, duas opções surgem em destaque, ambas com a designação IMAX. A primeira, com o sufixo “70mm”, apresenta uma imagem quase quadrada, próxima de um formato 4:3, ao passo que a segunda apresenta uma tela 1,90:1, em linha com o widescreen que é atualmente o padrão da maior parte da produção cinematográfica.

“A principal diferença é que um é analógico, é fita física”, explica Nuno Aguiar, traduzindo em números a complexidade do sistema em película: “Uma bobine do IMAX 70mm pode pesar quase 300kg, a parafernália para filmar e projetar é completamente diferente do IMAX digital, que é a tecnologia laser que temos em Portugal”. Diferente, mas também melhor: nas condições ideais, a qualidade de imagem proporcionada pelo “verdadeiro” IMAX chega a uns impressionantes 18K, ao passo que o seu homólogo digital se fica “apenas” pelos 4K (a olho nu ambas as experiências impressionam, mas a diferença é ainda assim relevante).

É precisamente o formato analógico aquele para o qual Christopher Nolan filmou e idealizou o seu novo épico… e que atualmente só pode ser visto em 41 salas de cinema. Destas, 25 estão localizadas nos EUA, e outras 9 no Canadá. A fatia mais pequena do bolo é depois distribuída pela Europa (3 salas no Reino Unido, 1 na Bélgica, 1 na Rep. Checa e 1 em França), e Oceânia, com um único projetor 70mm em Melbourne, na Austrália.

Nuno Aguiar, Cinemas NOS: “Para já, ['A Odisseia] está pelo menos mais duas semanas, mas pode ser mais, depende da procura do público. A IMAX já deu liberdade para que não haja nenhuma obrigatoriedade para lá do fim de agosto. Se acharmos, dependendo dos filmes que estão a entrar, que vale a pena manter, podemos manter para lá disso”.

Importa também frisar que esta tecnologia está longe de ser novidade. Pelo contrário, o formato remonta à década de 1970, tendo na altura sido projetado pelos criadores da empresa como um tipo de apresentação imersiva, pensada para abranger todo o campo de visão do espectador. Na sua versão comercial, a película é exibida em ecrãs de cerca de 18×24 metros, frequentemente em salas construídas de propósito para o efeito, com espaço para albergar os enormes projetores e sistemas de imagem e som necessários.

Durante décadas focada em experiências imersivas em Expos, parques temáticos e espaços especializados, em 2008 a empresa deu início à sua expansão para as salas de cinema comerciais. A introdução de uma opção digital de baixo custo permitiu a reconfiguração de salas existentes e a exibição em telas normais, expandindo largamente a presença da marca (e recebendo da parte de puristas o epíteto “LieMAX”). Com o passar dos anos, e o agudizar de uma crise de relevância de Hollywood, ainda dominante mas longe do fulgor de outros tempos – os números mais recentes espelham uma quebra de quase 50% desde 2002 –, a chancela IMAX, tecnologia e sobretudo selo de qualidade, tem vindo a revelar-se um fator-chave para atrair público às salas.

“Uma coisa que a empresa fez muito bem foi construir relações de grande proximidade com os realizadores, seja o Nolan, o James Cameron, etc.”, diz Nuno Aguiar. A aposta em “autores” da grande indústria tem colhido resultados, sendo A Odisseia o exemplo mais recente. “Este envolvimento entre a tecnologia e o filme ajuda muito. Eles pegam nos melhores realizadores, que por sua vez querem mostrar os seus filmes no melhor formato possível, e têm tido uma parceria de sucesso”, explica o diretor dos Cinemas NOS.

Por outro lado, o próprio reconhece que as cadeias de exibição que trabalham com a IMAX têm por vezes de se sujeitar às regras de programação da empresa, que privilegia os filmes feitos para os seus formatos. “É uma marca global com programação global”, diz, facto que acaba por condicionar as opções à disposição das cadeias domésticas.

Para tentar contrariar um pouco a dinâmica, a NOS apostou recentemente na criação de um formato próprio, designado XL Vision: atualmente presente em Almada, no NorteShopping (Matosinhos) e no MarShopping Algarve (Loulé), tratam-se na prática de salas com especificações equiparáveis às de IMAX digital (ecrãs com cerca de 20 metros de altura, projetores 4K de última geração, som Dolby ATMOS), onde a exibidora tem liberdade de explorar o potencial comercial de certas produções que, por razões contratuais, não entram nas salas da marca canadiana. “Neste momento a IMAX disse, e bem, que A Odisseia tem de ter quatro semanas nas suas salas. Esta semana estreou o novo Homem-Aranha, e nós temos a liberdade de o passar em ecrãs XL Vision enquanto A Odisseia fica em IMAX”, explica Nuno Aguiar.

Face à procura desenfreada por bilhetes no formato, e questionado sobre por quanto mais tempo o filme de Nolan permanecerá em exibição nas salas IMAX portuguesas, o gestor refere que o contrato atual prevê mais duas semanas de exclusividade até meados de agosto, mas admite a possibilidade de essa janela vir a aumentar. “Para já, está pelo menos mais duas semanas, mas pode ser mais, depende da procura do público. A IMAX já deu liberdade para que não haja nenhuma obrigatoriedade para lá do fim de agosto. Se acharmos, dependendo dos filmes que estão a entrar, que vale a pena manter, podemos manter para lá disso”, diz.

IMAX 70mm em Portugal? “Não vejo grande probabilidade”

Para já, e a julgar pela reação do público, o cenário de prolongamento afigura-se como cada vez mais provável (de resto, esta sexta-feira a empresa anunciou que a nível internacional o filme estará disponível no formato até meio de setembro). De acordo com dados do ICA, em apenas duas semanas o filme de Nolan já levou às salas nacionais mais de 300 mil espectadores e um retorno de bilheteira superior a 2,5 milhões de euros, número que coloca A Odisseia no terceiro lugar da tabela de estreias de 2026 (o thriller A Criada e o biopic Michael ocupam o primeiro e o segundo lugar respetivamente, mas é de notar que ambos tiveram mais de 11 mil sessões em Portugal; A Odisseia, para já, ainda só vai nas 4 mil).

“Portugal é um mercado importante e vamos continuar a avaliar oportunidades de crescimento”, diz a IMAX em resposta a perguntas enviadas pelo Observador, sem se comprometer com uma eventual expansão dos seus formatos na Europa Ocidental. Já Nuno Aguiar não tem grandes dúvidas. “Não vejo grande probabilidade de vir a aparecer em Portugal”, diz.

Portugal é um microcosmo de um sucesso global: desde a estreia, o filme já faturou mais de 700 milhões de dólares, sendo praticamente certo que até ao final da sua janela de exibição se tornará no filme mais visto da carreira de Christopher Nolan – não é de somenos, tendo em conta que estamos a falar de um cineasta com três Batmans, Inception, Interstellar e o vencedor de Óscares Oppenheimer no currículo. Central ao fenómeno, claro, está a corrida desenfreada ao formato IMAX, no digital e em película, havendo até casos de espectadores entusiastas a viajar até ao estrangeiro de propósito para ver o épico projetado em 70mm.

Em resposta a questões enviadas pelo Observador, a IMAX destaca a adesão “extraordinária” do público à proposta de Nolan, sublinhando uma tendência crescente dos espectadores em escolher o formato para ver “os maiores filmes” em sala. Facto que, afirma, “continua a impulsionar o crescimento da nossa rede global, trabalhando com parceiros de exibição em todo o mundo para levar a experiência IMAX a um público ainda maior”.

Naturalmente, a elevada procura tem levantado questões quanto a uma expansão futura das operações da marca. A empresa rejeita “quaisquer anúncios concretos neste momento”, limitando-se apenas a afirmar que irá continuar “a avaliar oportunidades para expandir o formato onde existam as condições adequadas”. Na prática, aumentar a oferta de exibição IMAX é mais complicado do que possa à primeira vista parecer, como explica Nuno Aguiar. “Para ter uma sala com ecrã de 20 metros, a altura tem de ser muito grande. Os espaços para estes grandes ecrãs condicionam a dimensão das salas, é difícil encontrá-los, seja na rua ou num centro comercial.” Muitas vezes, a solução passa por construir de raiz novos espaços – algo que, pelo menos em Portugal, não tem acontecido. “Aproveitamos aqueles que temos”, diz o homem-forte dos Cinemas NOS.

E a complexidade aumenta de forma exponencial quando se fala do IMAX 70mm. Em declarações públicas no encalço da estreia de A Odisseia, a empresa reconheceu que a procura existe; o problema reside no facto de se tratar de tecnologia antiga e com know how de produção que se perdeu hoje em dia, limitando as opções a projetores já existentes e que ainda possam ser mantidos ou reparados, ao invés da construção de novos equipamentos.

“Portugal é um mercado importante e vamos continuar a avaliar oportunidades de crescimento”, diz a IMAX em resposta a perguntas enviadas pelo Observador, sem se comprometer com uma eventual expansão dos seus formatos na Europa Ocidental. Já Nuno Aguiar não tem grandes dúvidas. “Não vejo grande probabilidade de vir a aparecer em Portugal”, diz. Curiosamente, o país chegou a ter o formato de 70mm na década de 90, no atualmente devoluto Vila Franca Centro, em Vila Franca de Xira; na altura, a aventura rapidamente se revelou inviável devido à falta de filmes; três décadas depois, quando parece haver interesse e novas produções para o formato, o desafio técnico afigura-se demasiado intransponível.

“Todas as salas [IMAX 70mm] já têm 40, 50 anos, já não há máquinas novas. E quem é o louco que filma com película hoje em dia? O Christopher Nolan faz isso, mas poucos fazem”, sustenta o responsável dos Cinemas NOS. “É um formato que se vai manter, eventualmente poderá haver um ou outro projetor que se possa adaptar, mas vai ser sempre uma coisa muito contida em termos de dimensão.” Não tão diferente da Odisseia de Homero, mantida pela tradição oral e cujas origens há muito se perderam, também a melhor forma de ver um filme atualmente é hoje uma arte esquecida, preservada pela obstinação de alguns em manter vivos os “sonhos analógicos” de outrora. Resta saber se no futuro, novos espectadores irão poder ter a mesma experiência, sem terem de viajar milhares de quilómetros para o efeito.