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(A) :: Anne Carson, Ésquilo e as naus de Salamina

Anne Carson, Ésquilo e as naus de Salamina

Talvez Ésquilo nos ensinasse, enfim, a olhar para os mísseis que cairão hoje à noite sobre os novos Persas com aquele espanto e estranha compaixão com que outrora contemplou as naus em Salamina

Paulo Ramos
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Anne Carson, em Grief Lessons — as suas extraordinariamente ousadas traduções de Eurípides — escreve: «Porque existe a tragédia? Porque transbordamos de raiva. E porque transbordamos de raiva? Porque nos revolvemos em lutos.»  E isto é inteiramente verdade: Antígona ferve em cólera porque se revolve no luto pelo irmão Polinices, a quem Creonte recusa os ritos de sepultura. Clitemnestra atira a sua fúria contra Agamémnon porque se revolve no luto pela filha Ifigénia, degolada como uma jovem poldra para garantir ventos favoráveis às velas das naus gregas rumo a Troia. Hécuba enfurece-se com o assassínio da filha Políxena, apenas para descobrir, depois, que também todos os seus outros filhos foram mortos. O luto de Hécuba parece não conhecer limites; no além, dizem-lhe, será transformada num cão.

Poderíamos ainda, à lista de Carson, acrescentar uma pergunta adicional: se a tragédia é a raiva que nasce do luto, por que razão é tão abundante o luto em nós? Porque vivemos ensopados em guerra e porque muitas pessoas foram mortas. A tragédia talvez possa definir-se como uma raiva entristecida que brota da guerra. Vivemos num mundo cuja moldura é a guerra, e em que a justiça parece dividir-se interminavelmente entre reivindicação e contra-reivindicação, direita e esquerda, conservador e progressista, crente e não crente, combatente pela liberdade e terrorista, ou qualquer outra clivagem análoga. Cada lado acredita, sem hesitação, na justiça da sua posição e na falsidade — ou, como tantas vezes se diz, na maldade — do adversário. Tal crença legitima a violência, uma violência destrutiva que, em resposta, desencadeia a contra-violência. Parecemos presos a um ciclo de vingança sangrenta, encerrados em círculos viciosos de luto e raiva produzidos pela guerra.

Quantas vezes não é mais do que isto o que, no nosso tempo, parece chamar-se política internacional? E é aqui que, creio, uma reflexão sobre a tragédia grega pode, ao menos, iluminar a nossa situação presente e partilhar connosco algo acerca do mundo em que vivemos.

A história da tragédia grega é a história da guerra: da guerra contra os persas, no início do século V a.C., às guerras do Peloponeso, que se prolongaram até ao fim desse mesmo século; do advento da hegemonia imperial ateniense à sua dissolução e humilhação às mãos de Esparta. Em 472 a.C., Os Persas, de Ésquilo, representa as consequências da batalha de Salamina, travada alguns anos antes, em 480 a.C. Estava, por isso, muito mais próxima dos atenienses do que, por exemplo, o 11 de Setembro está de nós. Mais de metade das tragédias que chegaram até nós foram compostas depois da eclosão das guerras do Peloponeso, em 431 a.C. Édipo Rei estreou em 429 a.C., dois anos após o início da guerra, num tempo de peste que terá ceifado um quarto da população ateniense. A peste que estrutura todo o horizonte da peça de Sófocles não é uma imagem ociosa nem um motivo ornamental. Era profundamente real. Matou Péricles, o líder de Atenas, no outono desse mesmo ano, 429 a.C. A moldura da tragédia é a guerra, e os seus efeitos sobre a vida humana são devastadores.

A tragédia grega, sobretudo com o seu olhar obsessivo sobre as consequências da Guerra de Troia — e, na exuberante abundância de Eurípides, isso torna-se ainda mais evidente —, é em grande medida uma meditação sobre veteranos de guerra. Mas também foi representada por veteranos de guerra. Os actores não eram frágeis histriões com uma formação abstracta em estudos de performance e um vago interesse no compromisso social; eram soldados que tinham conhecido o combate. A tragédia era apresentada perante um público que ou tinha participado diretamente na guerra ou nela estivera indiretamente implicado. Todos tinham sido por ela traumatizados, e todos sentiam os seus efeitos. A guerra era a vida da cidade e o seu orgulho, como sustentou Péricles. Mas era também a sua queda e a sua ruína.

No entanto, a tragédia grega é uma narrativa de guerra sem um John Wayne, sem um individualista soberbo que seja a única fonte do bem num mundo corrompido. Pelo contrário: na tragédia grega, o herói não é a solução do problema; ele é o próprio problema. O herói é a própria fonte da peste que está a matar a cidade. Eis uma das razões por que a tragédia de Sófocles se chama Οἰδίπους Τύραννος (Oidipous Tyrannos). O rei é um tirano que contamina a cidade, e a única saída do drama é a expulsão e o exílio de Édipo. Nisso reside a grande virtude — o realismo — da tragédia antiga, por contraste com a violência idealizada, a empatia vazia e o sentimentalismo oco de tantas ficções bélicas contemporâneas. Se a tragédia é um drama representado por veteranos de guerra perante um auditório de veteranos, então ela figura um mundo sem heróis e sem líderes tirânicos que iludem e instigam o povo para a guerra.

Como responder, então, à situação contemporânea de guerra? À primeira vista, poderia parecer que a coisa mais óbvia e mais nobre seria falar de paz. Mas, como diz Raymond Williams no seu livro de 1966, ainda hoje de enorme actualidade, Modern Tragedy, «dizer paz quando não há paz» é não dizer coisa nenhuma.  A resposta óbvia seria: dizer guerra. Mas isso seria insolente, presumido, fanfarrão. O perigo de um pacifismo fácil é ser inerte e autorreferencial; está sempre demasiado satisfeito consigo próprio. Mas a alternativa não consiste em justificar a guerra. Consiste antes em procurar compreender a dialéctica trágica e complexa das situações políticas, sobretudo das aparentemente revolucionárias.

Williams acrescenta: «Esperamos que homens brutalmente explorados e intoleravelmente pobres descansem e sejam pacientes na sua miséria, porque, se agirem para pôr termo à sua condição, isso envolver-nos-á e ameaçará o nosso conforto ou as nossas vidas.»  Muitas vezes, queremos simplesmente que a violência e a guerra desapareçam porque nos incomodam e perturbam as nossas vidas confortáveis. Assim, não só deixamos de ver a nossa implicação nessa violência e nessa guerra, como a negamos por completo.

A virtude da tragédia grega está em tornar essa denegação mais difícil, confrontando-nos com uma situação de raiva ferida de luto e de desordem. E a virtude de ver os acontecimentos sangrentos do mundo contemporâneo sob uma luz trágica é expor-nos a uma desordem que não é apenas deles: é também nossa. A nossa guerra, a nossa raiva, o nosso luto — denegado. Ver tragicamente os acontecimentos políticos é aceitar, desde logo, a nossa cumplicidade no desastre que se desenrola. Somos o público no teatro da guerra, e também nós somos responsáveis. Por isso, a tragédia pode ajudar-nos a começar a compreender uma situação de guerra, violência e luto, sem nos limitarmos a condená-la ou a murmurar palavras vazias de paz. Mais difícil ainda é imaginar a sua resolução, mas uma visão trágica do mundo tem de ser o ponto de partida de qualquer aspiração desse género.

Talvez Ésquilo nos ensinasse, enfim, a olhar para os mísseis que cairão hoje à noite sobre os novos Persas com aquele espanto e estranha compaixão com que outrora contemplou as naus em Salamina: não como pirotecnia da razão de Estado nem como números numa conferência de imprensa, mas como encenações de uma mesma hybris imperial que, em cada explosão, escreve no céu a sentença da sua própria queda; e talvez nos obrigasse a reconhecer, no clarão breve que rasga o firmamento e na sombra longa que deixa nos corpos e nas casas, não a vitória de um lado sobre o outro, mas a continuidade de uma única história de luto e de raiva em que nós, espectadores confortáveis, somos tão tragicamente implicados quanto aqueles sobre cuja cabeça a noite se abre em fogo.