Lembram-se de Anthony Fauci? O Congresso dos EUA lembra-se, e está a investigar a respectiva conduta no tempo da Covid, quando o indivíduo dirigia o Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas. Aliás, a investigação começou há três anos, e na primeira ocasião em que falou na câmara dos representantes, em Junho de 2024, o sr. Fauci admitiu meia-dúzia de pormenores relevantes: 1) a hipótese de o vírus ter saído de um laboratório em Wuhan; 2) o instituto que dirigia financiou indirectamente o tal laboratório sem supervisionar o que aí se passava; 3) a recomendação de distanciamento social de 1,8 metros (6 pés) “simplesmente apareceu” e não se baseou em estudos científicos rigorosos na altura em que foi implementada; 4) não havia estudos que recomendassem o uso de máscaras por crianças; 5) a eficácia e a durabilidade das vacinas eram limitadas.
Há dias, o sr. Fauci voltou a falar à comissão que o investiga, embora só tenha aberto a boca para invocar a Quinta Emenda e evitar responder a cerca de cem perguntas dos senadores. Por sorte, não era essencial ouvir o indivíduo, já que entretanto o indivíduo podia ser lido: a 26 de Julho, foram legalmente divulgadas 1.100 páginas de anotações rabiscadas pelo próprio sr. Fauci de Dezembro de 2019 a Dezembro de 2022. Essa espécie de “diários”, ou o contraste dos “diários” com a atitude pública, expõem o carácter do autor. E o resultado arrepia – no pior sentido da palavra.
Resumindo imenso, eis alguns momentos da lisura “científica” do dr. Fauci. Em Janeiro de 2020, o indivíduo achava em privado ser provável que o vírus tivesse saído do famoso laboratório e sujeito a manipulação genética deliberada (três meses depois, e sem qualquer evidência credível pelo meio, viria a jurar pela tese oposta). Em Fevereiro de 2020, o indivíduo escreveu que o vírus não passava de uma “gripe grave”, com o dobro da taxa de mortalidade da gripe comum (em poucas semanas, garantiu oficialmente uma taxa dez vezes superior – que hoje se sabe ser falsa). Em Março de 2020, o indivíduo negava a utilidade das máscaras (logo a seguir exigia o uso universal). Em Maio de 2020, as anotações do indivíduo registavam-lhe os receios com os riscos dos “confinamentos”, em particular na diminuição da vacinação infantil “habitual” (nas conferências não espreitava receio nenhum). Em Junho de 2020, o indivíduo reconhecia nos “diários” que os “confinamentos”, o fecho do comércio e a proibição de ajuntamentos não influenciavam a propagação ou a contenção da doença (nas televisões o sr. Fauci defendia com fervor o estado de sítio e criticava os políticos que pretendiam reabrir a economia). E um prolongado etc.
Mas o lado mais curioso dos “diários” prende-se com o fascínio do sr. Fauci com o estatuto adquirido pelo sr. Fauci naqueles anos sombrios. As anotações estão repletas de referências às peculiares delícias da fama, sem pingo de cepticismo ou melancolia. Com uma ausência de sensatez ou “distância” preocupante num cientista, o indivíduo deixou-se seduzir sem restrições pela inusitada reverência da maioria da classe política, pela desmesurada atenção dos “media”, pelos encontros com celebridades de Hollywood e da música “pop”, pela produção de “merchandising” laudatório com o seu nome ou rosto estampados em t-shirts, canecas e, acreditem se puderem, donuts. O indivíduo ficou particularmente babado ao ter sido interpretado por Brad Pitt no “Saturday Night Live”. No apogeu do número de ocorrências, internamentos e mortes, o sr. Fauci surgia em frente às câmaras com ar combalido enquanto os “diários” registavam, babados, a petição para que a revista “People” o considerasse na eleição do “Homem Mais Sexy do Mundo”.
Nada disto seria notável ou consequente se o indivíduo fosse um tonto anónimo e sem influência: o que não falta por aí são pasmados sem capacidade de desvalorizar as efémeras investidas da “glória”. Por azar, desgraçado azar de todos nós, o sr. Fauci não é só um tonto que foi consumido pela vaidade, mas um deslumbrado com manha suficiente para perceber que a sua fama dependia do tipo de discurso que adoptasse sobre a Covid, e que a dramatização desse discurso lhe conferia, além de fama, poder. E o poder dele alimentava-se do medo que incutia aos outros. Com indisfarçada alegria (no recato dos “diários”), o indivíduo descobriu-se ouvido, e descobriu também que era tanto mais ouvido quanto mais exagerasse, ou francamente mentisse, acerca dos riscos do vírus e da necessidade de “medidas”. Para se transformar no dr. Fauci da lenda, o sr. Fauci precisava de transformar uma epidemia similar a outras que aconteceram no século anterior numa catástrofe sem precedentes. E as “elites”, obviamente poupadas às maçadas dos isolamentos e das falências que arruinavam a ralé, depressa o depositaram num pedestal.
Do alto do pedestal, o sr. Fauci disparava “sugestões” que imediatamente se convertiam em leis, em parte da América e na generalidade do Ocidente, hoje propenso a imaginar apocalipses e a cair em opressões. Durante dois anos, as nossas vidas, as vidas de centenas de milhões de pessoas, estiveram penduradas na empáfia e no orgulho de um homenzinho deslumbrado e, quase que por definição, sinistro. Talvez fosse útil se tivesse servido de lição. Mas desconfio que não serviu.