(c) 2023 am|dev

(A) :: Berlim e a rede que só apanha determinados peixes

Berlim e a rede que só apanha determinados peixes

Uma cantora lamentou que o terrorista não tivesse sido um homem branco e cristão. Isto não se inventa. A frase parece uma caricatura feita por um adversário da política identitária. Não é.

Francisco Camacho
text

Esta semana, o CDS apresentou na Assembleia Municipal de Lisboa um voto de pesar pelas vítimas do atentado de Berlim. O texto fazia aquilo que se espera de um documento desta natureza: descrevia os acontecimentos, exprimia solidariedade para com as vítimas e identificava a ameaça. Uma viatura foi deliberadamente lançada contra uma multidão junto do Christopher Street Day, seguindo-se ataques com arma branca. Morreu uma pessoa e ficaram feridas vinte e nove. O ministro alemão do Interior classificou o sucedido como um atentado terrorista islamista; o suspeito estava sinalizado pelas suas ligações ao Estado Islâmico.

Seria razoável supor que uma conversa pública sobre o atentado começasse assim. Não na medida em que uma descrição dos factos resolva os problemas, mas na medida em que nenhuma discussão pode começar sem ela. Primeiro aconteceu uma coisa; depois procuramos compreendê-la. Acontece que uma parte da nossa vida pública deixou de aceitar esta ordem. Quando a realidade não confirma a sua visão do mundo, a prioridade deixa de ser compreender a realidade e passa a ser proteger a sua visão do mundo.

Foi isso que sucedeu, há uns dias, num artigo publicado no Público. O texto começa por reconhecer que o atacante estava ligado ao Estado Islâmico, mas esse reconhecimento dura pouco. Muito rapidamente se desloca do homem que matou para os partidos que irão aproveitar os acontecimentos de Berlim para atacar imigrantes e muçulmanos. Em seguida entra em cena o Cristianismo, depois a Inquisição, o Vaticano, e ainda há espaço para a participação especial das igrejas evangélicas, do Judaísmo ortodoxo e das religiões abraâmicas como um todo. Ao fim de poucos parágrafos, já não estamos a falar do atentado, mas de todos os outros “crimes” que quem escreveu o texto gostaria que estivessem em julgamento.

Isto não tem nada a ver com contextualizar. Contextualizar seria procurar saber de onde veio o terrorista, como se radicalizou, por que motivo estava em liberdade e o que explica a persistência do terrorismo jihadista na Europa. O que aqui está em causa, pelo contrário, é a tentativa de retirar o acontecimento do seu contexto concreto e encaixá-lo numa narrativa previamente construída. A vítima deixa de ser uma pessoa assassinada por um islamista e transforma-se num recurso retórico contra quem estiver disponível no catálogo dos opressores.

Alfonso Pantisano, o comissário do Governo do Estado de Berlim para a aceitação da diversidade sexual e de género (sim, o cargo existe), ofereceu uma versão institucionalmente mais polida da mesma operação. Pantisano reconheceu que existe um “problema enorme” com organizações islamistas como o Estado Islâmico. Mas esse reconhecimento só serviu para mudar a agulha. O verdadeiro perigo, explicou, seria a extrema-direita e até a CDU, que acusou de alimentar a homofobia através da sua retórica. Em suma: o atacante jurou fidelidade ao Estado Islâmico, mas a responsabilidade moral é de Friedrich Merz por não querer uma bandeira LGBT no Reichstag.

Ainda mais elucidativo foi o episódio relatado durante o memorial da mulher assassinada. Segundo a notícia, uma cantora lamentou que o terrorista não tivesse sido um homem branco e cristão. Isto não se inventa. A frase parece uma caricatura feita por um adversário da política identitária. Não é. É a confissão perfeita de um sistema intelectual que, mais do que não querer saber da verdade, já não sabe sequer o que a palavra significa.

Nestes termos, qualquer tentativa de conversa pública sobre o assunto se torna impossível. Ao ler este texto, alguém do campo ideológico que critico concluirá provavelmente que aqui se está, também, a aproveitar um atentado para atacar adversários políticos. Não reconhecerá qualquer diferença entre subordinar os factos a uma narrativa e denunciar essa subordinação. Essa incapacidade de distinguir as duas coisas é parte do problema. Enquanto uns tentam discutir aquilo que aconteceu, outros procuram impedir que o atentado seja discutido a partir dos factos que o definem.

A propósito deste assunto, Carl Trueman, da First Things, recuperou uma frase que ouvira de um colega, nos tempos áureos do pós-modernismo: “O método é a rede concebida para apanhar o peixe que foi concebida para apanhar.” Aplicada à política identitária, a imagem explica-a como uma rede concebida para apanhar apenas os vilões que decidiu antecipadamente procurar. Logo, quando o agressor pertence a um grupo protegido e as vítimas pertencem a outro, o sistema entra em curto-circuito. A realidade tem então de ser silenciada para salvar a teoria.

Mais à frente no texto, Trueman admite que a política identitária talvez não termine como outras revoluções, devorando os próprios filhos. Poderá, em vez disso, deixá-los indefesos perante inimigos determinados. Creio, porém, que nem sequer estamos perante um aviso sobre o futuro. O colapso acontece agora, quando uma mulher pode ser assassinada por um jihadista e o principal esforço intelectual dos seus presumíveis defensores consiste em impedir que se fale do jihadismo.

A primeira obrigação para com os mortos é não mentir sobre aquilo que os matou. E o debate público só poderá recomeçar quando os factos recuperarem o direito de contrariar as nossas ideias. Até lá, não haverá conversa.