Enviados especiais do Observador a Ceuta
O último agente da Guardia Civil no “espigão fronteiriço” de Ceuta descalça as luvas pretas. Coloca-as no bolso. Com as mãos, limpa as lágrimas que lhe acabam de cair. O cenário é avassalador. Não se contém. Sente-se impotente. Ali, tem uma única missão: não deixar que ninguém se afogue. “No problem! ¡Tranquilo, amigo. Sube. Tranquilo, tranquilo!”, grita, desesperado, para que um homem, agarrado a uma boia em forma de pneu, saia de perto das rochas e pise terra firme.
Os nomes dos agentes foram retirados das fardas, mas aquele homem não se esquece de que, à frente dele, a arriscar a vida, está gente de carne e osso. “Também tenho dois filhos”, conta, com a voz embargada, sem desviar os olhos das pessoas que tenta proteger. Deixou o resto nas entrelinhas. Não é preciso dizer mais nada.
Nos últimos dias, o número de pessoas que atravessaram a fronteira entre Marrocos e Espanha já superou as 60 mil. Procuram melhores condições de vida, um trabalho mais digno, um salário decente, uma forma de sustentar a família. São maioritariamente homens jovens, que decidiram aproveitar uma brecha na lei para tentar a sorte — só há “devoluções a quente” quando o migrante transpõe “elementos de contenção” física, o que não acontece quando chegam a nado.




Por isso ou por causa de crenças que passam de boca em boca e fazem milhares de pessoas atravessar uma fronteira a nado para chegar a uma cidade onde não resta nem um supermercado aberto. “O rei da cidade disse às pessoas para virem, que era de graça e que havia muito trabalho”, conta ao Observador Walid, de 25 anos, que tem uma loja de tapetes na cidade azul de Marrocos, Chefchaouen.
Seja qual for o motivo, os marroquinos não param de chegar à Playa El Tarajal, em Ceuta, com a roupa que têm no corpo. Alguns arriscam trazer uma mochila com pequenos bens ou telemóveis embrulhados em película aderente. Mas nem sempre chegam intactos. Pelo contrário. Por estes dias, falta a comunicação com as famílias. Querem apenas dizer que estão bem, que estão vivos — ao contrário dos quase 60 mortos registados nos últimos dias.


“Não vou morrer aqui! Para isso, morro no meu país”
Nizar só tem 17 anos. Joga futebol no Wydad Athletic Club, em Casablanca. Atravessou a fronteira com uma pequena mochila azul e laranja. Lá dentro, tem um telemóvel que não está a trabalhar, um carregador, uns calções e a camisola do clube do coração, que mostra com orgulho. “É tudo o que tenho na vida.” Para trás deixou a mãe e a irmã doentes. Chora ao falar delas. Mas garante que vai atrás do sonho e que jamais voltará para trás. “Em Marrocos não como, não bebo, a minha família não tem dinheiro para me sustentar. Aqui não tenho nenhum problema extra. A minha família sabe que tenho de ser jogador de futebol.”
Em Ceuta, no Valência ou no Real Madrid, este fã de Cristiano Ronaldo só quer jogar futebol. Há poucos minutos, foi atingido com gás lacrimogéneo lançado pelas autoridades marroquinas, no topo das montanhas que se veem da praia. Ainda tem “picos” nos olhos. Está só à espera dos amigos, que procuram um telemóvel no fundo do mar. Marrocos ficou para trás. E garante que nada o vai impedir de viver o sonho europeu.

A esperança de quem já está há dois dias em território espanhol não é tão forte. Aitmami, de 17 anos, veio com o irmão. Também têm a mãe doente e procuram um trabalho em mecânica para a ajudar. “Queremos trabalhar e ganhar um bom salário, não pedimos muito. Somos todos jovens, estamos só a lutar pelos nossos sonhos”, afirma, enquanto aponta para o amigo que tem ao lado: “Ele vai regressar.”
Ele é Azdi. Tem 29 anos, três filhos e não aguenta “nem mais meia hora” em Ceuta. Fez cinco horas de caminho a pé até às montanhas, pagou um barco para não correr tantos riscos e concluiu em poucas horas que nada deve manter os marroquinos neste pedaço de terra colado ao país onde nasceram. “Não há nada para comer, não há água para beber, está tudo fechado. E também não há trabalho e ninguém nos ajuda. Ficar para quê? Se ficarmos, vamos morrer aqui. Eu não vou morrer aqui! Para isso, morro no meu país.”


Walid, o homem que vende tapetes na cidade azul, está a fazer exatamente o mesmo percurso até aos portões da fronteira terrestre entre Espanha e Marrocos, que as autoridades abriram para facilitar o regresso dos migrantes a casa. É um passadiço de perder de vista, que milhares de marroquinos percorrem agora em direção às vidas que tinham até há poucas horas (e de onde fugiram).
O vendedor foi um dos primeiros a chegar a Ceuta nesta vaga. Está há três dias na cidade. Comeu pão e bebeu a água que trouxe. Desde aí, está a passar fome. Dormiu na rua, não tem onde tomar banho e está a “perder dinheiro”. “Vim à procura de melhor e estou a perder o pouco que tenho”, desabafa. A camisola da seleção francesa que traz vestida tem o nome de Ribery. Aponta para o símbolo. Era a França que desejava chegar, mas ainda não será desta vez.
Pára em frente a uma câmara de televisão, toca no vidro da lente e, num espanhol próprio de vendedor marroquino, atira: “Vocês foram maus para toda a gente. Até Marrocos é melhor do que aqui.” Antes de atravessar a fronteira — que é só um portão a dividir um caminho de terra batida — acena com um sorriso.




Um dos membros do exército espanhol está debruçado no corrimão, a olhar para a praia. Há cinco anos, assistiu ao mesmo. Mas, do que se recorda, acredita que desta vez ainda é pior. Abana a cabeça em jeito de reprovação e desabafa: “É uma vergonha. Vêm enganados. Prometem-lhes o mundo. Não têm como ficar aqui. Enquanto não saírem, a vida não regressa à normalidade. E, no meio, estragam a vida da cidade, que vai demorar muito a levantar-se de tudo isto.”
Um dos jovens que estão a chegar enquanto aquele homem do exército pára para refletir é Taha. Até tem trabalho e dinheiro em Marrocos. Entende que, para a realidade do país, até ganha bem. Queria “só uma vida melhor” e vinha à procura dela. Não tem dúvidas de que vai voltar em breve e leva revolta no regresso a casa. “Fecharam o supermercado para vermos que não somos bem-vindos. Deixam-nos entrar e matam-nos à fome.”
Ao lado, o amigo abre a bolsa que tem ao peito para comprovar que tem dinheiro para comprar comida e água, que não vêm para roubar ninguém. Sente-se enganado. Venderam-lhe a ideia de que Ceuta chamou os marroquinos para trabalharem, de que Espanha precisava de mão de obra. Agora que está ali, depois de arriscar a vida, sente que tudo foi em vão. “Pelo menos, no meu país posso comprar comida.”
Al Hassan, que sonhou com a “terra paradisíaca de Ceuta”, está esfomeado e tem medo que a polícia o mande de volta para casa. Como ele, há quem faça tudo para ficar — até uma espécie de jogo do gato e do rato com as autoridades.

Quando o milagre passa a pesadelo
Depois de um dia em que os elementos da Guardia Civil tiveram a missão de receber e reencaminhar os migrantes que chegavam à costa — com a pergunta “Espanha ou Marrocos?”, dando-lhes a liberdade de escolher —, o exército espanhol reteve dezenas de marroquinos no mar, com água pelos tornozelos, durante horas.
Até que alguns jovens começaram a tentar sair dali pelo mar — nadar até outras zonas da praia e sair em direção à cidade. Elementos do exército que falam árabe foram escolhidos para tentar convencer quem ali estava de que regressar a Marrocos era a melhor solução. Mas quem ainda não viu as condições da cidade desconhece aquilo que está em causa e traz todas as ilusões na bagagem. Por isso, mesmo com momentos de maior tensão, as autoridades acabaram por ceder e abriram espaço para um novo momento de euforia.
Foi assim durante todo o dia. Os rostos de quem chega são de felicidade pura. Risos e festejos. Braços no ar como sinal de vitória. Beijos em camisolas de clubes espanhóis. Gritos: “Viva España! Muchas gracias. I love you!” A terra é beijada como se de um milagre se tratasse. Há quem saia do mar a apontar para o céu, quem se ajoelhe e reze. Para quem fez aquela travessia, é o fim de um pesadelo e a chegada do dia tão esperado. É o início de uma vida melhor, o realizar de um sonho.


Mas quem pisa aquela areia escura não sabe o que está para vir. Não faz a mais pequena ideia de que, a escassos metros de distância, há outros marroquinos a fazer o trajeto contrário — não por quererem regressar a casa, mas por não haver outra solução. A cidade está um caos. As ruas estão repletas de migrantes a deambular. Os sonhos e ambições de há poucas horas são agora gritos de fome, sede e revolta. O paredão da praia que os trouxe é um chamariz para os que perdem a esperança.
Os espanhóis fecharam-se em casa. Encerraram todos os negócios: cabeleireiros, papelarias, perfumarias, está tudo com as grades para baixo. E, mais importante do que tudo isso, fecharam as portas de minimercados, padarias, lojas de conveniência e hipermercados. Não há onde comprar comida e há pessoas com fome a tentar alcançá-la. Os turistas refugiaram-se nas piscinas e nos restaurantes dos hotéis.

Ceuta transformou-se numa cidade-fantasma — sem serviços, nem habitantes — e as ruas estão repletas de marroquinos perdidos. São milhares. Andam de um lado para o outro, sem destino. Muitos deles descalços, outros com chinelos sem par. Trouxeram a roupa que tinham no corpo e pouco mais. Sentam-se em bancos, dormem em passeios, lavam-se em torneiras públicas. Procuram água. Imploram por comida.
Para quem arriscou a vida para chegar a Ceuta, a cidade tornou-se um pesadelo. Estão presos numa armadilha. Sem destino. Sem rumo. E o único caminho é o regresso ao país de onde fugiram.
[Os serviços secretos portugueses enfrentam uma crise de segurança sem precedentes: existe uma toupeira infiltrada no SIS. A suspeita é de que esteja a vender segredos da NATO à Rússia de Putin. E a confirmação final vai ser feita pelas secretas norte-americanas: a CIA traz o nome de um dos espiões mais antigos do serviço. Já estreou “A Vida Dupla do Espião Traidor”, o novo Podcast Plus do Observador. Pode ouvir o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]