(c) 2023 am|dev

(A) :: A China já vende carros na Europa, com os emblemas europeus

A China já vende carros na Europa, com os emblemas europeus

Uma empresa que há vinte anos fabricava baterias, apontada como possível compradora do símbolo industrial alemão. Guardem esta imagem, porque ela é o presente, não o futuro.

Diogo Pasuch
text

Há símbolos que valem mais do que mil relatórios. O automóvel é um deles. Foi, durante um século, o coração da indústria europeia, o setor que sustentou salários altos, sindicatos fortes, cidades inteiras. A Alemanha, a França, a Itália construíram classe média à volta de linhas de montagem. Se há uma coroa na indústria do velho continente, o automóvel é a sua joia mais brilhante. E é essa joia que está, neste momento, a mudar de mãos.

Comecemos pela notícia que motiva estas linhas. Em 2025, os lucros do Grupo Volkswagen caíram 44%, para 6,9 mil milhões de euros. A empresa anunciou o corte de até cem mil postos de trabalho e o encerramento de produção em quatro fábricas alemãs. A imprensa alemã, pouco dada a dramatismos, chama-lhe a pior crise da Volkswagen desde a Segunda Guerra Mundial. E dois economistas de peso, Niall Ferguson e Moritz Schularick, disseram ao Süddeutsche Zeitung o que há pouco tempo seria impensável, a Volkswagen pode acabar comprada por uma fabricante chinesa, e citaram um nome, a BYD.

Uma empresa que há vinte anos fabricava baterias, apontada como possível compradora do símbolo industrial alemão. Guardem esta imagem, porque ela é o presente, não o futuro.

Como é que se chega aqui? A explicação oficial é conhecida e cómoda, a transição para o carro elétrico foi mal feita, e a China joga sujo com subsídios. Há verdade nisso, mas é uma verdade incompleta, e as verdades incompletas são as mais perigosas, porque consolam sem explicar. A pergunta de contabilista, a que não descansa, é outra. Porque é que a China consegue fabricar o mesmo carro mais barato?

Os carros elétricos chineses custam, na Europa, menos 21% do que os equivalentes europeus, e mantêm essa vantagem mesmo depois de a União ter erguido tarifas para os travar. Repare-se no que isto significa. Puseram-se barreiras alfandegárias, e o carro chinês continua a chegar mais barato ao consumidor. Quando uma tarifa não fecha o fosso de preço, o problema não é a tarifa ser pequena, é o fosso ser enorme. E um fosso enorme não se explica por um truque, explica-se por uma diferença estrutural de competitividade. Energia mais cara na Europa, que já vimos custar duas a três vezes mais do que na China. Regulação mais pesada. Custos de contexto mais altos. A China domina a cadeia das baterias, produz em escala colossal e integra tudo, da mina de lítio ao automóvel acabado. Não é que a China jogue sujo. É que joga melhor precisamente nas condições que a Europa, por escolha própria, se recusa a corrigir.

O império que já está dentro de casa

Mas aqui chega a parte que devia tirar o sono a quem governa a Europa, e que raramente se conta ao cidadão de forma reunida. A China não está a bater à porta da indústria automóvel europeia. Já entrou, há anos, e está instalada na sala de estar.

O nome a reter é Li Shufu, o fundador da Geely, e a lista das suas posições parece um roteiro do prestígio automóvel europeu. A Geely é dona, por inteiro, da sueca Volvo, que comprou à Ford em 2010 por cerca de 1,8 mil milhões de dólares, um terço do que a Ford tinha pago por ela onze anos antes. É dona da britânica Lotus, dos míticos desportivos. Controla a Polestar e a Lynk & Co. É dona da LEVC, a empresa que fabrica os icónicos táxis pretos de Londres. Detém metade da Smart, em parceria com a Mercedes. É um dos maiores acionistas individuais da própria Mercedes-Benz, casa onde chegou a comprar cerca de dez por cento do capital. E detém ainda perto de oito por cento da Aston Martin, o automóvel de James Bond, símbolo entre os símbolos da elegância britânica.

Detenham-se um instante nesta lista. A Volvo, a Lotus, a Aston Martin, a Smart, uma fatia da Mercedes. Não são marcas quaisquer, são pedaços da alma industrial e cultural da Europa. E estão, no todo ou em parte, nas mãos de um só grupo chinês.

E eis a ironia que desmonta toda a política europeia de defesa. A União Europeia ergueu tarifas para travar a entrada dos carros chineses, para proteger a sua indústria da concorrência de Pequim. Mas essas tarifas travam apenas o automóvel que chega com emblema chinês. Não travam o capital chinês que já é dono das marcas europeias de sempre. Os números dizem tudo. Em maio deste ano, o Grupo Geely liderou as vendas chinesas na Europa com mais de 38 mil automóveis, mas a esmagadora maioria foram Volvo, Polestar e Smart, marcas de imagem europeia. Retiradas essas, o resto do grupo vendeu apenas 4 771 unidades. Ou seja, a China vende na Europa sobretudo escondida atrás dos emblemas que comprou. O consumidor que, por instinto de defesa da sua indústria, recusa um carro de marca chinesa e escolhe em alternativa uma Volvo ou uma Smart, está a comprar chinês na mesma, apenas com um emblema que o não diz. A muralha alfandegária protege a porta da frente enquanto o novo dono já dorme lá dentro.

E há o passo seguinte, que fecha o círculo. A Volvo, marca sueca de nome e chinesa de dono, já abriu as suas fábricas europeias, em Gante, na Bélgica, para nelas se produzirem carros da Geely. Assim, o automóvel chinês deixa de precisar de atravessar fronteira nenhuma, nasce dentro da Europa, numa fábrica europeia, com mão de obra europeia, e escapa por inteiro à tarifa. A barreira que Bruxelas ergueu foi contornada não por fora, mas por dentro, usando as próprias fábricas do continente. Não há tarifa que trave quem já é acionista.

Onde a Europa desiste, a China constrói

Do lado de cá do Atlântico, a mesma história repete-se com outro nome. Em Novembro de 2025, a Geely adquiriu 26,4% da Renault do Brasil, numa operação que envolveu 3,8 mil milhões de reais, aproximadamente 633 milhões de euros. A Renault, uma das mais antigas fabricantes europeias, no maior mercado da América Latina não avançou sozinha, vendeu mais de um quarto da sua operação brasileira a uma chinesa e passou a produzir, nas suas próprias linhas do Paraná, carros da marca Geely e sobre plataforma tecnológica chinesa. A inversão é total. Durante décadas, foram as europeias que chegaram ao Brasil a ensinar a fabricar automóveis. Agora é uma europeia que, para não ficar para trás, precisa da tecnologia e do capital de um sócio chinês.

E ao lado da Geely, a BYD faz o mesmo por outra via. Inaugurou em Camaçari, na Bahia, o seu maior complexo industrial fora da Ásia, com um investimento de 5,5 mil milhões de reais, aproximadamente 917 milhões de euros. A fábrica tem capacidade para 150 mil veículos por ano, com planos de chegar a 600 mil. E o pormenor que fecha esta história é de uma ironia cruel. Foi construída no terreno de uma antiga fábrica da Ford, que fechou as portas no Brasil em 2021. Onde uma marca automóvel tradicional desistiu e foi embora, uma chinesa instalou-se e começou a produzir. No mesmo chão onde antes se fabricava um símbolo do automóvel do século vinte, fabrica-se agora o carro que a China quer que seja o do século vinte e um.

Somando as imagens, o retrato fica completo e impiedoso. A China compra as europeias em casa, da Volvo à Aston Martin. Produz dentro da Europa, nas fábricas que essas marcas lhe abrem, contornando as tarifas. Substitui as que fogem, ocupando o terreno da Ford. E torna-se sócia das que ficam, entrando na Renault.

Compra, produz, substitui, absorve. Quatro verbos, um só movimento, a indústria automóvel a mudar de mãos.

Convém perceber a dimensão do que está em jogo, para lá de qualquer empresa. Se este setor cai, não cai uma marca, cai um modelo social, o que sustentou a classe média europeia durante três gerações. E cai porque a Europa se tornou um lugar caro demais para fabricar aquilo que ela própria inventou.

Foi a Europa que transformou o automóvel em civilização, que fez dele arte, engenharia e orgulho nacional. Que a coroa desse reino esteja a assentar, peça a peça, numa cabeça chinesa não é uma fatalidade caída do céu. É o resultado somado de mil decisões que tornaram a energia cara, a regulação pesada e a produção inviável, e de uma classe dirigente que, perante o incêndio, discute a cor das cortinas em vez de apagar as chamas.

A Volkswagen ainda não é chinesa. Mas a Volvo já é, a Lotus já é, metade da Smart já é, e um pedaço da Mercedes e da Aston Martin também. Quando um continente começa a vender, uma a uma, as marcas que o definiram, e a deixar que produzam nas suas fábricas os carros de quem as comprou, devia parar para perguntar o que está realmente a vender. Porque quem vende o automóvel que inventou talvez esteja a desaprender algo maior do que uma indústria. E o mais inquietante é que, quando isso acontecer por completo, o cliente europeu poderá nem dar por isso, continuará a ver os mesmos emblemas de sempre no capô.