O internamento psiquiátrico evoca corredores escuros, gritos constantes, pessoas perigosas vestidas com pijamas desbotados. Combater esta imagem parece uma tentativa ingénua de romantizar a realidade. O medo cristalizou na nossa mente.
Mas será essa a perceção de quem vive e trabalha num internamento psiquiátrico?
Há gritos.
Às vezes, contenções físicas.
Ocasionalmente violência.
Nada disso ocupa a maior parte dos dias.
A primeira imagem real de um internamento psiquiátrico é dada pela forma como acolhemos: pelo respeito da individualidade do utente, pela preservação da sua integridade. Quem entra não é louco nem maluco. É uma pessoa, entregue por dias ao sofrimento de uma doença que, embora invisível, não é menos real nem menos dolorosa.
A adaptação nunca é fácil nos primeiros dias. Onde alguns buscam sossego e solidão, outros sentem a sua vida interrompida sem saber quando a irão retomar. Depois de dias infindos de frustração, a chegada ao internamento provoca confusão. A revolta instala-se; o utente perde o controlo; desestabiliza-se a rotina. O profissional sabe que quem recebe agressividade com agressividade apenas a amplifica. Apenas a calma guia o utente à estabilidade. Poucos lugares exigem tanta competência técnica e tanta serenidade humana.
A partir do momento em que entra, o utente será o centro das decisões. Os seus bens são inventariados e guardados. Explicam-lhe o funcionamento do serviço, os espaços e as regras. Integram-no na comunidade dos demais internados, familiarizam-no com o espaço. Recebe a medicação. Depois chega a refeição.
Nos intervalos, ele é livre. Sai ao pátio. Descansa num cadeirão. Uns interrogam-se se será aquele o seu futuro; outros ainda nem perceberam onde estão ou como ali chegaram.
A equipa de enfermagem é rotativa. As caras sucedem-se, diferentes, estranhas. Mas raramente o utente precisa de repetir a sua história. Cada enfermeiro conhece o seu percurso, os seus medos, aquilo que o tranquiliza e aquilo que o desorganiza. Aos poucos, a estranheza desvanece.
Nos momentos em que parece não acontecer nada, acontece quase tudo. Uma conversa à porta do quarto. Um café partilhado. O respeito pelo silêncio. Uma caminhada pelo corredor. É aí, muito mais do que nos momentos de crise, que o tratamento começa.
Cada dia parece confirmar que nada mudou. É uma espera tantas vezes impaciente.
Mas um dia surge a surpresa. O primeiro sorriso. A primeira dúvida entre tantas certezas falsas. Um plano para o futuro. O espanto de perceber que dormiu toda a noite. Que voltou a conseguir ler. Que já não pensa em morrer a cada minuto.
Sucedem-se as gargalhadas, as conversas em grupo. Profissionais e utentes aprendem uns com os outros, partilham segredos e histórias, receios e esperanças. Sem que ninguém dê por isso, deixa de haver apenas doentes internados e profissionais de saúde mental. Passa a existir uma comunidade.
Finalmente, programa-se a data para regressar à vida exterior.
A família é preparada. Os medos dissipam-se. A esperança encontra o seu lugar.
Quando as portas do hospital se fecham atrás de um utente que recebe alta, é fácil pensar que ali dentro ficou a doença. Mas o que aquele lugar guarda são sobretudo testemunhos de vidas interrompidas. Histórias de pessoas que perderam casa, família, memória, esperança ou simplesmente a capacidade de viver sozinhas. Histórias que continuam connosco quando o turno termina e regressamos a casa.
O internamento psiquiátrico é invisível, não porque esteja escondido, mas porque poucos querem olhar para aquilo que ele revela sobre todos nós.
Num hospital geral tratam-se doenças.
Num hospital psiquiátrico tratam-se vidas.