Há uma ideia incómoda que começa a impor-se no debate sobre a inteligência artificial: talvez estejamos a colocar ferramentas demasiado poderosas nas mãos de pessoas que ainda não desenvolveram as capacidades necessárias para as utilizar. A provocação é simples: antes de recorrer à inteligência artificial, talvez fosse conveniente possuir alguma inteligência humana treinada.
A recente sugestão na revista The Economist de que a inteligência artificial deveria ser usada apenas depois dos 40 anos não deve ser interpretada literalmente. Não se trata de estabelecer uma idade mínima, como acontece com a condução, o álcool ou o direito de voto. Trata-se de reconhecer que a maturidade intelectual, a experiência e o conhecimento acumulado são indispensáveis para avaliar aquilo que uma máquina produz.
A inteligência artificial não pensa por nós. Produz respostas plausíveis, organiza informação, imita estilos, resume documentos, gera imagens e escreve textos que, à primeira vista, podem parecer competentes. O problema é que só uma pessoa com preparação suficiente consegue distinguir uma resposta rigorosa de uma invenção, um argumento sólido de um conjunto de banalidades ou um texto original de uma sucessão de lugares-comuns.
É precisamente aqui que reside o maior risco da utilização precoce da inteligência artificial. Quem já sabe escrever pode recorrer a estas ferramentas para rever um texto, testar alternativas ou ultrapassar um bloqueio criativo. Quem nunca aprendeu verdadeiramente a escrever pode passar a confundir fluidez com qualidade e correção gramatical com pensamento.
O mesmo acontece em praticamente todas as áreas. Um programador experiente pode utilizar inteligência artificial para acelerar tarefas repetitivas, identificar erros ou explorar soluções. Um estudante que ainda não compreende os princípios básicos da programação pode limitar-se a copiar código que não sabe explicar. Um investigador preparado pode usar a tecnologia para organizar bibliografia ou identificar padrões. Quem não domina o método científico corre o risco de aceitar referências inexistentes e conclusões sem fundamento.
A tecnologia amplia capacidades, mas também amplia fragilidades. Nas mãos de alguém competente, pode aumentar a produtividade. Nas mãos de alguém sem preparação, pode produzir apenas a ilusão de competência.
Durante séculos, aprender significou enfrentar dificuldades. Era necessário ler, praticar, errar, recomeçar, receber críticas e lidar com a frustração. Esse processo era lento e, muitas vezes, desconfortável. Mas era justamente através desse esforço que se formavam o pensamento, a autonomia e o discernimento.
A inteligência artificial promete eliminar uma parte considerável desse desconforto. Resolve a página em branco, sugere argumentos, faz resumos, responde a perguntas e cria apresentações. O utilizador deixa de enfrentar o problema e passa diretamente para o resultado. Parece uma libertação, mas pode tornar-se uma forma de dependência intelectual.
O problema não está em utilizar uma máquina para fazer mais depressa aquilo que já sabemos fazer. Está em utilizar a máquina para evitar aprender. Quando a inteligência artificial substitui o processo de aquisição de competências, o resultado pode parecer aceitável, mas a pessoa permanece incapaz de compreender verdadeiramente aquilo que apresenta como seu.
Esta questão é particularmente grave na educação. Escolas e universidades estão a adotar ferramentas de inteligência artificial sem terem ainda decidido o que os alunos devem continuar a saber fazer sozinhos. Em muitos casos, a discussão limita-se a saber como detetar trabalhos produzidos por máquinas. Essa é uma preocupação secundária. A pergunta mais importante é outra: que competências humanas deixarão de ser desenvolvidas quando a máquina fizer o trabalho desde o início?
Não há qualquer vantagem em formar gerações capazes de produzir rapidamente relatórios, ensaios e apresentações que não sabem defender. O verdadeiro conhecimento não consiste em entregar uma resposta. Consiste em compreender o problema, justificar as opções, reconhecer limitações e responder a objeções.
A inteligência artificial pode ser extraordinária na medicina, na ciência, na engenharia, na gestão ou nas artes. Pode libertar profissionais de tarefas rotineiras e permitir-lhes concentrar-se em atividades de maior valor. Mas isso pressupõe que existam profissionais com conhecimento suficiente para controlar a tecnologia, em vez de serem controlados por ela.
Por isso, a discussão não deve ser entre aceitar ou rejeitar a inteligência artificial. Essa batalha já está ultrapassada. A verdadeira discussão deve centrar-se nas condições da sua utilização. Quando deve ser introduzida? Que conhecimentos devem existir previamente? Que tarefas devem continuar a ser realizadas sem assistência? Que responsabilidades devem permanecer exclusivamente humanas?
A referência aos 40 anos funciona como uma provocação útil. Recorda-nos que nem todas as ferramentas devem ser utilizadas sem preparação e que a facilidade não é necessariamente um progresso. Em certos momentos, é precisamente a dificuldade que nos torna melhores.
A inteligência artificial será mais útil para quem tiver aprendido antes a pensar, criar, escrever e decidir. Para os restantes, poderá tornar-se apenas uma forma sofisticada de esconder aquilo que nunca chegaram a saber.