Na terça-feira 8 de setembro, a pequena cidade de Eton, em Berkshire, vai passar a ser a casa de um novo residente real. O príncipe George inicia o ensino secundário num regime de internato, e passa a integrar o grupo de mais de 1300 rapazes com idades entre os 12 e os 19 anos a frequentarem a escola. O segundo na linha de sucessão ao trono britânico repete assim o percurso do pai, William, que também frequentou a escola privada — e que tem uma anuidade que supera os 70 mil euros. George ter-se-á submetido aos exames de admissão tal qual qualquer outro candidato, e quando cruzar a ponte que separa Windsor da pequena cidade, não deverá receber nenhum tratamento especial.
A ida para Eton já era antecipada, mas foi confirmada em meados de junho através de um comunicado do Palácio de Kensington. Agora, fica ainda mais em destaque, numa altura em que também os primos, Archie e Lilibet, filhos de Harry e Meghan, se preparam para iniciar o ano letivo em escolas britânicas. A família aterrou em Londres na passada quarta-feira, 26 de agosto.

Telemóvel antigo e quarto privado
A escola foi fundada em 1440 por Henrique VI e foi responsável pela educação de vários integrantes da família real. Entre membros seniores, além de William, também frequentaram Eton o duque de Gloucester e o duque de Kent. Já das gerações mais recentes, o príncipe Harry estudou no colégio tal qual o irmão, assim como os netos da princesa Margarida, Samuel e Arthur Chatto. Entre personalidades britânicas que foram ex-alunos na instituição, destacam-se nomes como o do autor do livro 1984, George Orwell, ou de atores como Eddie Redmayne e Tom Hiddleston. Pelo menos 20 antigos primeiros-ministros britânicos também passaram pela escola, incluindo David Cameron ou Boris Johnson.

Para esta nova etapa em Eton, o filho mais velho dos príncipes de Gales segue na companhia de alguns amigos da escola anterior, Lambrook, e outros jovens com quem já se cruzou anteriormente em competições desportivas. De acordo com Melanie Sanderson, editora do The Good Schools Guide, em declarações ao Telegraph, o espaço da escola, que ocupa mais de 140 hectares da cidade de Eton, é como se fosse uma “mini cidade universitária”. “Espera-se que os rapazes se tornem rapidamente independentes. É um lugar grande com muitas pessoas e muito a oferecer”, esclarece.
Tal característica permite a George uma dose extra de liberdade: o jovem poderá passear pela rua principal ou atravessar a ponte para Windsor com os amigos, por exemplo. O príncipe era um aluno externo na escola Lambrook, mas chegou a ter experiências pontuais com um regime de internato flexível. Entretanto, a mudança para Eton significa que a partir de setembro George só vai voltar para a casa da família — o Forest Lodge, em Windsor, a uma distância de 16 minutos de carro — a cada duas ou três semanas, durante os períodos de férias. Mesmo assim, o regime não é tão restrito. Os príncipes de Gales podem frequentar a escola para assistir apresentações musicais ou competições desportivas, por exemplo, ou visitar o filho numa tarde de domingo.
George também não vai dividir quarto com outros alunos, como determina o regulamento interno da escola. “Desde o início, cada rapaz tem o seu próprio quarto e sala de estudos: não há quartos partilhados. Os meninos devem ter o seu próprio espaço privado para que se possam organizar e desenvolver em relação à autodisciplina nas reuniões, tarefas e prazos”, diz o documento. Os quartos estão distribuídos entre as 25 casas que funcionam como pequenos internatos, cada uma a acolher aproximadamente 55 estudantes (11 de cada ano escolar), que vivem sob a supervisão de uma equipa liderada pelo House Master ou pela House Dame, com quem os pais dos alunos podem ficar em contacto regular.
A escola é reconhecida pela excelência académica: o currículo oferece 28 disciplinas, incluindo nove línguas modernas e clássicas. Entretanto, fora da sala de aula, George também terá acesso a uma série de atividades extracurriculares, como teatro, música, arte e desporto — o colégio tem mais de 15 campos de jogos para 25 desportos diferentes e um programa de desenvolvimento exclusivo para atletas de alta performance, sendo que ao longo dos anos vários ex-alunos se destacaram em competições internacionais, como os Jogos Olímpicos. Eton também tem um curso de atividades ao ar livre, com foco em viagens de aventura que ensinam práticas como escalada, trekking, ou ciclismo de montanha.




Apesar da aparente liberdade, a política em relação aos ecrãs permanece a mesma que George já vive em casa. Numa entrevista ao ator Eugene Levy na série da Apple TV+ The Reluctant Traveler, o príncipe William revelou que nenhum dos filhos tem telemóvel. Já na viagem ao Brasil, em novembro de 2025, para a entrega do prémio Earthshot ao apresentador Luciano Huck, voltou ao tema, afirmando ser “muito difícil” proteger os filhos das redes sociais. “Os nossos filhos não têm telemóveis. Acho que quando George for para o ensino secundário, talvez tenha um dispositivo sem acesso à internet”, disse o príncipe. “E, para ser honesto, está a chegar a um ponto em que está a tornar-se um pouco tenso. Mas acho que ele entende o motivo”, afirmou ainda o herdeiro ao trono britânico. “Explicámos por que não achamos certo. E, novamente, acho que o problema está no acesso à internet. Acho que as crianças podem aceder a muita coisa online que não precisam ver, ter um telemóvel para mensagens de texto, aqueles ‘tijolos’ antigos, como dizem, acho que está tudo bem.”
E é isto que vai acontecer em Eton. Desde 2024 os alunos do primeiro ano recebem um telemóvel antigo (brick phone), sem acesso à internet, para trocar mensagens de texto ou chamadas com a família. A medida foi aplicada depois de uma revisão da política de dispositivos móveis da escola. De acordo com um porta-voz do colégio, em declarações à BBC, permanecem as medidas “apropriadas para cada idade” em relação aos outros anos escolares, em que os estudantes têm acesso a um tablet com sistemas de controlo parental.
George segue os passos do pai
Quando iniciar os estudos secundários, George estará, de alguma forma, a perpetuar uma espécie de “tradição” na família. Há 31 anos foi William a ingressar em Eton. O príncipe chegou à escola em setembro de 1995 na companhia de Diana e Carlos, que na altura já estavam separados há três anos. Um passo diferente do pai, Carlos, que frequentou Gordonstoun, na Escócia, um colégio muito mais restrito e focado numa abordagem que privilegia experiências no exterior.

De acordo com Simon Vigar, autor da biografia The Four Wives of Windsor, em declarações à People, a opção por Eton na altura foi “uma decisão de Diana”. “O seu irmão e o seu pai haviam frequentado este colégio e, é claro, era muito mais perto de casa do que Gordonstoun, onde Carlos também não foi muito feliz”, assinala o escritor. William terá vivido “bons momentos” em Eton, descreve Vigar, apesar de ter sido nesta escola que William e Harry passaram pelas alturas mais desafiantes das suas infâncias, do divórcio dos pais amplamente escrutinado na imprensa à trágica morte da princesa de Gales em 1997. “Eton foi como o paraíso que William precisava”, destacou também a biógrafa real Sally Bedell Smith, à mesma publicação.
Um ambiente familiar instável já comum à história da realeza britânica, recorda Valentine Low, autor de Power and the Palace. “As gerações anteriores da família real não são muito conhecidas pelas suas habilidades parentais”, destaca o jornalista ao Telegraph. “A única soberana que escapou às falhas parentais foi Isabel II, que foi criada num ambiente próximo de uma família de quatro: a diferença, é claro, é que até ter 10 anos de idade ninguém sabia sequer que seria rainha”, recorda Low, sobre o facto de que Isabel só passou a ser a herdeira direta ao trono depois da abdicação do tio, Eduardo VIII. “Quando chegou a sua vez, fez o possível para ser uma mãe amorosa para Carlos, mas o dever sempre vinha primeiro. Estava frequentemente ausente — uma vez ausentou-se por quase seis meses — enquanto Filipe era um pai duro e exigente. Carlos, um rapaz sensível, sentia-se sozinho e incompreendido.”
Contextos familiares bastante diferentes do que agora vive George. “Os pais de William estavam em guerra e ele testemunhou muitas coisas”, assinala Robert Jobson, o autor de The Windsor Legacy, à revista Hello!. “O contexto de George é muito mais orientado para a família, ele tem muito mais apoio. Vai ingressar na escola num espaço de muito mais confiança”. O biógrafo também aponta para a presença e a influência dos Middleton. “Carole, em particular, é alguém que sempre esteve presente para eles, durante todos os desafios, especialmente quando Catherine ficou doente. É uma mulher forte e uma figura muito importante na vida de George”.
Uma estabilidade que é prioridade na rotina dos filhos dos príncipes de Gales: os primeiros dias de aula das crianças tanto na escola primária de St. Thomas como no preparatório Lambrook foram acompanhados por apenas uma câmara de televisão, um fotógrafo e um jornalista. Tanto George como Charlotte e Louis sempre seguiram o mesmo percurso escolar que qualquer outro aluno, participando em clubes extracurriculares e viagens de estudo — e William e Kate participam nos serviços na capela, assistem aos jogos desportivos dos filhos e vão às reuniões de pais. Aliás, os príncipes de Gales estarão mesmo no grupo de pais no WhatsApp.

Em contrapartida, a ida de George para Eton coincide com um momento em que o herdeiro ao trono assume mais funções dentro do protocolo oficial e começa a construir a sua imagem pública. Durante as comemorações do Jubileu de Platina de Isabel II, em junho de 2022, o príncipe ficou posicionado exatamente ao lado esquerdo da Rainha, que também estava acompanhada daqueles que na altura eram os mais prováveis sucessores, Carlos e William. No chá em comemoração do Dia da Vitória, no Palácio de Buckingham, em 2025, esteve a falar com veteranos de guerra. Em dezembro visitou o The Passage, um centro de acolhimento para pessoas sem abrigo, e em junho deste ano acompanhou a mãe numa visita a uma base aérea da Royal Air Force, para comemorar o Dia das Forças Armadas. A partir deste ano, espera-se que o jovem esteja cada vez mais presente nos compromissos públicos, mesmo que só se comprometa definitivamente com as funções como membro sénior da realeza quando chegar ao final do seu percurso académico. Até lá, deve aproveitar o tempo de adolescente que lhe resta, num ambiente escolar em que, para todos os efeitos, será só mais um aluno.