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(A) :: O que vê Esther Kinsky que nós não vemos?

O que vê Esther Kinsky que nós não vemos?

"Ver Mais Além" é uma paixão por salas de cinema, mas não é um livro sobre filmes. Cruza as ficções do grande ecrã com vidas reais, mas não é um romance. É uma incógnita que nunca se esclarece.

Ana Bárbara Pedrosa
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Não se percebe bem o que é este Ver Mais Além. Tem muito de ensaio, tem um quê de memórias. Percebe-se que não é um romance: as longas passagens explicativas levam o leitor para longe da ficção, por muito que a narradora estabeleça uma relação entre si mesma e a ficção no grande écrã. Ainda assim, não se pode dizer que Ver Mais Além seja um livro sobre cinema, ainda que as memórias e as cogitações sobre as salas de cinema, em especial as abandonadas, as que foram de glória e de visualização colectiva, acabem por dar esqueleto ao livro.

Viajando pelo sudeste da Hungria, a narradora dá por si numa pequena localidade já mal habitada perto da fronteira com a Roménia. Ali, está o cinema – que fora o centro da vida em grupo – fechado há muito. Ei-lo então como esqueleto, e a narradora parte daí para ir pensando no papel do cinema enquanto agregador de vida colectiva, e no seu posterior papel de identificação de elite. Com a televisão, sublinha ela, a visualização de um filme passou a coisa privada, e as classes sociais deixaram de se misturar no mesmo espaço. Ora, chegada à tal localidade, a narradora propõe-se a recuperar o antigo cinema: compra-o e quer devolver à vida o que já parece ter morrido.

Enquanto se lê, assiste-se à mudança social que a mudança tecnológica impõe. A televisão e o vídeo esvaziam o espaço da sala de cinema enquanto espaço comunitário, e perpassa por todo o livro uma certa nostalgia de um tempo cristalizado. Ainda assim, o livro não se lê como quem viaja por um enredo; em vez disso, os leitores navegam com a narradora entre considerações, memórias e ambientes, o que pode afastar quem procure, nas páginas, certa estrutura edificante. É essa falta de estrutura que mais parece primar no livro, já que a prosa é mais a marcação de uma reflexão do que a descrição de um acontecimento. Assim, o que mais tem espaço no livro é a experiência cinematográfica como algo quase datado, sempre marcado pela nostalgia referida.

Ora, esta nostalgia fica ainda mais evidente através da viagem que a autora faz pelo abandono: estamos numa vila semi-abandonada, num cinema totalmente abandonado, e tudo nas páginas sabe a tempo que passou; a passado que respira, mas que já mal consegue respirar; à efemeridade do tempo, das modas, dos hábitos. Ao longo do livro, a autora faz acompanhar o texto com fotografias de lugares entretanto abandonados, desertos; lugares que parecem só memórias, mas que ainda existem; lugares que parecem museus da própria memória e pouco mais. Enquanto se vê, na acção da narradora, uma tentativa de manter vivo o que morreu, o próprio texto já faz esse exercício, rememorando e, em simultâneo, reavivando o espaço através da escrita, do registo do que foi.

A transição do cinema, do papel que tem na vida colectiva e pública, vem, ao longo do texto, abraçada à transição do regimes socialistas do Leste Europeu para o modelo capitalista – esse que foi permitindo a visualização individual e sonegando certos espaços de partilha. Os formatos domésticos ajudaram a privatizar uma experiência que era, até então, vista como comunitária, e é isso que a autora tenta recuperar. Não há propriamente um conflito, mas antes uma leitura da sociedade partindo de um espaço – ou então a leitura de um espaço, metendo lá dentro todas as mudanças sociais, num jogo de causa e efeito. Aqui, dá para se chamar o título: ver mais além não se esgota nos pormenores das salas de projecção – a luz do projector, as cadeiras, a penumbra –, mas num olhar que procure concatenar elementos, transformando o que podia ser um espaço inócuo numa lente que abre os olhos para as mudanças do mundo em larga escala.

Claro que a tentativa de reabilitar o espaço do cinema não difere muito da tentativa de resgatar um tempo que passou. Assim, o ideal romântico embate na realidade, já que a zona continua pouco populada, e sobretudo os rituais deixaram de incluir os da partilha de visualização de um filme. Além disso, a própria população olha para o cinema como uma espécie de estigma que significa escassez económica. Ou seja, uma ida ao cinema pressupõe a falta de capacidade monetária para ter uma televisão. Vê-se, ao longo do livro, que, noutras zonas, a ida ao cinema tem o significado contrário, com o preço do bilhete a afastar a maioria da população, que consome conteúdos através da televisão. Portanto, a ambição de reabilitação cultural da narradora esbarra na forma como os próprios habitantes se perspectivam, não tendo estes a mesma relação, algo entre o umbilical, o nostálgico e o quimérico, com o cinema.

E quimérico é, assim, o intuito da narradora, que acaba por ceder à resignação, e por dar por si em frente às telas sem mais ninguém ao lado. A sala escura continua escura, a solidão continua a sós, e acaba por sobreviver apenas um livro que parece um monumento erguido em homenagem a um ritual que já passou, que significou para uma comunidade o que provavelmente não voltará a significar. Assim, pegando em edifícios decadentes, em lugares decadentes, a autora constrói um ensaio que parece ter um cariz documental, parecendo cristalizar um momento da história. O olhar da autora poderá ser demasiado fatalista ou pessimista, uma vez que o que relata não se verifica em todos os lugares, já que ainda há, por uma grande parte do mundo, e até com certo glamour, salas de cinemas que continuam cheias, e público que continua disposto à visualização colectiva.

Seca, a prosa é melancólica, e exige ao leitor a paciência de se deixar ir na lentidão dessa melancolia, sem se atar a um enredo, sem esperar que A conduza a B. A leitura implica uma certa vontade por querer ver além da prosa e por querer ver além do tempo – tempo esse, aliás, sobre o qual a autora se debruça em quase todas as frases.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia