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(A) :: Luís Neves e o espírito do Western

Luís Neves e o espírito do Western

Se fosse permitido, o MAI andaria de coldre como no Texas, cuspindo tabaco e montando o seu Pinto horse.

Paulo Pinto
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Quem nunca, pergunto à minha geração, foi com avidez e alegria, na sua infância, ao cinema local ver uma coboiada? Domingo à tarde ou sábado pela noite, levado pela mão do avô, também fã do género, entrávamos no velho e decadente cinema de sorriso largo no rosto, antecipando os murros e disparos, cavalos e índios, que pareciam ter vida no ecrã. Sem pipocas e sem estereofonia, deliciava-nos naquelas duas horas, levando ao limite da sanidade juvenil, o pensamento de que nós também queríamos estar lá dentro.

A recente conferência de imprensa do MAI, Luís Neves, levou-nos até esse saudoso passado, onde machos plenos de confiança e sem truques na manga se entregavam a mil e uma aventuras, encarando o perigo com irreprimível valentia. A cena era digna dos grandes cartazes: um contra todos, sozinho contra o mundo, o protagonista apareceu cheio de convicção e orgulho, fazendo gala do seu passado enquanto diretor da PJ, descrevendo a sua atuação em contornos gerais. A sua postura corporal não permitia a mais leve dúvida de que estávamos perante um indivíduo corajoso, sem papas na língua, um homem de ação! Este cowboy não era homem para papeladas e burocracias, era desprovido do espírito desses homens de escritório, fechados todo o dia no gabinete e temendo o mundo lá fora: podemos imaginá-lo, ao invés, a tragar a sua cerveja e o seu shot, a mandar piropos a uma bela moça, a arrotar com convicção no meio dos camaradas de armas, a dar uns cachaços e apertos fortes de mão aos comparsas, mas acima de tudo, de palito na boca a puxar pelo revólver surpreendendo os bandidos. Conseguimos visualizá-lo a apanhar sozinho todos os maus da fita, tal como não duvidámos de que seria capaz – se quisesse ou se viesse a ser preciso – de caçar de mãos nuas um grande felino. Aqui não há qualquer ato de prestidigitação: as balas são reais e o sangue espirra com dor.

Da conferência de imprensa somente devemos reter a nobreza: as justificações frágeis ou a falta delas não nos deve fazer perder o sono. Tal como do astro de um filme apenas recordamos as qualidades, também o nosso MAI deve ser visto como herói – qual é o problema de cair constantemente do cavalo quando se levanta e volta a montar de cada vez? O que o país necessita é de ação e não de palavras ou procedimentos.

Por isso não nos devemos incomodar ou alertar com as incongruências do ex-diretor da PJ. O homem é um tipo rijo, mas um bom tipo e, nos dias atuais, já não é pouco. Se a nossa democracia não coabita pacificamente com o Velho Oeste, então, raios, mude-se o regime. Se fosse permitido, o MAI andaria de coldre como no Texas, cuspindo tabaco e montando o seu Pinto horse. Permitam-me mais uma breve referência cinematográfica: Sam Elliott, na pele de The Stranger, um cowboy à moda antiga, na última cena do filme The Big Lebowski, deixa-nos com este pensamento: It’s good knowin’ he’s out there. The Dude. Takin’ ‘er easy for all us sinners. E o que somos, senão simples pecadores, mas que, felizmente, temos alguém que olha por nós, o nosso Luís Neves.