A educação ambiental ganhou, pode dizer-se, uma importância equivalente à que, pela literatura, se concebeu à educação sentimental, suscitando toda uma nova bibliografia, em particular a dirigida aos mais novos, aqueles que vão ter a sua vida literalmente frita pelas alterações climáticas. Como já aqui tivemos ocasião de fazer notar, e mais do que uma vez, o tema tem mobilizado a mais recente edição infanto-juvenil portuguesa, beneficiando do talento duma geração de ilustradores que usam as ferramentas digitais com particular sedução, tanto quanto de cientistas naturais dispostos a escrever para um público particularmente exigente em tom e empatia.
Este extraordinário impulso, que merece ser melhor conhecido e difundido — possibilitando ampliar tiragens e reduzir o preço dos livros —, tem agora uma nova demonstração neste pequeno livro da bióloga polaca Kasia Sroczynska, do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, da Universidade de Évora, e do ilustrador Bernardo C. Carvalho, cujos trabalhos saem habitualmente pela Planeta Tangerina, especificamente contextualizado na Graciosa e publicado em auto-edição, financiada pelo Fundo Ambiental. Pela primeira vez, e numa ilha dos Açores menos mediatizada ou visitada, a edição infantil portuguesa com preocupações ambientais ocupa-se duma reserva da biosfera como lugar a partir do qual crianças podem ver e perceber o mundo.
Duas frases do livro: “Agora compreendia bem a grande responsabilidade que os habitantes da ilha têm: cuidar da natureza que confia neles como seus guardiões”; “A nossa ilha inteira é uma reserva. E nós, as pessoas que aqui vivem, também fazemos parte dela”.

O facto de a pequena ilha açoriana ser uma reserva da biosfera da Unesco desde 2007 coloca às crianças que nela vivam o desafio duma tomada de consciência do privilégio que lhes coube e, a partir daí, o dever de zelar pelo bom equilíbrio das coisas à sua volta e até ao fio do horizonte, com tudo o que os oceanos acarretam como fluxo global. Invertendo o caminho duma garrafa com mensagem SOS dentro, que Maria, a protagonista, encontra na praia, lançada à água por Miguel, que vive contrariado algures numa megapólis, os benefícios duma vida em plena natureza que a condição insular ali proporciona, e os prodígios — lendas incluídas — que o vulcanismo desencadeou, vão sendo enunciados, a par e passo com as paisagens que o cromatismo exuberante e o risco divertido de Carvalho desenharam com hábil graciosidade (não desperdiçou, claro, a oportunidade de colocar o Pico ao longe, coberto por nuvem).
Com os colegas da escola, Maria vai ajudar os jovens cagarros a darem os primeiros voos em direcção ao mar, provavelmente — embora isso não seja referido — participará também em jornadas de limpeza das orlas marítimas, mas é em conversas e passeios com a mãe que se vai dando conta de que o facto de a sua ilha ser uma reserva da biosfera faz dela um “lugar de esperança” na harmonia entre animais, plantas e humanos. E como a produção e o consumo energéticos fazem parte da grande equação, o aproveitamento do sol e do vento também importam: “Maria fechou os olhos. Imaginou a sua casa iluminada por raios de sol guardados em caixas invisíveis e o vento a soprar para dentro das lâmpadas do quarto”.
Mesmo que crianças como Maria façam bem a sua parte, no “sítio único” em que vivem, a verdade é que serão sempre poucas e cada vez menos, pois o grave declínio demográfico de algumas daquelas ilhas — um assunto para adultos que o sejam — é tão difícil de debelar como a indiferença ambiental de larga parte da população açoriana e portuguesa. Contra isso não há literatura, por melhor que seja, que nos salve ou console. Todavia, o caminho faz-se caminhando.