Era dia de festa, mas também um dia difícil de engolir para ele e para todos os benfiquistas que acreditavam nele e não queriam que saísse do clube. Depois da vitória dos encarnados sobre o St. Gallen, os aplausos de uma Luz em pé também se referiam a uma melhoria clara do Benfica, face ao que tinha apresentado apenas uma semana antes na Suíça. Mas, acima de tudo, levantavam-se para agradecerem e despedirem-se de um “menino” da casa: António Silva está de saída do Benfica para os ingleses do Bournemouth, a troco de 25 milhões de euros que podem chegar ainda aos 30 milhões por objetivos desportivos.
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“A Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD (“Benfica SAD”) informa que chegou a acordo com o Bournemouth para a alienação da totalidade dos direitos do jogador António Silva, por um montante de 25M€ (vinte e cinco milhões de euros), acrescido de uma remuneração variável associada a objetivos, pelo que o montante global da transferência poderá atingir o montante de 30M€ (trinta milhões de euros). Mais se informa que a Benfica SAD terá encargos com serviços de intermediação, que poderão ascender a 9,5% do valor da transferência”, anunciou a sociedade encarnada este sábado à CMVM.
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Antes da oficialização, Marco Silva, que se fechou em copas na flash interview, deixou de ignorar o óbvio, pouco depois, na sala de conferências. Tudo isto, depois de o atleta ter recusado renovar o seu vínculo com o clube da Luz. Apesar de ser benfiquista e viver o clube como mais do que apenas uma relação profissional, a decisão da saída partiu do próprio jogador. “A decisão estava tomada na cabeça dele”, revelou o técnico dos encarnados na conferência de imprensa depois do jogo com os helvéticos.
“Posso dizer que este foi, muito provavelmente, o último jogo do António Silva. Digo ‘muito provavelmente’ porque há sempre questões burocráticas entre clubes. Mas, sim, tudo indica que este foi o último jogo que o António fez hoje pelo Benfica. Em relação ao António, sendo claro, era uma decisão que estava na cabeça dele. Pouco tempo depois de eu chegar, aconteceram as conversas que tinham de acontecer entre a direção do Benfica e os seus representantes. A decisão do jogador não ficar connosco estava mais ou menos definida“, afirmou.
Mesmo com a certeza cada vez mais forte de que António Silva tinha tudo acertado para sair da Luz, o atleta “mostrou sempre condições para jogar e demonstrou, particularmente, que tanto ele como o seu empresário foram profissionais desde o primeiro dia“, garantiu Marco Silva, dando o exemplo dos dois jogos que o defesa central realizou – como capitão – frente ao St. Gallen. “O António nunca enveredou por caminhos que um jogador poderia ter seguido e nunca me pediu absolutamente nada. Sinceramente, no que diz respeito às suas obrigações enquanto profissional, é isso que eu lhes posso garantir: se jogou todos estes jogos, independentemente de poder haver uma transferência, foi porque nunca houve qualquer situação que justificasse outra decisão”, esclareceu.
Estes dois jogos são apenas a ponta final e uma amostra fiel do percurso de António Silva como futebolista profissional: jogou apenas pelo Benfica, onde chegou com apenas 12 anos e de onde nunca mais se desvinculou até esta operação que o leva para a Premier League. No primeiro jogo que fez na equipa principal dos encarnados, em 2022/2023, tinha 19 anos. O adversário era o Boavista, que em casa perdeu com os encarnados por 3-0. O treinador do Benfica era Roger Schmidt, que fez o jovem alinhar numa defesa a quatro. No eixo, estavam António Silva e Morato, que fez o primeiro golo do jogo, inclusive. Tudo parecia conspirar para a estreia do atleta – do adversário, teoricamente mais acessível, à indisponibilidade do capitão Nicolás Otamendi. A escolha de Schmidt não foi, no entanto, inocente: o técnico alemão tinha à sua disposição Jan Vertonghen, mais experiente, como o argentino, mas por algum motivo preferiu apostar em António Silva, em época de estreia absoluta nos escalões profissionais.
Foi nessa mesma época que o Benfica fez uma das suas melhores campanhas na Liga dos Campeões no século XXI: chegou aos quartos de final – desde a final de 1990 com Eriksson, o Benfica nunca mais conseguiu ultrapassar esta mesma fase da prova milionária. Foi nessa campanha que o defesa central se estreou a marcar pela equipa principal dos encarnados, num triunfo por 4-3 sobre a Juventus, na Luz, a fazer o primeiro golo da partida.
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Com António Silva, surgiram também outros nomes provenientes do Seixal, que saíram mais cedo da Luz do que o defesa central, como João Neves e Gonçalo Ramos. Mais tarde saiu Florentino Luís, que já tinha representado a equipa principal do Benfica, mas só conseguiu afirmar-se nessa temporada. Houve ainda outros nomes, como os de Diogo Gonçalves, Paulo Bernardo ou Henrique Araújo. Mais cedo ou mais tarde, para patamares maiores ou menores, todos estes nomes e mais alguns foram saindo, além de outros que entraram depois e saíram antes. António Silva foi ficando.
Foi precisamente com Schmidt que António Silva venceu o seu primeiro e único título de campeão nacional, o seu primeiro grande troféu com o Benfica, já depois de ter conquistado a UEFA Youth League ao lado de Tomás Araújo e Henrique Araújo, sob o comando de Luís Castro. Na época 2022/2023, depois de uma longa luta com o Sporting, o 38.º título de campeão nacional acabou por ser decidido apenas por dois pontos. No Marquês, onde os benfiquistas foram festejar, o central não escondeu a magnitude do momento para quem sempre viu o clube de dentro e de fora: “Sabia que ia gritar 38, mas não como jogador. Sou jogador-adepto“. E acrescentou, sobre o que sentiu naquela noite: “O 38 é do Benfica e dos adeptos, que são aquilo que move o clube” – uma frase dita com a alegria de quem tem a oportunidade de representar o seu verdadeiro clube do coração.
O benfiquismo não era de circunstância. António Silva cresceu a sê-lo, moldado pela família e pelo Seixal, e nunca o escondeu. “Sou claramente um benfiquista doente por influência do meu pai e do meu irmão, três anos mais velho do que eu, que sempre me passou esse bichinho do clube. Depois de passar 10 anos na formação do clube, passar nos corredores, olhar para os jogadores… sempre tive o feeling que conseguia jogar na equipa do Benfica e quando o concretizei foi um dos momentos mais especiais da minha vida, se não o mais especial”, contou numa entrevista para o canal do influenciador ‘JOliveira10’. E revelou que até ao fim manteve um ritual que começou muito antes de ser profissional: “Sempre que entro no Estádio da Luz gosto de sempre cantar o hino, arrepia-me sempre, dá-me aquela pele de galinha“.
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Foi também durante estes anos com a camisola encarnada que António abriu as portas à Seleção Nacional, que representou no Mundial-2022, no Qatar, e no Euro-2024, na Alemanha. Mas nem tudo correu de feição para o defesa central do Benfica, cuja perceção oscilou com as épocas de menor sucesso do Benfica. Acabou por falhar a convocação para o Mundial-2026. “Tive uma ascensão muito rápida, tudo era um mar de rosas. E depois surge um erro, dois… Algo que é perfeitamente normal, que todos os centrais têm e que ainda vão ter, e que eu também vou ter – e espero que os tenha, que é sinal que estou a jogar”, acrescentou.
“Muita mentira contada muitas vezes passa a ser verdade. Criam-se estereótipos dos jogadores. Quando um jogador sobe à equipa A, como o Benfica é uma equipa que forma muitos jogadores, existe essa perseguição. Não é flopar, mas criticar a cada erro e comigo tomou proporções muito grandes”, afirmou, antes de recordar o jogo de Portugal diante da Geórgia no último Europeu, em que cometeu uma grande penalidade que ditou o 2-0 final para os georgianos. “A partir daí as coisas tomaram uma proporção gigante”, defendeu, apontando o dedo a uma franja dos adeptos portugueses. “Tinha 19 ou 20 anos e até devia ser um bocadinho ao contrário. Deviam apoiar um jogador português que representa o Benfica e a Seleção. Era bom para a Seleção, para o país apoiá-lo e não dar constantes marteladas”, defendeu.
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Quem o viu de perto não precisou de muito tempo para perceber o que ele era. Roger Schmidt, o treinador que o lançou e com quem conquistou o único título, reconheceu a sua qualidade desde os primeiros treinos, antes mesmo de o estrear. Alexander Bah, colega de balneário que foi ao Mundial do Qatar naquele mesmo ano de 2022, não poupou nas palavras quando falou do central português aos jornalistas: “Nunca vi um jogador daquela idade como ele. É um jovem, mas no campo tem uma personalidade diferente, é muito agressivo. Parece que está nos grandes palcos há muito tempo”. Do lado de fora, o treinador do Bournemouth, Marco Rose, foi igualmente direto quando assumiu o interesse do clube inglês: “Queremos este jogador, o jogador quer juntar-se a nós e os clubes estão em conversações”.
Já depois de sair da conferência de imprensa na noite do jogo, António Silva partiu em silêncio para Inglaterra, sem discursos nem cerimónias no aeródromo de Tires. Antes de entrar, deixou apenas uma promessa: “A seu tempo falarei com os benfiquistas”. Há mais de uma década que os benfiquistas falavam com ele, para o bem e para o mal — nas bancadas, nos corredores do Seixal, nas ruas de Lisboa — e agora vai ser a vez de retribuir. O momento certo, quando chegar, será para quem sabe o que é ter sido um adepto fora de campo antes de o ser lá dentro.
Mas antes dessa promessa, houve um adeus no único sítio que fazia sentido para um jogador como ele: o relvado da Luz. No final do jogo com o St. Gallen, Pavlidis empurrou-o para a frente quando a equipa agradecia às bancadas. António Silva, que queria ser apenas mais um, percebeu que não podia. Deu uma volta ao relvado, aplaudiu as bancadas, recebeu o carinho de uma Luz que se levantou por ele e que, de acordo com o próprio, lhe deu um amor ríspido, em tempos. Não conteve as lágrimas. O miúdo que saiu de Penalva do Castelo aos 12 anos, com o sonho de jogar ali, o “jogador-adepto” que cantava o hino antes de cada jogo, o capitão que levou o clube ao 38.º título.
Era o adeus de um atleta que via nos adeptos benfiquistas também os seus pares – e vice-versa. Para a história ficam 207 jogos e 10 golos marcados, o último dos quais numa deslocação do Benfica a Barcelos, com uma vitória dos encarnados por 1-2, a contar para o Campeonato.