Começa a cheirar a fim de ciclo — e José Luís Carneiro diz estar pronto para qualquer um dos cenários. O secretário-geral socialista garante que o partido nada fará para contribuir para a queda de Luís Montenegro e faz disso ponto de honra. Ao mesmo tempo, vai responsabilizando o primeiro-ministro por ser incapaz de pôr um ponto final à sucessão de casos e casinhos que estão a desgastar o Governo. Parece um filme repetido e Carneiro não deixa de ir reconhecendo os sinais. “Olhem para o que aconteceu ao Governo de maioria absoluta”, diz o líder socialista.
Em entrevista ao Observador, o líder socialista fala do tema do momento e prefere não pedir diretamente a cabeça de Luís Neves. Mas vai dizendo duas coisas: cabe ao primeiro-ministro avaliar se o seu ministro tem condições para continuar e assegura que nunca teria convidado Luís Neves para liderar o Ministério da Administração Interna — isto apesar dos rasgados elogios que fez ao ex-diretor da PJ quando foi conhecida a nomeação.
José Luís Carneiro perspetiva ainda os próximos meses e, mesmo sem dizer se viabiliza ou não o próximo Orçamento do Estado, defende que não haverá “drama” se o país for para duodécimos, na medida em que o próprio Presidente da República já desarmadilhou essa questão. Se ou quando a crise política chegar, o socialista aponta para as sondagens: “Não há uma única sondagem que, pelo menos nos últimos três meses, não me dê como preferido para primeiro-ministro”.
Veja a entrevista de José Luís Carneiro ao Observador
https://www.youtube.com/watch?v=Safvg_aJ34Y&source_ve_path=MjM4NTE&embeds_referring_euri=https%3A%2F%2Fobservador.pt%2F
“Não teria convidado Luís Neves para ministro”
Depois de tudo o que ouviu de Luís Neves, está em condições de dizer que, se fosse primeiro-ministro, Luís Neves já não seria ministro da Administração Interna?
Pude trabalhar com ele no desempenho de funções de diretor da Polícia Judiciária (PJ) e encontrei nele um servidor do Estado, do interesse público e um polícia respeitado pelos seus colegas. Como é evidente, assumir funções políticas é diferente de ser diretor do mais importante órgão de polícia criminal. Desde a primeira hora até ao dia em que falei com o primeiro-ministro, a minha primeira preocupação foi a proteção da PJ. Todos os deveres de quem tem sentido de Estado e sentido de responsabilidade devem estar concentrados na proteção das instituições democráticas e particularmente da PJ. É evidente que é uma escolha arriscada levar um diretor de um órgão de polícia criminal para a função de ministro da Administração Interna. Aquilo que transmiti ao primeiro-ministro foi que os factos conhecidos fragilizam a autoridade política do ministro. Mas compete ao primeiro-ministro avaliar, juntamente com o próprio ministro da Administração Interna, se tem condições para se manter no exercício dessa função e se o deve fazer.
Sendo líder do PS é automaticamente candidato a primeiro-ministro. Seria importante para os eleitores como um todo saberem o que faria se fosse primeiro-ministro neste momento. Demitia ou não Luís Neves?
Se fosse primeiro-ministro não o teria convidado para a assunção de funções políticas, tendo em conta o trabalho que estava a desenvolver na PJ.
Portanto não se vai comprometer com uma resposta em relação à demissão ou não de Luís Neves.
Simplesmente não se colocaria esta questão porque o mais importante dirigente do topo da mais importante polícia de investigação criminal não seria convidado para o desempenho de funções desta natureza.
Quando Luís Neves foi escolhido para a função de ministro da Administração Interna em fevereiro de 2026, essa escolha foi celebrada por si, que disse na altura que Luís Neves era “uma personalidade forte num Governo apesar de tudo frágil”. Afinal, Luís Montenegro fez bem ou mal?
Disse que era uma personalidade forte num Governo frágil; não disse que seria um bom ministro da Administração Interna tendo em conta a origem de onde provinha.
Mas era para esse cargo que ele ia.
Entendi que não devia ter aceitado essa função. Mas foi convidado e trata-se de uma personalidade forte num Governo com muita fragilidade. Agora, o que é que eu queria sublinhar é que o Governo está a ser constantemente a principal fonte de instabilidade política. De crise em crise, o Governo e o primeiro-ministro em particular mostram não ter capacidade antecipatória para os problemas e mostram uma grave dificuldade em entender a sensibilidade dos temas de crise.
Neste caso, não havia antecipação possível.
Quando existiram os primeiros sinais do que se estava a passar deveria ter havido esclarecimentos. Pedi esclarecimentos 15 dias antes. Esclarecimentos que fossem céleres. Contrariamente àquilo que foi dito por vários comentadores e até no espaço mediático, pedi esclarecimentos claros e inequívocos 15 dias antes.
“É falso que o PS tenha tentado proteger Luís Neves”
Luís Neves estaria melhor na PJ?
Pois com certeza que ele ficou a fazer falta à Polícia Judiciária.
Mesmo conhecendo aquilo que sabe hoje sobre estas decisões que Luís Neves tomou como diretor nacional da PJ?
Enquanto cidadão, tenho o dever de confiar nos procedimentos e nas práticas e regras da Polícia Judiciária.
Estamos a falar de Luís Neves e não da Polícia Judiciária. Estamos a falar de uma pessoa que José Luís Carneiro considera que estaria melhor como diretor nacional da Polícia Judiciária. Estaria?
As instituições são feitas por equipas, não há atores isolados nas instituições. As instituições têm regras, têm normas de conduta, normas de atuação e o quadro da legalidade. Se viermos a verificar, e isso é aquilo que a Procuradoria-Geral da República está a apurar, que as normas, as regras e a legalidade não foram asseguradas, bom, então aí será um problema novo e ainda mais grave. Agora, há algo que sei e que transmiti ao primeiro-ministro: a autoridade política do ministro está fragilizada. Só o primeiro-ministro e o próprio devem avaliar se Luís tem ou não condições para continuar no exercício de funções. Foi o meu dever como líder da oposição. O meu dever não é quebrar a confiança dos cidadãos nas instituições; é dar a oportunidade a quem lidera as instituições de explicitar claramente e de assumir a sua responsabilidade.
Mas tem dúvidas relativas à conduta de Luís Neves. Preferia que estivesse na Polícia Judiciária, um órgão de polícia criminal?
Se Luís Neves estivesse na Polícia Judiciária, o país não estaria confrontado hoje com este quadro de fragilização da confiança dos cidadãos nas suas próprias instituições.
Estas decisões que estão a ser escrutinadas agora têm a ver com a ação de Luís Neves como diretor nacional da Polícia Judiciária. Portanto, estaria lá e estava lá a tomar estas decisões que estão agora a ser investigadas.
Temos de partir do princípio da presunção da inocência e aguardar pelos esclarecimentos que venham a ser dados em sede de inquérito sobre a probidade dos atos, das atitudes, dos comportamentos e das decisões adotados por Luís Neves.
Tem uma relação com este ministro, com Luís Neves? Falou com ele nas últimas semanas sobre a sua situação?
Não.
Houve uma tentativa inicial do Partido Socialista de proteger Luís Neves? O facto de ter sido uma escolha do PS para a PJ em 2018, condiciona a sua ação política?
Não. É falso, aliás, o que estão a afirmar. Em momento algum houve qualquer tentativa de proteção. Há vários exemplos…
Damos-lhe um: há uma semana, o líder parlamentar do PS, Eurico Brilhante Dias, falou na necessidade de esclarecimento, sim, mas colocava o peso no oportunismo político do Chega, dizendo que esta era uma perseguição à Polícia Judiciária, que estava a investigar grupos de extrema-direita e, portanto, que achava estranho que o Chega não se focasse antes nos problemas do ministro da Educação.
Não vejo nenhuma incompatibilidade naquilo que afirmou. Vejo, pelo contrário, uma compatibilidade. Uma questão é exigir, como fez o PS, desde a primeira hora, esclarecimentos, cabais, céleres, que não permitam que prevaleça qualquer dúvida sobre a integridade da autoridade democrática do ministro da Administração Interna, porque é ele que tutela as forças de aplicação da lei. Esta foi a expressão que utilizei desde a primeira hora. Significa isto que não pode prevalecer qualquer dúvida sobre o zelo, a isenção, a imparcialidade, a independência e a defesa intransigente do interesse público, do Estado de Direito. Há 15 dias fiz essas exigências. Disse, contudo, que isso não significa fazer julgamentos precipitados, nomeadamente na praça pública.
Reconhece que há uma diferença de tratamento entre um caso recente, o de Fernando Alexandre, e este?
Contrariamente a outros, tenho por princípio recolher o máximo de informação possível para formular um juízo, porque quando se trata do bom nome, da integridade e da honra de uma pessoa. Foi por isso que, no debate parlamentar, não fiz deste tema um tema de questionamento do primeiro-ministro, porque estávamos ainda apenas com o conhecimento do que se passava em relação às construções. Portanto, concentrei-me nas questões que tinham que ver com a Educação. Quando tivemos conhecimento de que tinha havido remoção de prova para efeitos de julgamento de um caso complexo de tráfico de droga, é evidente que, aí, a nossa linguagem passou a ser outra. A situação agravou-se. E aquilo que disse o líder parlamentar do PS foi que há quem tenha interesse em atacar as instituições democráticas.
Isto é uma perseguição a Luís Neves?
Há quem tenha interesse em atacar as instituições democráticas e que defenda que é preciso alterar esta República. Sabemos também que esse partido, desde a primeira hora, atacou a pessoa que foi escolhida para o desempenho de funções da Administração Interna. O que é que poderá haver para atacar à partida alguém que foi escolhido para desempenhar essa função? Uma questão é colocada no plano que eu coloquei há pouco, por exemplo, colocaram outras personalidades, que é alguém que foi titular de um órgão de polícia criminal, não deveria transitar imediatamente para o desempenho de funções políticas.
Mas José Luís Carneiro não disse isso na altura. Ou disse?
Eu não disse.
Devia ter dito? Pedro Passos Coelho disse-o, por exemplo.
Estava a pensar, por exemplo, em Passos Coelho, que disse, efetivamente, que era imprudente essa transição direta. Entendi que não devia fazer esse juízo, tanto mais que conhecia a personalidade do desempenho de funções de serviço público. Como se vê agora, efetivamente havia um risco e há riscos. Mas queria dizer o seguinte: desde a primeira hora, há um partido que ataca a pessoa escolhida para o desempenho de funções da Administração Interna; há, como todos sabem, um conjunto de investigações, nomeadamente a movimentos de extrema-direita, movimentos esses que têm conexões com o Chega, o “Movimento Armilar”, o “Movimento 1143”. As investigações sobre financiamento internacional desse partido são matérias que não podem ser escamoteadas, devem ser tidas em consideração quando fazemos um juízo sobre o modo como se atua. Isto é claro, factual e objetivo. Nunca foi contraditado. É legítimo avaliar se este ataque à persona política tem a ver com estas matérias. Tratando-se aparentemente, e só aparentemente, de uma contradição, ela é de facto uma abordagem holística mais global que permite olhar para o tema com outra complexidade. A minha grande preocupação, desde a primeira hora, foi salvaguardar as instituições democráticas e garantir a salvaguarda da Polícia Judiciária.
Esperava que António José Seguro tivesse feito o mesmo, ou seja, se tivesse assumido uma posição pública sobre a necessidade de defender os interesses das instituições. Este silêncio de António José Seguro é preocupante?
Vi com atenção as palavras que ontem foram expressas na comunicação social de que o Presidente da República está muito atento a tudo o que se passa no país.
E não lhe merece mais comentários? Não acha que António José Seguro já deveria ter falado ao país?
Cada um tem as suas próprias responsabilidades, as suas próprias atribuições e como é evidente o líder da oposição não se vai pronunciar sobre os termos em que o Presidente da República exerce a sua função e o seu mandato.
Se estivesse nos sapatos de António José Seguro já teria falado ao país?
Não me vejo nesses sapatos. Vejo-me nos sapatos do primeiro-ministro, mas não me vejo nos sapatos do Presidente da República.
“Pergunto se Luís Montenegro tem perfil para comandar Governo”
O Governo tem somado vários problemas, na área da Saúde, na Segurança Social teve uma reforma falhada, está a ter sérios problemas na Educação, com os exames nacionais, e agora tem o terceiro ministro da Administração Interna em apuros. Nesta altura do campeonato, no lugar de Luís Montenegro já teria feito uma remodelação?
Luís Montenegro é o principal responsável por tudo quanto tem vindo a passar. E devolvo-vos a pergunta: é normal ter tantos problemas com tantos ministros?
Pode perguntar a António Costa, que teve vários problemas com muitos ministros no último ano da sua governação, em 2023.
E olhem para o que aconteceu ao Governo de maioria absoluta.
Portanto está a ser acelerado o calendário político, a caminho de umas eleições antecipadas, é isso?
Não é normal falharem tantos membros do Governo. Falharem nas funções de soberania e na gestão de crise — o apagão, com os famosos jerricans, é uma caricatura do Governo, os incêndios de 2025, com a insensibilidade demonstrada na “Festa do Pontal”, quando o país ardia e punha em risco a vida das pessoas e dos seus bens, a gestão da crise das tempestades, a gestão dos próprios exames nacionais, e agora também esta crise na Administração Interna. Isto significa que não há liderança do Governo. Um primeiro-ministro tem o dever de antecipar e contribuir para promover o trabalho em equipa. Aquilo que tenho lido é que há um Governo em dissolução, em anarquia na forma como funciona. E isto ilustra que há uma falta de liderança política do Governo. Quando eu era ministro da Administração Interna, António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa cancelaram uma deslocação a Moçambique para me apoiarem. O primeiro-ministro vai para o Mundial de Futebol. Regressa do Mundial, estamos em plena crise da classificação dos exames e o primeiro-ministro faz uma declaração leviana num festival de música. Pergunto se isto são características do perfil de uma liderança que se exige para comandar um Governo.
Sente que o calendário político está a acelerar?
Sinto que o Governo é a principal fonte da instabilidade política e é triste para o país. Olhar para o Governo e ver que o Governo não faz aquilo que promete e não responde àquilo que são as matérias fundamentais da vida dos cidadãos, o custo de vida, habitação, saúde, economia, salários, educação. Não responde de forma competente.
Perante o quadro que está a traçar, admite que possamos ter eleições antes do tempo?
Quero reiterar o seguinte: o PS será parte responsável para garantir estabilidade política ao país, mas não teme as eleições.
Isso quer dizer o que, exatamente?
Quer dizer que o Partido Socialista se tem vindo a preparar para ser uma alternativa nas várias áreas do desenvolvimento económico, do desenvolvimento social, da modernização do Estado e da qualificação das respostas dos serviços públicos, para responder aos cidadãos.


“Se a AD fizer uma geringonça à direita, morre”
O PS está pronto para ir a votos?
Há um ano que temos equipas diversificadas. O PS é um grande partido que tem capacidade convocatória para servir o país quando os portugueses assim o entenderem. Não é por nós que haverá crise política, mas é evidente que compete ao Governo não ser a principal fonte de instabilidade que o país tem vindo a conhecer. É um triste espetáculo aquilo a que os portugueses assistem com crises consecutivas provocadas pelo próprio Governo, quando o PS já viabilizou dois Orçamentos do Estado, com condições que não impedissem que o Governo possa cumprir os seus propósitos.
Está pronto para ir a votos e vencer essas eleições?
Aquilo que tenho afirmado é: seremos fator de estabilidade, mas não temos medo das eleições. Aliás, chamo a atenção para o seguinte: nos últimos cinco meses, todos os barómetros, das várias empresas, dão o PS à frente em todas as sondagens e o líder do PS como preferido para primeiro-ministro. Não há uma única sondagem que, pelo menos nos últimos três meses, não me dê como preferido para primeiro-ministro. Dir-me-ão: “Bom, mas o PS, ganhando as eleições, como é que forma Governo?” É uma pergunta que se coloca e que é muito legítima. Chamo a atenção é que já começa a haver uma regularidade de estudos que mostram a AD em terceiro lugar. Ora, a AD em terceiro lugar só pode ter uma posição: apoiar o PS a formar governo.
E acredita que o PSD faria isso? Não teria a tentação de fazer uma geringonça à direita com o Chega?
Morre. Se fizer isso, a AD morre. Aquilo que me parece viável, do ponto de vista democrático, é a AD assumir o princípio da reciprocidade política com o PS.
Que foi quebrada pelo PS, aliás, com a geringonça. O PS ficou em segundo e governou à esquerda. Esse princípio foi quebrado com António Costa.
Estou a falar neste ciclo político com Luís Montenegro.
Está a tentar apagar essa memória da “geringonça”.
Não estou aqui para fazer arqueologia, estou aqui para falar do futuro.
Não foi assim há tanto tempo.
Tenho muito orgulho de ter feito parte desse governo, 2015-2019, como secretário de Estado das Comunidades Portuguesas.
Mas agora quer que o PSD apoie o PS se não ficar em primeiro.
Quero notar isto: em todos os indicadores, o governo dos oito anos de Costa compara bem, para melhor, com todos os indicadores desta maioria da AD. Olhe, estávamos a crescer 3% ao ano, quando a AD dizia que o país crescia pouco e que estávamos a ser ultrapassados pelos países de leste; agora, contenta-se a crescer cerca de metade daquilo que crescia na altura. Criámos mais de um milhão de postos de trabalho no país. Fomos capazes de gerir crises — a da Covid, a da inflação por força da guerra da Ucrânia. Peço que coloquem num quadro comparativo os resultados dos governos do PS e os dos governos da AD. Verificarão que estamos muito bem preparados para essa comparação.
Os eleitores fizeram essa avaliação, deram a vitória à AD e reforçaram essa vitória da AD. Há pouco dizia que o PS está preparado, ao mesmo tempo traça um cenário bastante positivo sobre os oito anos de governação do PS. A pergunta que se pode fazer é se houve alguma coisa que correu mal nesses anos que tenha justificado as duas derrotas do Partido Socialista, uma delas por números bastante redondos.
As pessoas votam em função de duas dimensões. Em função das realidades que conhecem e em função das perceções que constroem sobre as realidades. Um dos principais focos de descontentamento tinha que ver com a execução, particularmente nas políticas de habitação. O governo que planeou, que foi buscar recursos financeiros, que lançou os procedimentos a concurso público, que permitiu que as 26 mil casas que agora vão ser dadas como prontas a Bruxelas para cumprimento do PRR, foi trabalho do governo do PS. A reforma que melhor articularia os cuidados primários de saúde com os cuidados hospitalares é a reforma que tem a ver com a implementação das unidades locais de saúde. Está demonstrado, está testado no terreno, com a primeira unidade local de saúde do país, em Matosinhos, no Porto.
Pedro Nuno Santos, quando ainda era líder do PS, deu uma entrevista onde reconheceu que nem tudo tinha corrido bem. Agora, José Luís Carneiro está a dizer que, afinal, correu tudo muito bem.
Para quem tem experiência executiva, como é o meu caso, nem tudo corre como gostaríamos que pudesse correr. Por muitos constrangimentos que se colocam na própria estrutura do Estado, nos próprios instrumentos para a execução das políticas. Por exemplo: tínhamos todos a consciência de que era necessário um ritmo de execução do investimento muito mais célere; mas isso depende de muitos constrangimentos. Por que razão é que o Governo está a alterar o regime da contratação pública e por que razão é que quer alterar também o regime do Tribunal de Contas? Porque compreende agora que há constrangimentos normativos, burocráticos, legislativos, que por vezes atrasam a capacidade da execução. E é por isso que estamos disponíveis para viabilizar algumas dessas mudanças, desde que não se diminuam os mecanismos de controlo e de fiscalização da aplicação de recursos públicos.
“Presidente disse que não haveria drama no chumbo do Orçamento”
Já teve uma reunião com o primeiro-ministro sobre o Orçamento do Estado. Colocou condições, com a revisão constitucional à cabeça. De que tipo de garantia é que precisa, neste ponto concreto, para viabilizar o Orçamento do Estado? Não basta aquilo que Montenegro já disse, de que não está a negociar com o Chega nenhuma revisão constitucional?
Quero garantias objetivas e a palavra pública do primeiro-ministro. Não seria a primeira vez, e eu esperaria que se repetisse, que se afirma uma coisa e que se faz outra. O Governo tem direito às suas opções e depois também é vítima das opções que faz. Ou beneficiado por elas.
No ano passado, o Orçamento do Estado foi muito despolitizado desse ponto de vista. Não está a complicar a negociação, ao trazer para cima da mesa questões que são essencialmente políticas, que não são de todo matérias orçamentais?
Mas são matérias de valores e de princípios. São aquelas que orientam a nossa vida. Se não nos batemos pelos valores e pelos princípios, batemos-nos porquê? Qual é a razão de ser se estamos na vida política? Há valores e há princípios democráticos que têm de ser salvaguardados. A revisão da Constituição deve ser feita nos termos em que os partidos fundadores da democracia entendam que deve ser feita. Não me parece ser exigir muito. Que se cumpram os limites materiais à revisão da Constituição e, em segundo lugar, garantir que qualquer passo que se dê seja acordado entre os partidos fundadores da democracia. Não acordado com quem quer destruir esta República — não sou eu que o digo; André Ventura já o disse várias vezes, que quer pôr em causa esta República, que gostaria de ter três Salazares a governar o país.
Disse que precisava da palavra pública de Luís Montenegro. Ainda não lhe chegou aquilo que Luís Montenegro disse? O que é que quer em particular?
Garantir que a revisão constitucional, a fazer-se, far-se-á sempre nos termos em que sejam acordados entre o PSD e o PS. Outra questão no Orçamento do Estado: a segurança das pensões, nomeadamente do Fundo de Estabilização Financeira das Pensões. Sabemos que há investidas hoje, com caráter europeu, para entrar nos fundos de pensões. Estamos disponíveis para a diversificação das fontes de financiamento, mas não estamos disponíveis para abrir esse fundo de capitalização de pensões aos privados. Queremos garantir que a estrutura de financiamento por parte dos trabalhadores e por parte das entidades empregadoras se mantém.
Não podemos desconsiderar a hipótese de o Orçamento do Estado ser chumbado. Seria um drama para o país entrar em duodécimos?
O Presidente da República afirmou que não haveria drama no facto do Orçamento do Estado ser chumbado. Aliás, contrariamente à abordagem que tinha Marcelo Rebelo de Sousa, António José Seguro afirmou que se chumbar a primeira versão, o Governo pode apresentar uma segunda versão do Orçamento, que obrigará a um diálogo e a uma negociação com os partidos de oposição. Se for chumbada a segunda opção, também há a opção dos duodécimos. Queremos manter em aberto as nossas opções até conhecermos a proposta do Orçamento.
Não é um problema ficar em duodécimos?
O Presidente da República entende que não é problema.
Não haverá drama, portanto?
É evidente que gerir em duodécimos não é o mesmo que gerir com um Orçamento aprovado. E sabemos que o exercício do ano anterior, por exemplo, é insuficiente em relação à área da Saúde. Noutra matéria: o Governo avançou com o PTRR para a recuperação das intempéries em várias regiões do país; há dias o ministro das Finanças disse que havia execução de apenas 18% dos apoios previstos para as áreas afetadas; portanto, como é que o Governo vai responder aos compromissos que assumiu? Vai continuar a falhar aos compromissos que assumiu com os municípios, com as empresas e com as famílias que foram afetadas?
O país em duodécimos poderia provocar ou precipitar uma crise política e eleições? Não terá de pesar isso na sua decisão?
O PS não quer uma crise política. Já disse e tudo fará para contribuir para a estabilidade. Agora, tem de ser uma estabilidade que contribua para o desenvolvimento do país. Não uma estabilidade no vazio. O primeiro-ministro é o primeiro responsável por esta instabilidade. Porque, desde a primeira hora, em detrimento de uma opção estabilizadora da solução governativa, disse que queria planar à esquerda e à direita. Ora, quem quer planar à esquerda e à direita não tem a noção do rumo que quer fazer. Para mim, a maior demonstração de que o primeiro-ministro não tem um rumo para o país, um rumo baseado nos valores, nos princípios fundamentais da nossa vida em sociedade, foi quando teve de tomar a decisão sobre a segunda volta das eleições presidenciais e não tomou posição sobre o campo democrático. Pergunto se o primeiro-ministro quer continuar a sentir-se realizado no exercício do poder pelo poder. O poder deve servir para reformar o Estado, para reformar a sociedade, para transformar a economia.
Se estiver no lugar de Luís Montenegro, o seu rumo é planar à direita.
Não, o meu rumo é eu representar todos os democratas.
Mas diz que Luís Montenegro está sem rumo porque vai planando à direita e à esquerda. Se chegar a primeiro-ministro, vai planar à direita.
O PS é um partido do centro-esquerda.
Que já fez uma “geringonça”.
Já disse que não havia coligações, nem acordos e que a minha única coligação é com os portugueses.
Portanto, vai planar à direita e à esquerda.
Não, o que significa é que o PS tem condições para formar governo no futuro, desde que o PSD assuma com o PS aquilo que o PS tem assumido com o PSD, desde logo viabilizando-lhe dois Orçamentos e criando condições de governação.
“Sem esclarecimentos, avançaremos com comissão de inquérito na Educação”
Sobre a questão da Educação e dos exames nacionais. A segunda fase já arrancou e os professores classificadores têm reportado erros iguais aos da primeira fase. Já teve alguma resposta do governo à extensa lista de perguntas que enviou sobre este assunto ou pelo menos uma garantia de que isso vai acontecer a tempo de evitar uma comissão parlamentar de inquérito?
Não, não tivemos respostas. A propósito das falhas nesta segunda fase, vamos chamar o ministro ao Parlamento e espero que possa explicar tudo quanto não explicou nas duas idas ao Parlamento. Se até ao princípio de setembro não tivermos respostas, que sejam respostas claras, inequívocas, sobre os vários níveis de responsabilidade e sobre as decisões tomadas, avançaremos com uma comissão de inquérito.
Há alguma possibilidade de Luís Montenegro o convencer a não avançar com mais uma comissão parlamentar de inquérito?
Se houver todos os esclarecimentos que exigimos. Se assim não for, poderá haver necessidade de adotarmos a comissão de inquérito.
Uma última questão: se Luís Montenegro apresentasse uma moção de confiança neste momento, o PS votaria a favor ou contra?
Não gosto de fazer especulação. Gosto de agir e tomar decisões nos momentos oportunos. Deixem-me dar esta nota: temos já uma matriz para uma nova política económica para o país, para a modernização das funções sociais do Estado, para a modernização do Estado, para afirmarmos um país mais competitivo e que seja capaz de produzir as condições para darmos uma vida mais digna e mais decente a quem quer realizar a sua vida no país. Essa proposta está a ser desenvolvida, a ser aperfeiçoada, e o PS tem já os elementos constitutivos essenciais.

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