O castelo de cartas começou a ruir ainda esta quinta-feira e o dia seguinte arrancou com o desabar de mais um dos alicerces. Carlos Cordeiro, conselheiro sénior de Gianni Infantino e verdadeiro braço direito do presidente da FIFA, demitiu-se na sequência do anunciado plano de vender participações do Campeonato do Mundo e restantes competições do organismo a investidores privados.
Carlos Cordeiro, norte-americano descendente de portugueses pelo lado paterno, desempenhava as funções de conselheiro sénior de Gianni Infantino há quase cinco anos. Foi presidente da US Soccer, cargo de onde se demitiu devido a questões relacionadas com a seleção feminina dos EUA, e entrou na FIFA em 2021 como conselheiro sénior para a estratégia global e governança, subindo depois a conselheiro sénior do próprio presidente. Em maio do ano passado, foi escolhido por Donald Trump para ser o conselheiro sénior da taskforce da Casa Branca para a organização do Mundial 2026 que agora decorreu.
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Num longo comunicado, Carlos Cordeiro afastou-se por completo do plano de Gianni Infantino e explicou os motivos da demissão. “Não posso manter-me impávido enquanto a FIFA considera vender uma parte do Mundial. Deixem-me ser claro: não tive qualquer envolvimento nesta proposta e oponho-me inequivocamente à mesma. É um mau negócio para as federações-membro da FIFA, um mau negócio para o futebol e um mau negócio para o futuro a longo prazo da modalidade”, começou por referir.
“O futebol tem sido central na minha vida e, depois de mais de 35 anos na banca, percebi tanto o valor deste ativo como as consequências de abrir mão de parte dele. É por isso que esta proposta deve ser rejeitada. A FIFA já tem acesso a recursos financeiros extraordinários. A organização detém milhares de milhões em reservas e nenhuma dívida. O próprio presidente da FIFA enalteceu os 15 mil milhões de dólares em receitas geradas entre 2022 e 2026. Se as federações-membro acreditam que é necessário um investimento adicional para desenvolver a modalidade, a FIFA já tem a capacidade financeira para dar esse apoio a partir dos seus recursos existentes”, continuou.
Mais à frente, Carlos Cordeiro esvazia por completo as intenções do presidente da FIFA. “Contra esse cenário, vender uma parte permanente do maior ativo do futebol para angariar 4,2 mil milhões de dólares faz pouco sentido. Seria hipotecar o futuro do futebol sem qualquer justificação convincente. Tamanho sucesso económico não foi acidental. Surgiu de profissionais de futebol experientes, que estilhaçaram os recordes comerciais da FIFA. No entanto, apesar desses feitos, é pedido agora à FIFA que acredite que investidores de fora são necessários para desbloquear mais-valias”, explicou.
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“As pessoas que construíram este sucesso já demonstraram que a FIFA possui a experiência para continuar a fazer crescer tanto a modalidade como o seu futuro comercial. O mais preocupante de tudo é a ausência de respostas a questões fundamentais. Porquê este acordo? Porquê agora? Que supervisão existe? Quem beneficia? Houve um processo competitivo? Que governação estará em curso? O que irão os investidores ganhar, no final, e a que custo para o futebol?”, questionou, lembrando que “está a ser pedido às federações-membro que tomem uma decisão de enormes consequências em menos de 50 dias ou arrisquem ser deixadas para trás”, algo que considera não ser “uma maneira responsável de determinar o futuro do futebol mundial”, até por se tratar de “uma questão que definirá o futuro” da própria FIFA.
“Após cuidadosa consideração, não posso mais continuar o meu papel enquanto conselheiro sénior do presidente da FIFA. Demiti-me nesse sentido, com efeitos imediatos. A responsabilidade da FIFA não é maximizar os retornos financeiros a qualquer custo. É proteger e fortalecer o futebol para gerações futuras. Quando esses princípios entram em conflito, o futebol deve vir em primeiro lugar. Foi o privilégio de uma vida servir a FIFA por mais de cinco anos e trabalhar ao lado de pessoas dedicadas, com princípios, que se preocupam profundamente com a modalidade. Espero que também elas falem, porque decisões desta magnitude deveriam ser tomadas com base nos interesses do futebol e não daqueles que pretendem lucrar com ele”, terminou.
De recordar que, esta quinta-feira, a UEFA anunciou que planeia boicotar todas as competições da FIFA se o plano seguir em frente, com a CONCACAF (América do Norte, América Central e Caraíbas) e a AFC (Ásia e Austrália) a declararem-se oficialmente contra a proposta de Gianni Infantino. A CAF (África) e a OFC (Oceânia) ainda não se posicionaram, adiando a decisão para agosto.
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A proposta precisa da maioria dos votos das federações-membro para ser aprovada: ou seja, pelo menos 106 dos 211 países que fazem parte da FIFA têm de votar a favor. Nessa matemática, a UEFA tem 55 votos, a CONCACAF tem 35 e a AFC tem 46, o que significa que, teoricamente, já existem 136 votos contra Gianni Infantino.
Também esta quinta-feira, o jornal The Guardian teve acesso ao plano que a FIFA apresentou a todos os membros para aprovar a venda dos direitos comerciais do Campeonato do Mundo. Ao longo de 25 páginas, o documento “FIFA Forward Enterprise Member Materials” deixa bem claro que o caminho para atingir maior crescimento financeiro passa por mais competições, bilhetes mais caros e o financiamento de dívida.
O documento foi feito pelo JP Morgan, o banco que está a apoiar o plano de Gianni Infantino — e que também já tinha apoiado a falhada Superliga Europeia há alguns anos. Para além do prémio de assinatura de 20 milhões de dólares para cada país que ratificar o plano, um valor que pode ficar disponível já em janeiro, a FIFA indica ainda que cada membro pode chegar a receber 24 milhões de dólares no quadriénio 2035-2039.
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A JP Morgan deixa bem claro que o crescimento financeiro terá como sustento um “maior portfólio de competições”, “financiamento de dívida e fontes de capital externas” e ainda a prioridade dada a eventos e parcerias high yield, de alto rendimento — existindo mesmo uma referência à intenção de duplicar as competições anuais no mundo inteiro, de 200 para 450, para além da possibilidade sempre existente de realizar o Campeonato do Mundo de dois em dois anos, ao invés de quatro em quatro.
O documento abre ainda a porta à hipótese de a transmissão oficial do Campeonato do Mundo e de outras competições ser vendida a canais por subscrição ou streamers, num plano para “expandir e otimizar a monetização dos direitos de media”. As tais 25 páginas foram enviadas a todos os 211 membros da FIFA nesta quarta-feira à noite, algo que terá levado à reação forte e inédita desta quinta-feira.
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Já esta sexta-feira, numa clara resposta ao boicote anunciado pela UEFA, a FIFA defendeu que não pretende “vender o futebol” e explicou detalhadamente o objetivo do plano. “A FFE [FIFA Forward Enterprise] foi proposta com o único objetivo de garantir que todas as federações-membro da FIFA tenham a possibilidade de assumir um controlo significativo das oportunidades comerciais relacionadas com o futebol nos seus respetivos países, sem que isso afete o espírito ou a governação da FIFA ou do próprio futebol. Todos têm o direito de expressar a sua oposição e de solicitar esclarecimentos adicionais, mas nenhuma entidade pode afirmar que representa as 211 federações-membro de todo o mundo. Deve ser permitido que cada federação-membro analise a proposta e possa opinar sobre como configurar o seu próprio futuro. Estes são os princípios democráticos da FIFA”, pode ler-se.
“Ninguém está a vender o futebol. Isso não é algo que a FIFA alguma vez considerasse. A participação seria totalmente voluntária, caso a proposta da FFE avance, e seria financiada por investimento externo, sem qualquer cedência de controlo ou alteração da estrutura de governação da FIFA. Sem o apoio da maioria das associações-membro, as atividades comerciais da FIFA permanecerão inalteradas. A FFE não será criada”, garante o comunicado.