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(A) :: "Três centímetros ao lado e estaria morto". Enfermeiro caminha com bastão atravessado no corpo durante 16 km e seis horas e meia

"Três centímetros ao lado e estaria morto". Enfermeiro caminha com bastão atravessado no corpo durante 16 km e seis horas e meia

Estava quase no topo quando caiu. Levantou-se sem dores, sem sangue. Mas tinha um bastão atravessado no corpo. Caminhou seis horas e meia, 16 km, de pedras e neve, até se ver livre do objeto.

Cláudia Nobre
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“Algo não estava certo”. David Cifaldi não percebeu logo o que lhe estava a acontecer. O enfermeiro de 32 anos acabara de dar uma queda e tudo o que sabia é que lhe faltava um dos dois bastões de apoio. Nem por um momento pensou que o tinha no próprio corpo.

David Cifaldi e dois amigos, Brad Reich e Jesse Ross, escalavam o Granite’s Peak — a montanha mais alta do estado norte-americano do Montana —, a 20 de julho, há 7 horas quando, já perto do cume, o enfermeiro escorregou e caiu.

Um dos seus bastões estava lá, mas o outro não parecia estar em lado nenhum. David virou-se: “Ah, esta coisa está a sair de mim”. O bastão desaparecido tinha-lhe perfurado a lateral do corpo, abaixo do braço esquerdo, atravessando a zona lombar. Por pouco não atingira órgãos vitais.

https://twitter.com/washingtonpost/status/2083493092989055361

“Conseguia sentir o bastão de caminhada através da minha pele”, contou mais tarde. Continuava sem dor e sem sangrar. “Eu sabia que a ferida não era funda e que conseguia inspirar profundamente”, disse o enfermeiro, que estava na altura a apenas três quilómetros de atingir o objetivo: o topo da montanha.

Os três amigos tinham dado início à caminhada às 2h da manhã, uma vez que planeavam acampar no “Froze-to-Death Plateau”, planalto com cerca de 3.000 metros de altitude, habitualmente contornado para se chegar ao Granite’s Peak, com 3.500 metros de altitude.

https://twitter.com/VortexReportX/status/2082771404361990423

Cifaldi já tinha chegado à zona do planalto várias vezes, mas nunca ao cume. David e Brad Reich tiveram de ser guiados por Jesse Ross, que já tinha alcançado o cimo com sucesso. Os três amigos conseguiram alcançar o planalto ao nascer do sol.

David escorregou numa altura em que tudo parecia perfeito, em que o cume estava cada vez mais próximo e a temperatura era a ideal.

Enquanto um amigo enviava um sinal de SOS assinalando a localização exata, o outro tirava fotografias à ferida para que Cifaldi a pudesse avaliar. “Tinha bastante certeza de que não era no meu peito ou no meu pulmão”, disse o enfermeiro, segundo o The New York Times.

A sua experiência evitou o pânico e ajudou-o a decidir não esperar pela ajuda. “Avaliou o próprio estado com calma: sem hemorragias, com sensibilidade total, sem tonturas, nenhum órgão vital atingido e o bastão estável no sítio”, descreveu mais tarde Jesse Ross na campanha de angariação de fundos que criaram no GoFundMe (plataforma de doações), para ajudar a cobrir as despesas hospitalares e outros danos materiais.

“Acho que a minha formação de enfermeiro despertou”, disse mais tarde numa entrevista à emissora Local 12, de Montana. “Assim que me consegui autoavaliar e constatar que não havia risco de vida naquele momento, fiquei bastante convencido de que conseguiria descer daquela montanha por conta própria”, acrescentou.

E assim foi. Durante seis horas e meia regressou ao ponto de partida com os dois amigos, sem nunca se queixar do que quer que fosse, relatou Jesse Ross no GoFundMe. Só tinha uma preocupação. Que as crianças que encontrassem não o vissem pelo caminho e o pudessem ver naquele estado. “Ele fez-nos avançar e avisar as pessoas para que as crianças pequenas não vissem um ferimento tão horrível”, disse Ross à KTVQ, televisão afiliada da CBS.

Depois de cerca de 16 quilómetros a atravessar campos de pedras, trechos de neve e apenas fazendo pausas de tempos a tempos, os amigos chegaram finalmente ao início do trilho por volta das 15h30.

Cifaldi foi levado numa ambulância para uma unidade de saúde local antes de ser conduzido pelos amigos durante duas horas para o hospital Intermountain Health em Billings, o seu local de trabalho, sendo assistido no seu próprio serviço — o de tratamento de feridas.

“Sinto-me muito sortudo” porque mesmo depois do assustador acidente, “tenho dois amigos inabaláveis que nunca vacilaram”, agradeceu.

Quando chegaram ao hospital que lhe é familiar, o enfermeiro de 32 anos já tinha o bastão de escalada no corpo há sete horas. Os médicos fizeram-lhe radiografias e análises ao sangue e concluíram que o melhor era ser sujeito a uma cirurgia. Problema: tinha de esperar ainda duas horas.

E David já estava há muito tempo com aquele objeto estranho espetado debaixo do braço. “Eu só pensava: ‘por favor, alguém que me tire isto’”. Insistiu e viu os médicos atenderem ao seu pedido. Com anestesia local e um dreno na zona, retiraram o bastão.

Cifaldi sentia-se bem para regressar no dia seguinte ao trabalho. Mas a alta hospitalar só chegou sete dias depois, a 27 de julho. Voltou então meio dorido para o serviço, com a certeza de que precisava de ajuda profissional para processar o que lhe tinha acontecido, recorda o The New York Times. “Três centímetros ao lado e estaria morto, ou pelo menos em grave perigo”, sublinhou. Por isso, acabou por pedir ajuda a um terapeuta.

Triste porque os amigos não conseguiram chegar ao cume naquele dia, David Cifaldi não desistiu. E planeia subir a montanha, com os dois amigos, no próximo ano.

Texto editado por Dulce Neto

[Os serviços secretos portugueses enfrentam uma crise de segurança sem precedentes: existe uma toupeira infiltrada no SIS. A suspeita é de que esteja a vender segredos da NATO à Rússia de Putin. E a confirmação final vai ser feita pelas secretas norte-americanas: a CIA traz o nome de um dos espiões mais antigos do serviço. Já estreou “A Vida Dupla do Espião Traidor”, o novo Podcast Plus do Observador. Pode ouvir o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]