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Carneiro disposto a segurar Governo no Orçamento e em possíveis moções. Mas de olho numa próxima crise

Mesmo com minis-crises no Governo a avolumarem-se, PS faz plano para ano político sem sobressaltos. Consciente de que o tempo político raramente segue guiões, Carneiro não quer contribuir para crise.

Rita Tavares
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O frenesim político do último mês esvaziou parte da “paciência” que José Luís Carneiro tem pedido aos socialistas para conter eventuais tentações de precipitar uma crise política e obrigou o próprio secretário-geral do PS a adaptar o discurso. Na última semana, antecipando um acelerar de ciclo político, o líder socialista viu-se na necessidade de avisar que o partido nunca será fator de instabilidade, mas “não teme eleições”. Mas esse é o plano de contingência — no topo do partido prepara-se a rentrée política admitindo a viabilização do Orçamento do Estado para 2027 e com uma posição definida perante eventuais moções destinadas a derrubar o Governo: votar contra.

A convicção de José Luís Carneiro é de que o PS ainda precisa de, pelo menos, mais um ano para consolidar a sua proposta política junto dos eleitores que se afastaram do partido. Ao mesmo tempo, o líder socialista acredita que é preciso ter cautela para nunca ficar com o ónus de ter desencadeado uma crise política — como, em grande medida, aconteceu com o seu antecessor Pedro Nuno Santos. Por isso, e mesmo que o último mês tenha juntado mais dois ministros à lista daqueles que os socialistas classificam como demasiado fragilizados para continuarem no Governo, o caminho preferido pelos socialistas continua a ser o do desgaste prolongado no tempo.

No fundo, deixar o Governo de Luís Montenegro ser vítima do acumular de “casos e casinhos” — expressão que se colou à pele da governação de António Costa, sobretudo na sua fase final. De resto, em entrevista ao Observador, publicada na sexta-feira, o líder socialista aludia ao “triste espetáculo das crises sucessivas provocadas pelo próprio Governo” e fazia uma referência precisamente ao fim de ciclo de Costa — executivo de que fazia parte na qualidade de ministro da Administração Interna: “Olhem para o que aconteceu ao Governo de maioria absoluta.”

Ao mesmo tempo, os socialistas procuram preservar a imagem de responsabilidade e evitam ser apontados como autores morais da queda do Governo. Na direção do partido continua a recordar-se, aliás, a “esparrela em que caiu Pedro Nuno Santos”, quando, depois de duas moções de censura rejeitadas, Luís Montenegro apresentou uma moção de confiança que foi rejeitada pelo PS, provocando eleições — nessas legislativas, em 2025, o PS teve o terceiro pior resultado da sua história, ficou com menos dois deputados do que o Chega e passou a terceira força parlamentar.

Esse erro, seguramente, não será cometido. Há um par de semanas, Miguel Relvas, citando vozes da “área governamental”, sugeriu que o Governo poderia apresentar uma moção de confiança — tese que elementos do Executivo acabariam por desmentir em toda a linha. A alternativa — haver um partido da oposição a apresentar uma moção de censura para derrubar o Governo — também não terá o acolhimento por parte do PS.

Mesmo com alguma prudência e, sobretudo, a contragosto, o PS não só se vai animando com as sondagens positivas que vai acumulando, como já pensa na forma de condicionar o PSD a aceitar um governo socialista minoritário. “Nos últimos cinco meses, todos os barómetros, das várias empresas, dão o PS à frente em todas as sondagens e o líder do PS como preferido para primeiro-ministro. Não há uma única sondagem que, pelo menos nos últimos três meses, não me dê como preferido para primeiro-ministro. Dir-me-ão: ‘Bom, mas o PS, ganhando as eleições, como é que forma Governo?’ Chamo a atenção é que já começa a haver uma regularidade de estudos que mostram a AD em terceiro lugar. Ora, a AD em terceiro lugar só pode ter uma posição: apoiar o PS a formar governo. Caso contrário, morre“, foi argumentando José Luís Carneiro, na já citada entrevista ao Observador.

No entanto, e a menos que algo de muito extraordinário venha a acontecer, José Luís Carneiro nada fará para colocar em causa a estabilidade do país e provocar uma “crise política“, até porque isso não ajudaria aos planos mais imediatos do partido, que precisa de tempo para se reorganizar e reaproximar dos eleitores. Com um grande ‘se’ pelo meio: “O PS tudo fará para contribuir para a estabilidade. Agora, tem de ser uma estabilidade que contribua para o desenvolvimento do país. Não uma estabilidade no vazio”, defendeu-se Carneiro. A janela fica, pelo menos, entreaberta.

Na direção do partido continua a recordar-se a "esparrela em que caiu Pedro Nuno Santos", quando, depois de duas moções de censura rejeitadas, Luís Montenegro apresentou uma moção de confiança que foi rejeitada pelo PS, provocando eleições — nessas legislativas, em 2025, o PS teve o terceiro pior resultado da sua história, ficou com menos dois deputados do que o Chega e passou a terceira força parlamentar

Socialistas esperam Seguro vigilante e interventivo

A primeira prova acontece já depois do verão, no Orçamento do Estado para 2027, documento que já começou a negociar com Luís Montenegro. Em cima da mesa, o líder socialista colocou várias condições para viabilizar o Orçamento, como a garantia de que a AD só avança com uma revisão constitucional com o PS como parceiro privilegiado. Aliás, segundo Carneiro, o primeiro-ministro terá de deixar uma garantia pública de que não dará a mão ao Chega nesta matéria. “Há valores e há princípios democráticos que têm de ser salvaguardados. A revisão da Constituição deve ser feita nos termos em que os partidos fundadores da democracia entendam que deve ser feita.” Por outras palavras: ou o Chega é posto de fora ou nada feito.

O líder socialista não ignora que o tema tem várias arestas e um potencial divisivo dentro do próprio PSD, o que pode complicar a posição de Luís Montenegro. Mas José Luís Carneiro não está disposto a abrir mão da condição que definiu: precisa de uma “palavra pública” do primeiro-ministro a dar a garantia de que não conta com o Chega nesta matéria para lhe desbloquear o Orçamento do próximo ano. Até ver, Montenegro limitou-se a dizer, no debate do Estado da Nação, que não estava a negociar uma revisão constitucional com o Chega, ainda que tenha acordado com o partido de Ventura adiar essa discussão para o próximo ano, e, com isso, ganhado tempo. Para os socialistas, isso não chega.

Socialistas esperam Seguro vigilante e interventivo

No PS, existe a expectativa de que o Presidente da República venha a dar um contributo decisivo nesse processo de convencimento do primeiro-ministro, afastando Luís Montenegro dos braços de André Ventura. Afinal, António José Seguro passou toda uma campanha apoiado na ideia de ser ele o “único candidato da moderação, da credibilidade, do centro-esquerda, um defensor leal da Constituição”. Resta saber se Seguro será tão assertivo como foi na corrida a Belém.

Na segunda volta das eleições, quando teve como adversário único André Ventura, e enquanto o líder do Chega defendia uma revisão constitucional que fosse além do reforço dos poderes presidenciais, António José Seguro não só defendeu que não fazia “sentido absolutamente nenhum” mexer nesses poderes, como argumentou que “não há necessidade de rever a Constituição” em termos mais latos.

De qualquer forma, o ponto de partida do PS para esta negociação é o da viabilização do Orçamento pela abstenção, mesmo sabendo que em Belém já não está um inquilino que obrigue a essa saída. António José Seguro nunca fez a ligação direta — que Marcelo Rebelo de Sousa consagrou — entre o chumbo de um orçamento e a dissolução da Assembleia da República, com consequente convocação de eleições antecipadas. Pelo contrário: o Presidente da República disse repetidamente que um chumbo orçamental não deve ter como consequência direta a ida do país a eleições.

José Luís Carneiro tem sublinhado isso mesmo. Na mesma entrevista ao Observador, o líder socialista recuperou as palavras do Presidente da República: “António José Seguro já afirmou que se [o Parlamento] chumbar a primeira versão do Orçamento, o Governo pode apresentar uma segunda versão, que obrigará a um diálogo e a uma negociação com os partidos de oposição”. No limite, relativizou sempre o líder socialista, “se for chumbada a segunda opção, também há a opção dos duodécimos“.

Mesmo tendo como plano A a viabilização do próximo Orçamento do Estado via abstenção, José Luís Carneiro vai tentando retirar algum “drama” à questão dos duodécimos, de maneira a ganhar alguma margem de manobra para, se for obrigado a isso, chumbar o documento. Apesar de tudo, os sinais, para já, são mais positivos: o facto de Montenegro já ter reunido com Carneiro a propósito do Orçamento, e não o ter feito com o líder do Chega, é um sinal importante para a relação entre os dois líderes.

A gestão deste período negocial tem sido sempre feita por Montenegro de forma a equilibrar os pratos, procurando colocar os dois partidos de quem precisa — PS e Chega — num plano semelhante. Mas, na direção do PS, existe a sensação de que o ambiente pode ter desanuviado desde o chumbo da reforma laboral, com o Chega a mudar de posição à última hora, e depois do entendimento que, dias depois, o Governo conseguiu fazer, sem carga dramática, com o PS para a aprovação da nova Prestação Social Única. Esses dois momentos, anteriores às crises na Educação e na Administração Interna, desbloquearam alguns canais de comunicação.

A rentrée socialista está marcada para o dia 16 de agosto, num arraial popular em Olhão. Depois disso, entre os dias 25 e 28 do mesmo mês, José Luís Carneiro partirá numa “rota pelo interior e pela cooperação transfronteiriça”, que vai passar por concelhos do interior e com ligação e fronteira com Espanha. Parte para o ano político com o roteiro pensado para um cenário dentro do previsto: viabilizar o Orçamento, desgastar o Governo, segurar a Constituição e evitar nova crise política. Mas também com a certeza de que o tempo político raramente obedece a todos os planos.

https://observador.pt/especiais/jose-luis-carneiro-ps-sera-parte-responsavel-para-garantir-estabilidade-politica-mas-nao-teme-as-eleicoes/

[A investigação ao espião português suspeito de vender segredos à Rússia é inesperadamente confrontada com uma vida dupla. Tem relações com várias mulheres do leste, é frequentador de bares de alterne e striptease e é ainda presença habitual em reuniões da maçonaria. Ao mesmo tempo, os serviços secretos norte-americanos querem montar uma armadilha à “toupeira” no interior do SIS.  Já pode ouvir o segundo episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor” no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]