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(A) :: O empoderado

O empoderado

Fontes governamentais explicaram à imprensa que só a “bolha” se interessa por “casos”. O “povo” não quer saber. Mas o “povo” cínico e indiferente não será, afinal, mais uma fantasia da “bolha”?

Rui Ramos
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Que dizer do segundo encontro de Luís Neves com a imprensa? O tom evoluiu entre o equívoco e o surreal. Houve, por exemplo, um tanque que decidiu, à revelia do proprietário, transformar-se em piscina. Desta vez, Luís Neves apresentou-se como uma espécie de Dirty Harry: andou a “caçar bandidos”. Foi assim que desvalorizou as suas informalidades. Para Neves, estar do “lado do bem” desculpa qualquer irregularidade, incumprimento ou imprudência. Como se sente? “Legitimado e empoderado”.

Não, esta não é a mentalidade que convém a um polícia num Estado de direito. Num Estado de direito, a justiça depende da aplicação da lei, e não da fúria de um qualquer vigilante. O policiamento precisa naturalmente de ser flexível e expedito. Mas uma polícia informal e imprudente pode comprometer o trabalho judicial, e acabar por beneficiar os criminosos. Foi o que se receou que pudesse acontecer no caso do atrelado da droga.

Acima de tudo, esta também não é a mentalidade que convém a um ministro numa democracia. Numa democracia, nenhuma missão dá a um governante o poder para se colocar acima de leis, de procedimentos e de escrutínios. Nas suas exposições, Luís Neves pareceu por vezes ter vindo de um faroeste imaginário. Não é aí que os ministros devem ser recrutados. Um governante sem noção dos limites e das responsabilidades justifica toda a preocupação dos cidadãos.

Luís Neves pôs em causa a credibilidade da PJ e põe em causa a confiança no governo. Mas diz que está descansado. O governo fez constar na imprensa que também está. Fontes governamentais explicaram que só a “bolha” se interessa por “casos”. O povo não quer saber, como o caso Spinumviva teria demonstrado: depois de tanto escândalo, Luís Montenegro ganhou as eleições. É mesmo essa a lição da Spinumviva? Talvez não seja. Nas eleições de Maio de 2025, a AD de Luís Montenegro, em tempo de bonança financeira e depois de o país ter constatado o fracasso e a incapacidade do PS, não foi além de 31,8% dos votos. Se quiserem interpretar este resultado, comparem-no com o da mesma coligação PSD-CDS, sob a direcção de Pedro Passos Coelho, nas eleições de Outubro de 2015. O país saía do mais duro ajustamento dos últimos 40 anos. A coligação teve então 38,6% dos votos. Em 2025, havia o Chega, claro. Mas as dúvidas sobre a Spinumviva não tiveram nada a ver com a contenção do voto na AD? O “povo” cínico e indiferente não será, afinal, mais uma fantasia da “bolha”?

Correm muitas teorias sobre a resiliência de Luís Neves. Algumas são teorias da conspiração. Talvez não sejam necessárias. O que está à mostra bastará para compreender. A Spinumviva condicionou o governo, suspenso durante meses de uma decisão do Ministério Público, e continua a condicioná-lo. O caso da Spinumviva e o caso Luís Neves não são iguais, mas o comportamento dos visados é parecido. Não seria de admirar que Luís Montenegro não se sentisse à vontade para castigar um ministro por causa de explicações relutantes, tardias e pouco convincentes, quando ele próprio demorou a esclarecer dúvidas e a apresentar documentos.

O modo como o governo optou, à maneira de Macron, por oscilar entre a esquerda e a direita, explicará o resto. Luís Neves tem os seus mais acérrimos defensores no PS. Consideram-no a única barreira ao Chega, e iriam certamente deplorar a sua demissão como o sinal de que o “fascismo” absorvera a governação. Talvez Luís Neves, por isso, pareça indispensável ao governo para as negociações do orçamento de Estado. Se for assim, o “empoderamento” de Luís Neves dá-nos a medida da fraqueza deste governo.