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(A) :: O desaparecimento dos Pirilampos 

O desaparecimento dos Pirilampos 

É o medo do declínio que nos está a atrair para o vazio. Como Pasolini, quanto mais apontamos para o desaparecimento, mais próximos estamos do fim.

P. João Basto
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A 1 de fevereiro de 1975, Pier Paolo Pasolini publicava um artigo no Corriere della Sera intitulado “O vazio do poder em Itália”. Nele, Pasolini afirmava que, no início dos anos sessenta, por causa da poluição do ar e sobretudo da água, os pirilampos começaram a desaparecer do campo italiano. No texto do multifacetado artista italiano, o pequeno inseto luminoso era a chave interpretativa de todo um mundo que se eclipsara. A nova sociedade de consumo, trazida pelo boom económico, provocara uma verdadeira mutação antropológica, um “genocídio” das culturas populares e uma homogeneização hedonista. Pasolini chegava mesmo a concluir que o consumismo era o “verdadeiro fascismo”, ainda mais totalitário por penetrar os corpos, os gestos e os desejos.

Anos mais tarde, numa viagem por Itália, e vendo pirilampos onde antes Pasolini havia negado a sua existência, o francês Didi-Huberman acusa-o de ter cometido, no seu desespero final, uma confusão. Ofuscado pela luz “feroz, fixa e ofuscante dos holofotes”, Pasolini teria perdido a capacidade de captar a luz “pequena, humilde, intermitente e móvel dos pirilampos”. Os pirilampos não se tinham extinguido. Era Pasolini que, a partir desse seu próprio deslumbramento, se tornara incapaz de os ver. Por isso, para que tal capacidade voltasse, era preciso mudar de posição, afastar-se da luz maior, entrar no escuro, nos intervalos, e reeducar o olhar para os lampejos fugazes.

Até aqui, por honestidade intelectual, devo dizer que roubei uma ideia a um conferencista amigo que ouvi na semana passada. (Obrigado, Manuel.) Mas esta disparidade entre Pasolini e Didi-Huberman permite perguntar se não vivemos, cultural e mediaticamente, sob a mesma confusão de que Pasolini foi vítima. O mundo tem falta de imaginação. A ideia de que o Ocidente está em decadência é mais resultado de uma decadência da imaginação do que de uma destruição da memória. Ofuscados pelas luzes do presentíssimo, temos diagnosticado que, também hoje, já não existem pirilampos. Mas não será que uma parte dessa ausência se deve a um modo de ver desgarrado e egocêntrico?

Afinal de contas, o planeta não parece estar assim tão mau. E eu próprio me confesso pecador que, no ensino básico, fiz cartazes a anunciar que, em 2025, já não haveria água potável nem camada de ozono. Os números, no entanto, desmentem o catastrofismo com uma serenidade quase insolente: a esperança média de vida global mais do que duplicou num século, e subiu em todas as regiões do planeta; a mortalidade infantil desabou 60% desde 1990; a pobreza extrema, que aprisionava seis em cada dez seres humanos em 1950, encolheu para cerca de um em dez, com o número absoluto de pobres a cair de 2,3 mil milhões em 1990 para 831 milhões; e a alfabetização passou de um em cada dez adultos, em 1820, para 87%. Um dia ainda diremos: éramos felizes e não sabíamos.

Contudo, este sucesso global parece hoje mostrar o seu revés. Por um lado, é possível dizer-se que crescimento económico e desenvolvimento social não se traduzem, necessariamente, em vidas individuais e coletivas com sentido e propósito. Por outro, é inegável que a incapacidade de repensar o Estado social, em tempos de crise, coloca este panorama favorável em risco. Mas há mais um problema. Aquilo que é visível nas estatísticas do macrotempo da História não é sentido no quotidiano dos cidadãos. A par disso, o desenvolvimento do Estado-providência tornou-nos contraditórios: estamos mais satisfeitos, mas ao mesmo tempo mais exigentes e, muitas vezes, mais perdidos.

Por motivos facilmente explicáveis, é comum estar em funerais e em “bodas de ouro”. No caso das “bodas de ouro”, é frequente os netos, que vivem em condições económicas imensamente mais favoráveis do que qualquer outra geração da família, dizerem que os avôs têm “um amor que já não se vê”. No caso dos funerais, e em especial quando falamos de alguém idoso e com uma grande família, é normal ouvir falar de pequenos gestos de hospitalidade que não são compatíveis com a eficiência da vida atual. Para lá das emoções do momento, o diagnóstico é claro: vivemos mais saciados, mas, ao mesmo tempo, mais cheios de fome. Na nossa imaginação, os nossos avós viveram vidas mais precárias, mas, simultaneamente, mais plenas.

Pode ter acontecido. Mas se tudo isto é verdade, não é falso concluir: é o medo do declínio que nos está a atrair para o vazio. Como Pasolini, quanto mais apontamos para o desaparecimento, mais próximos estamos do fim ou, pelo menos, menos sensíveis estamos aos recomeços. Como Pasolini, falamos de queda e fracasso, mas somos nós quem cultivamos essa mesma queda e fracasso, por sermos incapazes de lidar com a noite. Achamos que somos tão maduros e adultos e, afinal, temos medo do escuro.