O avião estava prestes a aterrar na capital iemenita, Sanaa, quando a pista começou a ser bombardeada, obrigando ao desvio do voo para a cidade portuária de Hodeidah. A bordo da aeronave, seguia um grupo de líderes houthis, de regresso ao Iémen vindos de Teerão, onde tinham estado para as cerimónias fúnebres do aiatola Ali Khamenei, no início de julho. Mas a visita dos houthis ao Irão não serviu apenas para prestar homenagem. Na agenda, estiveram também reuniões com o regime iraniano para desenhar um plano agora tornado público: o do controlo do mar Vermelho.
Uma semana depois do ataque, no dia 20 de julho, os houthis anunciaram um bloqueio naval à Arábia Saudita no mar Vermelho. O grupo alinhado com o Irão identificou o ataque contra o avião — reivindicado pelo governo iemenita reconhecido internacionalmente e apoiado por Riade — como um exemplo do “cerco” que acusam os sauditas de impor ao Iémen. Nos últimos dias, os acontecimentos precipitaram-se, com os houthis a bombardear uma série de petroleiros e infraestruturas petrolíferas sauditas.
Em resposta, a Arábia Saudita retaliou: primeiro com ataques contra Hodeidah, o maior porto controlado pelos Houthis, e, esta terça-feira, com ataques aéreos, em conjunto com os Estados Unidos contra o Iraque. Os ataques — que mataram pelo menos 20 pessoas, entre combatentes iraquianos e responsáveis iranianos que asseguram a ligação entre as Forças de Mobilização Popular (PMF) e Teerão — foram os primeiros abertamente reivindicados por Riade. A Arábia Saudita já tinha lançado ataques contra o Irão nas primeiras semanas da guerra, mas foram ataques cirúrgicos e secretos.

Pelo contrário, o ataque desta terça-feira foi uma intervenção mais afirmativa no conflito que afeta todo o Médio Oriente. A entrada em cena da Arábia Saudita abre um novo capítulo numa guerra que se prolonga há já cinco meses, reabre feridas fundas nas relações regionais e ameaça levar a guerra a novos palcos. Mas também deixa claro que os eventos no Médio Oriente são guiados pelas ações dos dois atores principais do conflito: de um lado, os Estados Unidos, do outro o Irão. Exemplo disso é o facto de a Arábia Saudita ter informado os Estados Unidos do ataque contra Sanaa no dia 13 de julho, ou de Washington, face aos ataques dos houthis contra petroleiros sauditas, ter ameaçado retaliar contra o Irão. “Já não há como alegar ignorância, porque toda a gente sabe até que ponto estas relações se cruzam“, argumenta Sanam Vakil, diretora do programa da Chatham House para o Médio Oriente e o norte de África, ao The Guardian.
Riade “mandou uma mensagem ao Irão”, mas prefere o diálogo
Ao longo de cinco meses de guerra, os países do Golfo mantiveram uma postura consistente. Ainda que tenham respondido — pontualmente e de forma discreta — a ataques iranianos e condenado os mesmos, reservando-se repetidamente o direito de resposta, mantiveram-se, ainda assim, dialogantes.
A postura, apontam os analistas, foi interpretada pelo Irão como uma prova de que os países do Golfo não se iam juntar aos Estados Unidos na guerra — e Riade viu-se forçado a retificar essa interpretação. “Os sauditas querem deixar claro que essa leitura está errada e que Teerão acha que os países do Golfo são uma presa fácil, estão enganados”, ponderou HA Hellyer, analista do Médio Oriente, Royal United Services Institute ao The Guardian.
O facto de a Arábia Saudita ter marcado posição não quer dizer, contudo, que se vai juntar aos Estados Unidos na pressão, nos ataques e na retórica violenta contra Teerão. Isso mesmo terá sido dito pelo ministro da Defesa saudita ao Presidente e ao vice-presidente norte-americanos, numa reunião em Washington esta quarta-feira. O ataque serviu apenas para “enviar uma mensagem” ao Irão: a Arábia Saudita não vai tolerar ataques diretos, de Teerão ou dos seus proxies, contra infraestruturas sauditas, relatou uma fonte com conhecimento desta reunião à Associated Press.
“O príncipe Khalid disse a Vance que Netanyahu está à procura de uma escalada com o Irão, enquanto a Arábia Saudita quer uma desescalada porque é um caminho mais frutífero”, relatou uma outra fonte ao Axios. Ou seja, feito o ataque, Riade quer continuar a apostar no diálogo. Os diálogos entre sauditas e houthis já tinham, aliás, decorrido na semana passada com um encontro em Omã. Riade parece estar disposta a continuar com esta linha.
O único indício contrário à preferência declarada de Riade pelo diálogo é visível no leste do Iémen, na zona não controlada pelos houthis. Uma fonte na região, ouvida pela CNN, deu conta de um reunir de forças iemenitas alinhadas com os sauditas nessa região do país que se preparam, se necessário, para entrar em ação contra os houthis, que controlam a capital. Nesse cenário, a Força Aérea saudita providenciaria apoio aéreo, relatou a mesma fonte.

Riade apostou na defesa e segurança, mas essa não é a prioridade
No final de 2014, um grupo de rebeldes iemenitas tomou controlo de Sanaa, exigindo uma mudança de governo. Como as exigências ficaram sem resposta, os houthis tomaram o palácio presidencial e declararam o seu próprio governo. Seguiu-se uma violenta guerra entre os houthis e as forças sauditas, com o apoio de alguns aliados regionais e dos Estados Unidos, que mergulhou o país numa profunda crise humanitária. A assinatura de uma trégua temporal em 2022 permitiu pôr fim aos confrontos abertos — até esta semana.
Mais de dez anos depois do início da guerra no Iémen, a capacidade de a Arábia Saudita fazer frente aos houthis é muito diferente. Riade apostou na modernização da sua defesa e segurança, adquiriu novos sistemas de defesa e cimentou a sua posição como a maior força militar do Golfo — procurando uma autonomização militar dos EUA que os seus vizinhos não alcançaram. “Durante a última década, a Força Aérea Saudita e o Comando Conjunto Saudita transformaram completamente a forma como detetam, monitorizam, visam e interagem com ameaças militares”, sintetiza Nawaf Obeid, do departamento de Estudos de Guerra da King’s College, num artigo de análise.
Porém, a prioridade de Mohammed bin Salman (MBS), o príncipe herdeiro saudita, está longe de ser a defesa. O seu plano a longo prazo, o Vision 2030, procura abertura ao mundo da monarquia absolutista, através da abertura ao investimento estrangeiro. O plano conquistou adeptos, que vão da Casa Branca ao mundo do futebol.
A entrada da Arábia Saudita numa guerra total poria em causa o ambicioso plano de Bin Salman e, por isso, Riade procura outra abordagem. No âmbito dos diálogos com os iemenitas, os sauditas comprometeram-se com um investimento no Iémen, que representa o fim do “cerco” de que são acusados pelos houthis. Isto inclui o pagamento dos salários de todos os funcionários do Iémen — o que incluíria, necessariamente, alguns combatentes houthis —, um compromisso no valor de mil milhões de dólares anuais.
Farea al-Muslimi, analista da Chatham House especializado no Iémen, mostra-se cético perante a ideia de um acordo financeiro que possa pôr fim aos problemas mais complexos que assombram a relação na península arábica. “Os sauditas resolvem todos os problemas deitando-lhe rios de dinheiro para cima, enquanto os houthis o resolvem a tiro”, simplifica ao New York Times.
O mar Vermelho como fragilidade do regime saudita
1.200 quilómetros. É esta, sensivelmente, a distância mínima entre as costas leste e oeste da Arábia Saudita, que está entre os maiores países do mundo, em área. A área e as longas costas sauditas são apenas duas das fragilidades que fazem com que, independentemente da aposta inédita em defesa, a Arábia Saudita continue a não ser um país fácil de defender.
“Os houthis são muito bons a cheirar sangue na água“, afirma April Alley, que trabalhou nas Nações Unidas no âmbito do processo de paz no Iémen em 2022 e 2023, ao New York Times. Num contexto de guerra, a fragilidade da Arábia Saudita está no mar Vermelho. Depois de o Irão ter bloqueado o trânsito no Estreito de Ormuz, a Arábia Saudita redirecionou todas as suas exportações de petróleo para a costa oeste — um total de cinco mil milhões de barris de crude percorreram os 1.200 quilómetros entre as duas costas diariamente.

Esta estratégia, somada ao aumento dos preços do petróleo, absorveu parte do choque que o bloqueio de Ormuz causaria na economia saudita, ainda extremamente dependente do petróleo. Riade enfrenta, ainda assim, o maior défice económico desde 2018 e já teve de retrair alguns dos projetos no âmbito do Vision 2030. O bloqueio do mar Vermelho, onde passa cerca de 12% do comércio marítimo global, e do estreito de Bab al-Mandeb coloca um novo obstáculo a Riade — a única saída das costas sauditas passa a ser pelo canal do Suez, que exige a longa passagem pelo mar Mediterrâneo, por toda a costa africana, até ao Cabo da Boa Esperança, para escoar produtos para a Ásia.
“Os houthis querem copiar o modelo e isto vai bloquear os dois principais estreitos, as entradas no Golfo e no mar Vermelho”, acusou Afrah al-Zouba, ministra dos Negócios Estrangeiros do governo iemenita reconhecido internacionalmente. A comparação é óbvia e a ameaça já tinha sido feita em abril por um dos conselheiros do Líder Supremo do Irão. A situação no mar Vermelho é, portanto, uma repetição, ligeiramente menor, daquilo a que se tem assistido no Estreito de Ormuz. À semelhança do Irão, os houthis procuram aplicar portagens em Bab al-Mandeb e, tal como os EUA, a Arábia Saudita procura apoio internacional para proteger os navios que circulam no mar Vermelho.
Do Iraque a África, Arábia Saudita tem de calcular custos de uma nova guerra
Em 2019, um ataque contra a refinaria de Abqaiq, na Arábia Saudita, destruiu quase metade da produção saudita. “Foi uma chamada de atenção para o quão vulnerável a ataques era a infraestrutura crítica nacional”, relembra a BBC. Como visto, ainda que Riade tenha apostado nesta dimensão, a fragilidade continua a existir. À data, o ataque foi reivindicado pelos houthis. Contudo, a CNN cita fontes de informações que garantem que os ataques foram feitos a partir do Iraque.

Esta possibilidade acentua a já mencionada existência de um bloco único de grupos rebeldes, todos com ligações ao Irão, mas também permite perceber que a fragilidade da Arábia Saudita também deriva da sua própria localização geográfica, pressionada em todas as direções por inimigos: o Irão a leste, os houthis, a oeste, os grupos iraquianos a norte. A escolha do Iraque como alvo saudita esta terça-feira terá sido escolhida devido à presença de combatentes iemenitas no país que, em colaboração com as PMF e a partir de solo iraquiano, têm visado a Arábia Saudita durante as últimas semanas.
Dado este contexto, não é surpreendente que a Arábia Saudita tenha escolhido entrar na guerra com ataques no Iraque. Mas Riade também pode estar a escolher ativamente não intervir diretamente no Iémen. Dada a longa, complexa e conflituosa relação entre a Arábia Saudita e o Iémen, este palco de guerra rapidamente se poderia tornar tão ativo como acontece em Israel e no Líbano, onde Telavive procura destruir o Hezbollah — mais um grupo alinhado com este “Eixo da Resistência”.
Contudo, a Arábia Saudita tem muito mais a perder caso insista no conflito no Iémen. O motivo mais óbvio são as perdas económicas para Riade, mas impõem-se também consequências geopolíticas com repercussões internacionais, destaca a especialista do Council of Foreign Relations, Michelle Gavin, num artigo de análise. “Já há múltiplas tensões interconectadas na região, relacionadas com as águas no Nilo, os desejos da Etiópia de ter acesso a portos, a guerra civil no Sudão e as crises políticas e securitárias na Somália. Quanto mais acesa é a competição, mais provável é que resulte num conflito em solo africano”, aponta.
Entre investimentos estrangeiros, apoios militares e acordos de cooperação, a Arábia Saudita tem interesse em que o conflito no Médio Oriente não chegue a um novo palco regional — e muito menos em ser o intermediário para esse contágio. Equilibrando prioridades a curto e longo prazo, Riade procura agora encontrar um equilíbrio: não ser arrastada para uma guerra aberta, mas preservar as suas prioridades internas e a sua economia.