Mário Amorim Lopes, líder parlamentar da Iniciativa Liberal, considera que há um “risco real” de o caso de Luís Neves precipitar o país numa crise política e de “contaminar” o Governo e as instituições. Como tal, ainda que os liberais não sejam “lestos a pedir a cabeça de ministros”, Amorim Lopes entende que se está a chegar a um ponto “incontornável”, pelo que sugere a Luís Montenegro que “repense bem aquilo que quer fazer” — mesmo que a decisão chegue apenas no pós-férias.
Em entrevista ao Observador, no programa Vichyssoise, o líder parlamentar da IL defendeu que Luís Neves não foi convincente nas explicações que deu ao país. Pelo contrário: fez revelações bastante problemáticas que carecem de esclarecimentos adicionais. Amorim Lopes parece, ainda assim, não depositar grandes esperanças na capacidade de Neves em deixar uma segunda impressão. “Quando há um membro do Governo que começa a contaminar o próprio Governo, isso põe em causa a estabilidade do país”, lamenta.
“Caso Neves pode contaminar cada vez mais Governo e instituições”
A Iniciativa Liberal propôs ouvir o ministro da Administração Interna na Comissão Permanente, algo que acabou por não acontecer. Entretanto, tivemos a oportunidade de ouvir o que o Luís Neves tinha para dizer. Perante os esclarecimentos do ministro da Administração Interna, a IL entende que Luís Neves tem condições para continuar no cargo?
Inicialmente vimos esta questão com grande perplexidade, que foi crescendo ao longo do tempo. Havia aqui algumas questões por explicar: o caso das obras adjudicadas a alguém que tinha prestado serviços à Polícia Judiciária e que depois foi fazer uns biscates na casa do diretor da PJ. O tanque que subitamente virou piscina… Enfim, tudo isto era uma história caricata. Mas foi-se tornando mais grave quando começámos a perceber que punha em causa até a própria PJ. A partir do momento em que começámos a saber que havia um atrelado com um material que tinha sido apreendido na maior operação de droga de que há registo em Portugal e uma das maiores da Europa, e que com toda a leviandade esse material foi parar às instalações de um construtor civil, obviamente a perplexidade foi ainda mais crescente. Percebemos que, pelos vistos, isto acontece dentro da PJ.
Luís Neves não convenceu nas explicações que deu?
De todo. Acho que nos deixou ainda mais alarmados. Como é que é possível dizer-se que o amigo da construção civil desenrascou e que ficou com material apreendido com aquela leviandade? Isto sugere que este comportamento é reiterado. A questão também de não ter entregado as declarações obrigatórias… Não conhecer a lei não assiste a que esta não seja cumprida, sobretudo por parte de um diretor da PJ. Não estamos a falar de um quadro menor. Se não sabia quais eram as suas obrigações, perguntava.
Mas o ministro tem ou não condições para continuar no cargo?
Essa é a questão que Luís Montenegro vai ter de fazer. Se não, corre o risco disto contaminar cada vez mais o próprio Governo e as instituições. Não somos sempre lestos a pedir a cabeça de ministros e das pessoas. Isso é algo que é uma prática comum noutros partidos, mas nós tentamos não ir por essa via. Mas chega um ponto em que se torna incontornável. Quando há um membro do Governo que começa a contaminar o próprio Governo, isso põe em causa a estabilidade do país, das instituições, a capacidade do próprio Governo de governar. Parece-nos que é de bom senso que Luís Montenegro repense aquilo que quer fazer. Não tem de ser hoje, não tem de ser agora, em que é importante ter um ministro da Administração Interna ativo e no terreno. Mas, obviamente, no pós-férias, depois desta época de incêndios, tem de repensar. Caso contrário, tudo o que se venha a descobrir sobre Luís Neves, informação que ainda possa vir a surgir e que ainda agrave mais a situação, o Governo não se poderá escudar. Será cúmplice.
“Devemos evitar uma comissão de inquérito à PJ”
O Chega já apresentou um requerimento para ouvir Luís Neves na Comissão Permanente, já no início da próxima semana. A IL vai acompanhar esta iniciativa tendo em conta que também já tinha pedido? E faz sentido ouvir a ministra da Justiça como responsável pela tutela da Polícia Judiciária?
Seria muito estranho que a IL não acompanhasse um pedido que, na verdade, foi inicialmente da IL. Há muitas questões em aberto e que têm de ser devidamente escrutinadas. Há questões que já têm implicações políticas e, portanto, merecem um debate e um contraditório, com tempos bem definidos, algo que não aconteceu ontem [quarta-feira], em que Luís Neves basicamente respondeu nos termos em que entendeu.
E quanto à ministra da Justiça?
Faz todo o sentido que a ministra da Justiça se pronuncie e, já agora, nos serene relativamente a estes procedimentos que são usados na PJ, se isto é, de facto, assim como Luís Neves reporta. O diretor financeiro está numa obra, partilha que tem uma dificuldade, que não há 3 ou 4 mil euros para arrendar um armazém para colocar o material, e há um construtor civil, um empreiteiro de Barcelos, que vai a Lisboa de propósito, tudo pro bono, desenrascar a Polícia Judiciária. Espero que a ministra da Justiça nos venha serenar e dizer que isto não é o comportamento normal da Polícia Judiciária.
Já disse que a Iniciativa Liberal não excluía uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) a este caso, mesmo considerando que não era a forma ideal para ter esclarecimentos mais rápidos. A IL acompanha a necessidade de uma CPI, e já agora sente-se confortável com o texto apresentado pelo Chega? O PS também já levantou a questão de o inquérito “embarcar na fragilização da Polícia Judiciária”. Existe esse risco?
Existe esse risco. Acho que devemos evitar uma CPI, não deve ser usada com leviandade. Deve ser uma arma de último recurso, uma espécie de bomba atómica. Quando mais nada é possível fazer, quando as explicações são devidas, uma CPI torna-se necessária.
As dimensões deste caso ainda não obrigam a isso?
Neste momento, tudo devemos fazer para evitar que uma CPI seja necessária. Há audições que podem ser feitas, há mais explicações que devem ser dadas, mais explicações da própria Polícia Judiciária, da própria ministra da Justiça também, de Luís Neves, obviamente.
Concorda com o PS quando fala na eventual fragilização da PJ e de poder haver aqui uma intenção do Chega nessa questão?
Que pode fragilizar a Polícia Judiciária? É claro, a CPI pode fragilizar a instituição. Mas as instituições, para se renovarem, para serem mais fortes, às vezes precisam destes momentos. Agora, outra questão que se coloca é se isso vai ser usado de forma instrumental para o Chega fazer algum tipo de diatribe ou de luta partidária. Olhando para aquilo que aconteceu esta semana no Parlamento, a tal invasão ou alegada invasão do gabinete do Chega, acho que isso é sugestivo de que possa mesmo acontecer. A primeira acusação que André Ventura faz, sem conhecer minimamente as motivações, é de que isto seria uma represália.
Acredita que foi tudo uma farsa, que foi tudo encenado?
Vou dar apenas alguns factos objetivos: é feita uma invasão de um gabinete em que se deixa tudo no chão quando se está à procura de uma pen, ou seja, para deixar evidências de que alguém entrou e que tentou fazer alguma coisa. É estranho. É estranho que um deputado, numa semana em que não há trabalhos parlamentares, vá às sete da manhã ao Parlamento a um gabinete que nem sequer está no piso onde está o seu gabinete, filmar um vídeo, quando qualquer um de nós filma vídeos em diferentes sítios. É estranho que aqueles quadros que aparecem no chão não se tenham partido, e que apareça até o terço em cima do quadro. É um milagre. Tudo isto é muito estranho. Não sou investigador da polícia criminal. Agora que os indícios são todos muito estranhos, são. Certamente que há aqui um crime. Agora resta saber quem é que o cometeu.
“Podemos acabar com um Governo completamente fragilizado”
Tem-se discutido muito o degradar acelerado do capital político do Governo. Este caso de Luís Neves, do ministro da Administração Interna, somado a outras polémicas ou erros cometidos pelo Governo de Luís Montenegro, podem precipitar o país numa crise política?
Isso é um risco real e deveria ter sido ponderado por Luís Montenegro. Já tivemos duas eleições legislativas em dois anos e toda esta instabilidade não é positiva para o país. O Governo colocou-se numa situação que era evitável.
Falando nesta degradação política, acha que se pode fazer um paralelismo com a fase final do ciclo de António Costa? Luís Montenegro está a percorrer o mesmo caminho?
Está a percorrer o mesmo caminho. Acho que não estamos ainda nesse ponto, mas este caso de Luís Neves é uma dessas particulares trapalhadas. Daí a importância de Luís Montenegro e do Governo tentarem conter o dano e, não o fazendo, será politicamente responsável por aquilo que se possa vir a saber.
E uma forma de conter esse dano poderia ser, por exemplo, Luís Montenegro fazer uma remodelação alargada na rentrée política?
Esse é certamente um caminho. Ao fazê-lo, não estará a dizer que o ministro é culpado. Mas tem de pesar qual é o impacto maior. Parece-me que o Governo acha que a população se revê em Luís Neves, que aquilo foi apenas um pequeno tanquezinho, que ele tem uma casa humilde, e que não passa disto, de algumas pequenas confusões e uns pequenos pecadilhos que qualquer pessoa poderia cometer. Mas, sinceramente, à luz das evidências, parece ser bem mais grave do que isso. É uma decisão que o Governo tem de tomar. Podemos acabar com um Governo completamente fragilizado e com necessidade de novas eleições. Os portugueses não querem isso. Os portugueses querem alguma estabilidade para cuidarem da sua própria vida, e o Governo tem de antecipar esse interesse nacional e fazer tudo ao seu alcance para garantir isso. Se fosse eu a tomar a decisão, mais valia deixar cair um dos meus, mas salvaguardar esse interesse nacional e essa estabilidade do Governo.
No meio disto tudo, compreende o silêncio de António José Seguro? Exigia-se um Presidente da República mais ativo nas últimas semanas?
A bitola que usamos para comparar é a de Marcelo, e, por comparação, diria que pior não está, porque Marcelo reagia sempre em cima do incidente, às vezes sem ter toda a informação, e, por vezes, não apenas não resolvia, como só criava mais confusão. A serenidade é importante. Mas acho que o momento para a serenidade já terminou. Agora vai ser o momento do Presidente da República, de fazer a sua própria avaliação, de uma forma objetiva e isenta e perceber se o ministro da Administração Interna tem condições e ter uma conversa franca, aberta, com Luís Montenegro. É o tempo do Presidente da República se pronunciar.
Tendo em conta as críticas que fez ao Governo, como é que fica a relação entre a Iniciativa Liberal e a AD? Com tudo o que está a ver da liderança de Luís Montenegro, está convencido de que uma associação futura entre IL e AD seria positiva para o partido? A AD é um parceiro confiável?
Queremos um Governo reformista. Os portugueses votaram na AD, não votaram na Iniciativa Liberal para liderar esse Governo. Aquilo que estamos sempre a exigir ao Governo é essa capacidade reformista. Este tipo de casos não se deve intrometer nesse desígnio de melhorar o país e melhorar a vida dos portugueses, mas temos de ser exigentes, porque também fomos eleitos para isso. Não fomos eleitos para passar um cheque em branco à AD. Quanto mais tempo o Governo perde e despende neste tipo de casos e a justificar estes casos, menos tempo tem para fazer as reformas de que o país precisa.
“Neste momento, não tenho qualquer ambição de ser líder da IL”
Daqui a um ano o partido vai ter eleições internas, a oposição interna tem-se posicionado para preparar uma lista alternativa. O seu nome vai surgindo como uma possibilidade na sucessão de Mariana Leitão na linha da direção. Coloca essa hipótese em cima da mesa?
Não, não coloco essa hipótese, de todo. A liderança da IL está muito bem entregue. A Mariana Leitão é uma excelente política, uma excelente líder e desempenha aqui um momento muito importante na história da IL. Carlos Guimarães Pinto trouxe o rasgo que a IL precisava; João Cotrim Figueiredo deu a credibilidade e o salto para a IL ganhar preponderância; Rui Rocha foi quem teve de lidar com o período mais difícil politicamente porque é mais fácil fazer oposição a um governo socialista do que a um governo do PSD; e Mariana Leitão tem aqui as condições e a capacidade de permitir dar o próximo salto, de mostrar aos portugueses que temos a capacidade de implementar essas reformas, temos uma visão para o país.
Podemos concluir que nunca vamos ver Mário Amorim Lopes a candidatar-se à liderança da IL. Podemos escrever isso?
O que podem escrever é que não tenho qualquer ambição neste momento e não me vejo sinceramente a ter. A liderança da IL está muito bem entregue.
Vamos avançar para o segundo segmento do programa, o Carne ou Peixe, em que tem de escolher apenas uma das seguintes opções. Quem convidava para ver um jogo no Estádio do Dragão: José Luís Carneiro ou André Ventura?
É uma boa questão, porque o André Ventura seria para obrigar a cumprir aquela promessa que ele nunca cumpriu, que foi, se o Porto fosse campeão, vestir a camisola do Porto. Apenas por isso, para que ele possa cumprir aquilo que prometeu, talvez com o André Ventura, mas só por isso. Porque politicamente, não seria certamente ele.
A quem confiava a palavra-passe das suas redes sociais: Sebastião Bugalho ou António Leitão Amaro?
A nenhum. Eu não confio em nenhum. Só eu é que tenho acesso às minhas redes sociais e só eu é que escrevo lá, para o bem e para o mal. Portanto, eu não confiaria a ninguém.
Quem convidava para parceiro num DJ SET: Luís Neves ou Fernando Alexandre?
Fernando Alexandre, sem dúvida alguma, porque Luís Neves depois podia desaparecer o material e aparecer algures em Barcelos.
Ao lado de quem preferia voltar a fazer uma campanha legislativa: Mariana Leitão ou João Cotrim Figueiredo?
Legislativas, Mariana Leitão, obviamente, porque ela é a líder da Iniciativa Liberal e é ela que tem o perfil, neste momento, para se candidatar a primeira-ministra.