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(A) :: Seguro preocupado com caso Neves recusa repetir crise Marcelo-Galamba

Seguro preocupado com caso Neves recusa repetir crise Marcelo-Galamba

Presidente, que sempre valorizou a dimensão ética na política, foi monitorizando situação de Luís Neves e explicações do ministro. Desgaste das instituições e ataque à PJ no topo das preocupações.

Miguel Santos Carrapatoso
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António José Seguro está preocupado com o evoluir da situação política e com os efeitos de contágio que pode ter a continuidade de Luís Neves como ministro da Administração Interna. Não apenas com o que isso pode representar para a credibilidade das instituições, Governo incluído, mas também com o risco que isso terá para a imagem da Polícia Judiciária. O Presidente da República teme sobretudo as ondas de choque provocadas pela comissão parlamentar de inquérito já pedida pelo Chega.

Em silêncio desde 17 de julho, quando garantiu “estar muito atento” ao que se passava no país, prometendo falar apenas no “momento certo”, António José Seguro ouviu de Luís Montenegro, com quem mantém uma relação de grande lealdade institucional, todos os esclarecimentos que Luís Neves acabaria por dar na quarta-feira, 29 de julho. Não consta que tenha ficado particularmente reconfortado com as justificações apresentadas pelo primeiro-ministro. O Observador sabe, aliás, que o Presidente da República se desdobrou em contactos nos últimos dias para perceber a real dimensão do caso que envolve Luís Neves. E não terá gostado nada do que ouviu.

A conferência de imprensa de Luís Neves não ajudou a melhorar a imagem política do ministro da Administração Interna. No essencial, o ex-diretor da Polícia Judiciária confirmou os pecados da informalidade (na questão do atrelado), da incúria (na questão da declaração de rendimentos) e da imprudência (na forma como tratava com o amigo empreiteiro). No domínio da ética republicana, dimensão que António José Seguro sempre valorizou e pela qual fez campanha presidencial, as explicações do ministro da Administração Interna terão deixado, no mínimo, muito a desejar.

Com uma agravante: o Presidente da República, tal como muitos elementos do núcleo mais próximo de Luís Montenegro, suspeita que as histórias sobre Luís Neves não ficarão por aqui, o que poderá arrastar o Governo e a Polícia Judiciária para um ciclo longo de enorme desgaste político. O próprio primeiro-ministro está preocupado com esse risco e convencido de que, mediante a gravidade dos factos que vierem a ser imputados a Luís Neves, poderá ser forçado a revisitar a decisão de manter a cabeça do seu ministro da Administração Interna. A possibilidade de Neves ter de sair está bem presente nas cogitações que Seguro e Montenegro vão fazendo.

António José Seguro é sensível ao argumento de que Luís Montenegro não pode abdicar de um ministro da Administração Interna em plena época de combate aos incêndios. Mas em setembro, terminada a fase teoricamente mais crítica, poderá ser tempo de reavaliar a situação política de Luís Neves — Hugo Soares, líder parlamentar e número dois de facto do PSD, fez essa mesma referência quando disse, ainda no domingo, que esperava chegar a “setembro” com o “mesmo elenco governativo”, acrescentando o defensivo advérbio “provavelmente“. Tudo dependerá do evoluir do caso e existe a consciência de que a margem para mais erros é praticamente nula.

Nos próximos dias é expectável que o Presidente da República aproveite um ponto de agenda pública (não tem marcado presença em eventos públicos) para apontar a importância de preservar a dignidade das instituições. Ideia suficientemente forte para sinalizar o desconforto de Seguro com toda a situação de Luís Neves, sem ainda assim colocar em xeque a relação de lealdade institucional com Luís Montenegro — António José Seguro nunca faria como Marcelo Rebelo de Sousa fez a António Costa, quando exigiu publicamente a demissão de João Galamba. Não é esse o estilo de António José Seguro e não é assim que o Presidente da República interpreta o papel que a Constituição da República lhe reserva.

Um dia depois da conferência de imprensa de Luís Neves, Adalberto Campos Fernandes, na CNN Portugal, figura próxima de António José Seguro e conselheiro presidencial, sugeriu que o Chefe de Estado falará nos próximos dias. “Há um tempo do Presidente, há um tempo do primeiro-ministro e há um tempo do ministro. O ministro demorou três semanas a exercer o seu tempo. Toda a gente tem a certeza de que o Presidente trabalha de perto com o primeiro-ministro, fala com ele regularmente e discute esta matéria no sítio certo, na reserva dos bastidores. Agora, o tempo do Presidente é inexorável. Estamos mais perto do tempo político do Presidente se afirmar.”

Lembrando que falta ainda perceber se José Pedro Aguiar-Branco vai aceitar ou não a ida de Luís Neves ao Parlamento, prevista para 4 ou 5 de agosto, o que pode adiar esse “tempo do Presidente”, Campos Fernandes antecipou a sua censura ao comportamento de Luís Neves quando era diretor da Polícia Judiciária. “Parece que existe um crescente vazio ético. Não pode haver informalismos nas conduções dos assuntos de Estado. A política especializou-se na gestão da perceção e da narrativa. Procura lidar com a bolha e não cuida dos aspetos que têm que ver com a ética. Quem é titular de uma função política ou pública tem de ser exemplar.”

Um dos grandes receios de Seguro é de que todo este processo prejudique ainda mais a imagem da Polícia Judiciária — e a comissão parlamentar de inquérito pedida pelo Chega pode ter esse efeito. André Ventura terá, de resto, dito ao Presidente da República que abdicaria da CPI se Luís Neves fosse afastado do cargo de ministro da Administração Interna, coisa que Luís Montenegro não quis fazer.

Aliás, quem acompanha atentamente os passos de António José Seguro e de José Luís Carneiro não deixa de apontar para a mudança de tom introduzida pelo líder socialista e vá fazendo contas: o líder socialista nunca desafiaria Luís Montenegro a repensar a continuidade de Luís Neves se não tivesse percebido que era também essa a sensibilidade de António José Seguro. No PS, de resto, garante-se que o líder socialista passou um “atestado de óbito” ao ministro da Administração Interna.

A este propósito há quem aproveite para lembrar não apenas aquilo que António José Seguro defendeu ao longo de todo o seu percurso político, mas especialmente a forma como decidiu interromper a sua travessia no deserto para comentar a fase final do governo de António Costa. Nessa altura, corria o mês de maio de 2023, o caso de João Galamba estava então a marcar a agenda política, e o antigo líder socialista apareceu em público a dizer estar “perplexo” com tudo aquilo que estava a acontecer e a defender que os “portugueses mereciam melhor”.

Mais do que recear ter de lidar com uma crise política, o Presidente da República teme que o país colecione momentos de grande degradação institucional (o episódio de vandalismo do gabinete de Ventura é outro desses episódios) até um ponto de quase não retorno. António José Seguro está apostado em evitar que o balão continue a insuflar. Mas nem tudo depende dele — Luís Montenegro, sobretudo ele, enquanto primeiro-ministro, também terá de fazer a sua parte.

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