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O cânone de Frederico Pedreira

Acontece com os grandes autores: Frederico Pedreira parece a cada novo livro atualizar e revisitar um cânone literário particular. "Um Pássaro Cantando para Outro que Nunca Virá", reafirma-o.

João Pedro Vala
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Após o extraordinário romance de estreia A Lição do Sonâmbulo (Companhia das Ilhas, 2020), com o qual venceria o Prémio Europeu de Literatura da União Europeia e o Prémio Eça de Queiroz, o poeta, ensaísta e romancista Frederico Pedreira deslocou a sua vida e a sua obra para o interior de Portugal, onde se desenrola o terceiro romance do autor (de permeio houve ainda Sonata para Surdos, também publicado pela Relógio d’Água).

Em Um Pássaro Cantando para Outro que Nunca Virá, lemos a história de um homem de nome e idade incertos que se vê sozinho em casa e confrontado com a demência galopante da sua mulher, Joana, recentemente internada num lar. O passado desaparece então aos poucos da consciência de Joana ao mesmo tempo que, através da inesperada descoberta de um artigo de jornal numa caixa escondida, vai emergindo para o narrador.

Se em linhas gerais é esta a história do livro, a verdade é que raramente as linhas gerais permitem perceber grande coisa. Como acontece com os grandes autores, Frederico Pedreira parece a cada novo livro actualizar e revisitar na sua ficção um cânone literário particular. Isto é feito através de referências explícitas e alusões (a Shakespeare, a Pessoa, a Baudelaire, a Cristo), claro, mas também, e mais interessantemente, através da emergência de uma tonalidade, quase subterrânea, que nos soa vagamente familiar e que aqui vemos ser recuperada e adulterada. Se em Lição do Sonâmbulo a influência subterrânea mais evidente era Proust, aqui parece ser Lobo Antunes (um autor que Frederico Pedreira descreveu, em entrevista recente ao Público, como um “mestre” de “uma importância revolucionária”) que o escritor evoca e transforma através da repetição de uma série de refrães onde se refletem as reflexões ruminantes do narrador.

Contudo, os romances de Frederico Pedreira vão muito para lá dos ecos que neles soam, como percebemos desde a primeira frase, onde o narrador parece querer dar-nos uma localização muito concreta para a sua história mas que colapsa ao chegar à segunda linha (“Sete e dez da tarde do diz vinte e um de Junho de dois mil e…”). Esta reticência é interessante porque nos veremos mergulhados na história de uma mulher com demência e que, portanto, não se consegue localizar, mas também, e sobretudo, porque o próprio narrador vê a linearidade estilhaçar-se, perdendo o pé ao amar alguém que já não se tem de pé.

A demência da pessoa amada virá assim contagiar o amante que em muitos momentos parece perder as noções temporais, por exemplo, e que logo a princípio parece esquecido de si mesmo (“Um dos televisores tem o teu nome. Diz Joana (…) o outro tem o meu diz…”). Isso acontece porque a perspectiva da amada parece contaminar o amante, sim, pela violência da descoberta do tal segredo, que deixará o narrador perdido, claro, mas também pela natural desorientação de quem se vê subitamente privado do ombro apoiado no qual caminhara pela vida inteira. Daí que o narrador se veja forçado a reconhecer que “todo o passado se parece contigo”. Em muitos momentos, essa desorientação será ainda exponenciada por um passado de alcoolismo e pela estranheza de se ver uma relação conjugal converter-se numa relação primeiro filial (“por instantes, senti-me o pai que chega à escola ao final do dia para ir buscar a filha”) e depois mais remota ainda (“comigo a oferecer-lhe dinheiro, como se fosse seu tio”).

Contudo, a demência de Joana, mais do que retirar sentido à vida do narrador, parece enfim iluminá-la, como percebemos, por exemplo, na cena em que o narrador se distrai a olhar para outra paciente do lar e pensa: “A velha rasava os lábios com um movimento floreado dos dedos que não chegava a concretizar-se num gesto com princípio, meio e fim. Assim é a vida, pensava eu ao pensar na Joana (…), ao pensar em mim e no mundo em estado de sítio, em contenda climática (…), assim é a vida, algo que paira no ar, algo que ficou a meio caminho entre uma coisa e outra mais importante, algo que se deixou por fazer”.

Se o centro da história é esse, há também uma reflexão peculiar sobre masculinidade que emerge através da descoberta do tal segredo, mas também uma outra, talvez mais interessante de uma perspectiva ficcional, acerca da maneira urbana de encarar um interior em “periclitante estado de desespero” devido às secas, ao calor extremo, mas, sobretudo, devido à invasão de visitantes citadinos que procuram nestes ermos uma panaceia, como se o interior fosse afinal umas termas, um sítio pensado não para ser habitado mas para curar os males da cidade (“é preciso que [as pessoas da cidade] tenham uma experiência no campo (…) estas estadias em que se respira um ar sadio (…) tudo indica que fazem parte dos novos planos pré-pagos do serviço nacional de saúde). Ora, estes momentos têm toda a pertinência de uma perspectiva ficcional porque, tal como Frederico Pedreira, também as personagens do seu romance parecem em algum momento ter sido um destes visitantes urbanos, mas que, ao ali se radicarem, começam a olhar com estranheza e uma certa repulsa para o que outrora foram. E se isso é uma boa descrição da forma como todos nós tendemos a olhar para o nosso passado, torna-se ainda mais arguta quando vemos exactamente o mesmo movimento de estranhamento, mas com uma dimensão bem mais trágica, reproduzir-se nas vidas destas personagens, com a chegada da demência de Joana.