Não será caso único no mundo e na história, mas é com certeza caso raro: Madias Ngake tem no palmarés uma medalha olímpica que nunca teve nas mãos. Mais do que isso, Madias Ngake tem uma medalha olímpica que estará guardada no país em que não vive. Mas no país onde nasceu e cresceu.
Para explicar, na verdade, é preciso recuar aos Jogos Olímpicos de Londres, já em 2012. Madias Ngake, atleta dos Camarões do levantamento do peso que na altura se apresentava como Madias Nzesso, ficou no sexto lugar na categoria dos 75kg. Sete anos depois, já em 2019, três das atletas que tinham ficado à sua frente acabaram por ter os resultados invalidados e suspensos devido a controlos antidoping positivos — Madias, portanto, saltava para o pódio e ficava com uma medalha de bronze olímpica. A medalha seguiu para os Camarões. Ela, porém, nunca voltou aos Camarões depois dos Jogos Olímpicos.
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A ideia não era ficar em Inglaterra. Madias Ngake, que na altura tinha apenas 20 anos, voou para Londres apenas para participar nos Jogos Olímpicos e planeava voltar a Douala, uma das maiores cidades dos Camarões e o sítio onde nasceu e cresceu. Enquanto estava na capital inglesa, porém, soube que a sua orientação sexual tinha sido tornada pública no país — um país onde a homossexualidade era e continua a ser ilegal, um crime punível até cinco anos de prisão.
Com “medo” e a certeza de que não voltar era a única maneira de garantir “segurança e liberdade”, fugiu da Aldeia Olímpica depois da prova e nunca regressou aos Camarões. “Tinha a noção de que ficar também não seria fácil, mas tinha de tomar uma decisão pela minha segurança, pelo meu futuro, porque sabia que já não tinha qualquer futuro nos Camarões. Sou lésbica, gosto de mulheres e isso não é permitido nos Camarões. Tive de ficar aqui para ter um bom futuro, uma boa vida, para garantir que não me fazem mal se decidir ter uma namorada”, explicou em entrevista à BBC.
Como ela própria antecipou, os primeiros anos em Inglaterra não foram fáceis — e acabaram por interromper a carreira desportiva que tinha começado em África. “Às vezes dormia no autocarro, mas quando o autocarro parava no fim do dia tinha de dormir na rua. Quando queria tomar banho encontrava um sítio na rua, em público, despir-me e mudar-me não era fácil”, recordou, abordando um período de cerca de dois meses que durou até conseguir candidatar-se a asilo e ser colocada a viver num local temporário.

Cinco anos depois dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2017 e já a viver em Nottingham depois de uma passagem por Leeds, conseguiu finalmente reunir todas as condições para ter um contrato de trabalho. Trabalhou na limpeza de escritórios e lojas durante nove anos, primeiro sem contrato e depois de forma legal, e garante que não perdeu um segundo a pensar sobre desporto, medalhas ou sonhos. A dada altura, porém, tudo voltou a mudar.
Em 2022, quando a cidade de Birmingham organizou os Jogos da Commonwealth, reencontrou-se com alguns colegas e treinadores dos Camarões que viajaram até Inglaterra para participar na competição. Um deles, particularmente próximo nos tempos em que ainda vivia no país, incentivou-a a voltar a levantar peso. “Ele ficou a dormir em minha casa e insistiu muito para que recomeçasse. Eu tinha parado tudo, mas ele encorajou-me e quando voltei a levantar uma barra foi muito natural, senti que era a coisa certa. Foi muito entusiasmante”, lembrou.
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No ano seguinte, já como atleta da Grã-Bretanha, conquistou a medalha de ouro no British International. Dois anos depois, conquistou a medalha de prata nos Mundiais. Já este ano, conquistou a medalha de bronze nos Europeus. Resultados que, entretanto, fizeram com que garantisse os apoios financeiros para deixar de trabalhar nas limpezas e voltar a ser atleta profissional a tempo inteiro.
Esta quarta-feira, em Glasgow e a competir pela primeira vez nos Jogos da Commonwealth por Inglaterra, ficou com a medalha de prata nos 86kg. O sonho, naturalmente e apesar de já ter agora 34 anos, é conseguir apurar-se para os Jogos Olímpicos de 2028 e chegar a Los Angeles para tentar encerrar um ciclo que começou há mais de uma década em Londres.