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(A) :: Abdul queria ser o "Rei da Escócia" como o avô, que foi ditador no Uganda. Saiu de Glasgow desqualificado por dar cabeçada a adversário

Abdul queria ser o "Rei da Escócia" como o avô, que foi ditador no Uganda. Saiu de Glasgow desqualificado por dar cabeçada a adversário

Depois de ser desqualificado, Abdul não poupou críticas: acusou os árbitros de discriminação racial e insistiu que "os pugilistas ingleses cometem muitas faltas" sem serem penalizados da mesma forma.

Manuel Conceição Carvalho
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Aziz Abdul, neto do antigo ditador ugandês Idi Amin, foi desqualificado nos quartos de final de boxe dos Jogos da Commonwealth, em Glasgow, depois de dar uma cabeçada no adversário inglês Damar Thomas durante o combate. O pugilista de 25 anos, que competia na categoria de pesos-pesados, já tinha recebido dois avisos anteriores e estava a perder em todos os cartões dos juízes quando o árbitro decidiu pôr fim ao combate, no terceiro assalto. “Só posso dizer que a decisão não está certa, não estou satisfeito”, reagiu Abdul, no que foi apenas o início de uma resposta bem mais dura.

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Os Jogos da Commonwealth são um evento multidesportivo disputado de quatro em quatro anos entre países que integram a Commonwealth – na sua maioria, antigos territórios do Império Britânico. Nascidos em 1930 sob o nome de British Empire Games, chegaram este ano à sua 23.ª edição, disputada em Glasgow entre 23 de julho e 2 de agosto. A edição de 2026 tem contornos atípicos: estava inicialmente atribuída ao estado australiano de Vitória, que desistiu da organização em 2024 devido aos custos, obrigando a Escócia a assumir o evento em cima da hora, com um formato reduzido – apenas dez modalidades, menos sete do que em 2014, quando Glasgow já tinha sido cidade anfitriã. Cerca de 3.000 atletas de 74 países ou territórios participam na competição, que, ao contrário dos Jogos Olímpicos, vê Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte competir separadamente, e não como Reino Unido.

Abdul, também conhecido por “Ringo”, nunca chegou a conhecer o avô, que morreu em 2003, no exílio, na Arábia Saudita. Antes do combate com Thomas, não escondeu a inspiração que retira da figura paterna da sua família. “As conquistas do meu avô inspiraram-me. Ele era um pugilista de pesos pesados, como eu, e tenho muito orgulho nele. Leões geram leões. Um leão não pode gerar um cão ou um camelo. Um leão tem de se parecer com um leão. É o que é. Sou um verdadeiro guerreiro. Sou o filho do filho”, disse ao The Guardian. Chegou mesmo a sugerir que poderia tornar-se o “novo Rei da Escócia” caso conquistasse o ouro – uma referência direta a um episódio da vida do seu avô. Questionado diretamente se tinha orgulho em ser neto de um ditador, recusou responder.

https://observador.pt/2026/07/27/tenho-muito-orgulho-no-meu-avo-os-leoes-geram-leoes-abdul-aziz-o-neto-de-idi-amin-que-quer-ser-o-novo-rei-da-escocia/

Idi Amin foi presidente do Uganda entre 1971 e 1979, depois de tomar o poder num golpe militar contra Milton Obote. Antes disso, tinha feito carreira nas fileiras do exército colonial britânico, os King’s African Rifles, onde serviu na Birmânia, na Somália e no Quénia, e onde desenvolveu um fascínio pela Escócia – chegou a usar kilt e a tocar gaita-de-foles, e autoproclamou-se “Rei da Escócia” em 1976. O seu regime, no entanto, ficou marcado pela violência extrema: as estimativas dadas pela BBC em 2003 apontam para 300 mill pessoas mortas ao longo dos oito anos em que governou o país, o que lhe valeu a alcunha de “Carniceiro do Uganda”.

Em 1972, expulsou a população asiática do Uganda – as estimativas variam entre 55 mil e 80 mil pessoas, com a House of Lords Library, biblioteca oficial do Parlamento britânico, a apontar para um valor próximo de 76 mil, citando o The Economist. O impacto foi desproporcional ao tamanho da comunidade: apesar de representar apenas uma pequena fração da população ugandesa, os asiáticos eram responsáveis por cerca de 90% das receitas fiscais do país, segundo a mesma fonte. Cerca de metade tinha passaporte britânico e acabaria por se instalar no Reino Unido; outros foram para o Canadá, os Estados Unidos, a Índia e o Paquistão. As empresas e propriedades confiscadas foram entregues a apoiantes do regime, muitas vezes sem qualquer experiência para as gerir, o que agravou ainda mais o colapso económico que se seguiu à expulsão. Amin perseguiu ainda os grupos étnicos acholi e lango, apoiantes do antigo presidente, Obote, e envolveu-se pessoalmente no sequestro de um avião francês em 1976, que terminou com a operação militar israelita conhecida como o Raide de Entebbe.

Foi derrubado em 1979, depois de uma invasão conjunta de forças tanzanianas e exilados ugandeses, fugindo primeiro para a Líbia e depois para a Arábia Saudita, onde viveu até à sua morte, em 2003. Nunca foi julgado pelos crimes cometidos. A sua história inspirou o filme “O Último Rei da Escócia”, de 2006. Amin foi também, ele próprio, pugilista – deteve o título ugandês de pesos-pesados durante nove anos, na década de 1950.

Depois da desqualificação, Abdul foi ainda mais longe nas críticas, acusando os árbitros de parcialidade e sugerindo motivações raciais. “Claro que é injusto… Quando vês os combates anteriores da Inglaterra, os pugilistas deles cometem muitas faltas”, disse. Mais tarde, terá acrescentado que os juízes estavam contra ele por ser “africano negro”. Do lado inglês, Damar Thomas – que ficava assim com a garantia de, pelo menos, uma medalha de bronze – preferiu não festejar a forma como tudo aconteceu. “Não é a forma como queria vencer”, disse, acrescentando que não podia mudar o que se tinha passado, mas podia controlar como iria lutar na sexta-feira seguinte. Abdul perseguia a primeira medalha de boxe do Uganda nos Jogos da Commonwealth desde Auckland, em 1990 – um objetivo que ficaria garantido com a vitória, e que agora terá de esperar por outra oportunidade.

https://twitter.com/CliveKyazze/status/2082587257756619096