Portugal é um bom sítio para instalar um centro global de serviços para a aviação, afirmou o administrador financeiro da Air France-KLM durante a apresentação dos resultados semestrais. Steven Zaat afirmou que o grupo já tem um centro destes na Hungria, mas Portugal tem vantagens devido à mão de obra especializada.
Um dia depois do grupo ter entregue uma oferta vinculativa para a TAP, muitas das perguntas foram sobre a proposta. O presidente executivo, Benjamin Smith, avisou logo que não ia revelar valores da oferta ou do investimento proposto, mas assinalou que “para submetermos uma proposta (vinculativa) é porque acreditamos que o que vamos oferecer é superior” ao outro candidato, a Lufthansa.
E deixou elogios à atual gestão da TAP liderada por Luís Rodrigues. “Estamos muito impressionados com os resultados que conseguiram alcançar e temos esperança de que os [gestores] que queiram ficar entrem no grupo se formos escolhidos”.
Ao longo da conferência de imprensa que se realizou em Paris, foram dadas pistas sobre a instalação de um centro de MRO (manutenção, reparação e operações) para motores em Portugal que integra o plano industrial e estratégico proposto para a companhia portuguesa. Ainda não existe uma localização identificada porque “ainda não fomos escolhidos”, mas admite que seria mais lógico ficar perto de Lisboa, para tirar partido do desenvolvimento da parceria que a Air France-KLM já tem com a Manutenção e Engenharia da TAP. O objetivo seria expandir essa parceria e não começar do zero com uma unidade de raiz como a que foi lançada pelo outro candidato, a Lufthansa, em Santa Maria da Feira.
“Já temos atividades em Portugal e estamos bem posicionados para atrair clientes de outras partes do mundo”.
O gestor afastou, no entanto, o cenário de desviar manutenção do centro que existe em Amesterdão para Lisboa.
Condições de Bruxelas podem afetar interesse na TAP “se destruírem sinergias”
Ainda sobre a proposta para a TAP, Benjamin Smith apresentou como trunfos a longa experiência em processos de consolidação. “Somos pioneiros a trabalhar com duas empresas e dois hubs (Paris e Amesterdão)”. E a experiência e a capacidade de trabalhar com acionistas públicos. “Temos mais experiência em trabalhar com parceiros Estado”, dando como exemplo a recente interação com a Dinamarca no processo de compra da SAS que, no entanto, distingue da operação da TAP. A Air France-KLM comprou uma posição minoritária na SAS e negociou depois um acordo para chegar à maioria até ao final do ano. Na TAP está em causa a venda de uma posição próxima dos 50% que permite trabalhar logo as sinergias ao nível das rotas, carga e manutenção.
O CEO da Air France-KLM acrescentou também que o modelo de gestão descentralizada por vários hubs nacionais foi um dos aspetos que o Estado português considerou muito importante e destacou uma “relativa paz laboral” nos últimos anos, como outra vantagem.
Os gestores foram igualmente questionados sobre as eventuais condições que a Comissão Europeia poderá colocar às operações da SAS e da TAP para acautelar efeitos na concorrência no mercado da aviação. Benjamin Smith assumiu que “é um desafio para nós e esperamos conseguir encontrar o equilíbrio certo na SAS e na TAP, se ganharmos”. E deixou ainda a nota em tom de aviso. Se Bruxelas pedir remédios que possam “destruir as sinergias que fazem as transações funcionar, podem imaginar o que isso faria ao nosso interesse nessas operações”.
Mas lembrou também declarações recentes da Comissão a manifestar interesse em apoiar as companhias europeias num contexto de um mercado global. Destacou também que tanto a TAP como a SAS são operadores globais com tráfegos de longo curso significativos e cujas questões de concorrência se jogam em hubs globais e não apenas europeus.
Questionado sobre o potencial interesse em ativos da Easyjet, empresa low-cost britânica que tem um acordo de venda, Benjamin Smith disse que as aquisições da SAS e a proposta para a TAP “têm-nos ocupado muito tempo. Estamos esticados e não sabemos o que os novos donos (o Fundo Apollo) querem. Tem ativos interessantes, mas é algo que não estamos a estudar”.
O grupo Air France-KLM apresentou um resultado de 484 milhões de euros no segundo trimestre, menos 250 milhões de euros do que os registados em igual período de 2025, refletindo o agravamento dos custos com o combustível que tiveram um impacto de 804 milhões de euros. Apesar da queda, os lucros foram melhores do que o previsto e as receitas cresceram 9,9%.