Duas antigas alunas de uma prestigiada escola de artes no estado do Michigan, nos Estados Unidos (EUA), denunciaram comportamentos de índole sexual por parte de Jeffrey Epstein, um dos principais doadores da instituição. A revelação surge no âmbito de uma investigação independente que trouxe à luz dezenas de acusações que se arrastam há décadas e que envolvem quase meia centena de outras pessoas, avançou esta quarta-feira a Associated Press (AP).
O Interlochen Center for the Arts — que gere um campo de férias e uma escola de artes performativas com estudantes de todo o mundo — contratou uma sociedade de advogados em 2024 para investigar denúncias de abusos sexuais cometidos por docentes e funcionários. Mais tarde, a investigação foi alargada para recolher dados sobre Epstein, o financeiro que se suicidou na prisão em 2019, aos 66 anos.
A instituição já tinha retirado o nome de Epstein de um dos edifícios do campus depois de o milionário ter sido condenado por crimes sexuais na Flórida, em 2008. O imóvel, rebatizado como Green Lake Lodge, foi recentemente demolido, após o Departamento de Justiça dos EUA ter tornado públicas milhões de páginas de documentos acumulados ao longo dos anos sobre o caso.
Segundo a AP, o escritório de advogados Sanghavi revelou ter recolhido 70 depoimentos de ex-alunos que acusam 47 professores e funcionários ligados a Interlochen de “conduta física de natureza sexual” entre as décadas de 1950 e 2010 — a maioria antes do ano 2000.
“A informação recolhida ao longo desta investigação é, simplesmente, devastadora”, refere o relatório de 97 páginas, sublinhando que os ex-alunos relataram situações de aliciamento (grooming), flirt inapropriado, toques não consentidos e atos sexuais.
A direção do centro informou ter remetido os nomes dos acusados para as autoridades para que decidam sobre eventuais procedimentos criminais. Nenhum dos visados trabalha atualmente na instituição e mais de um terço já morreu.
“Embora a grande maioria dos incidentes descritos na investigação tenha ocorrido há várias décadas e as queixas tenham diminuído significativamente nos últimos 25 anos, a passagem do tempo não apaga o que os nossos ex-alunos viveram”, diz o comunicado assinado pelo presidente da instituição, Trey Devey, e o presidente do conselho de administração, Barrett Rollins, divulgado online. “O abuso sexual cometido por um adulto numa posição de poder ou de confiança contra um estudante é inaceitável, tanto no passado como no presente.”
Epstein, que na juventude tocava fagote, frequentou o campo de férias de Interlochen em 1967 e, entre 1990 e 2003, e doou mais de 400 mil dólares (cerca de 349 mil euros) à escola.
Duas mulheres contaram aos investigadores ter sido alvo de atos de cariz sexual por parte de Epstein — uma delas no próprio edifício da instituição que na altura ostentava o nome do financeiro. Segundo o relatório, o milionário roçou o corpo no dela “por cima da roupa, alegando ter sido sem querer”.
Epstein pagou-lhe também uma viagem a Nova Iorque quando ela ainda era estudante. A testemunha relatou que “sempre que ele se tornava inconveniente e tentava tocar-lhe, ela ficava paralisada até ele parar”.
A outra testemunha afirmou ter feito uma massagem a Epstein na casa deste, tendo o financeiro pedido, segundo o relato, para ela tirar a parte de cima da roupa. A mulher garante nunca mais ter tido contacto com Epstein ou com a sua companheira, Ghislaine Maxwell.
À margem desta investigação interna, pelo menos duas outras ex-alunas de Interlochen apresentaram queixas de aliciamento e abuso contra Epstein e Maxwell, segundo registos federais e informações da imprensa, reporta a agência de notícias, notando que as identidades das vítimas mantêm-se em segredo. Uma delas testemunhou em tribunal contra Maxwell em 2021, ano em que a cúmplice de Epstein foi condenada por tráfico sexual. Não é claro se estas duas testemunhas prestaram declarações à sociedade de advogados responsável pelo relatório da escola.