A conferência de imprensa de Luís Neves foi digna de antologia. O Dr. Neves tem as costas quentes e largas, e sabe-o. Nós também o sabemos, veja-se como o PS o defende ou um ex-director do Expresso se apressa a dizer em letra de forma que o Dr. Neves nunca foi seu irmão. De outra maneira, o tom grave e sincopado — o de quem está habituado a mandar e a ser obedecido sem apelo nem agravo — seria digno de um sketch de humor. As explicações, que não o foram, são risíveis.
Comecemos pelo atrelado que era caro de mais para abater ou manter, mas que um bom samaritano acolheu gratuitamente na sua empresa porque, oh, coincidência das coincidências, mal a Marinha avisou a PJ de que já não tinha onde o guardar, lá estava ele, por mero acaso, ao lado do director financeiro da polícia, a oferecer-se.
A esposa do Dr. Neves que pagava as obras em dinheiro vivo, como manda a melhor das tradições portuguesas. E, a coroar tudo, a alegação delirante de desconhecimento da lei para justificar a não entrega da declaração de rendimentos ao Tribunal Constitucional — escuso-me de explicar como este argumento não resiste ao mais elementar teste de sensatez para qualquer cidadão, muito menos para o então director da PJ.
A cereja no topo do bolo foi, como não podia deixar de ser, o argumento de que o Dr. Neves sempre esteve do lado do Bem, na eterna luta contra o Mal, como se a vida pública dispensasse factos concretos e se bastasse com declarações grandiloquentes para nos pôr a dormir descansados.
Tudo isto é demasiado mau para ser verdade. Se António José Seguro não intervier e não fizer o mínimo pela salubridade da vida pública portuguesa, estaremos perante um precedente gravíssimo, que começará a marcar o seu mandato.