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Tempo de Atenas: o ativismo vê-se grego

A “Odisseia” segundo Christopher Nolan, o filme mais aguardado dos últimos tempos. E, com o supremo arquétipo do herói, o que faz a fita? Transforma-o num fiteiro.

Paulo Nogueira
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Há 5 meses (o tempo devia ser multado por excesso de velocidade), escrevi a minha primeira crónica no Observador. E já mencionava “A Odisseia”. Agora que o filme polemiza nos cinemas, senti-me tacitamente desafiado pelo Carlos Bobone a voltar ao assunto, que ele também esgrimiu. Como reza um ditado brasuca: dou um boi para não entrar numa briga, e dou uma boiada para não sair dela.

A obra de Homero é a raiz do cânone ocidental, e, depois da Bíblia, a que mais influenciou o respectivo imaginário. Raymond Queneau, no prefácio a “Bouvard et Pécuchet”, de Flaubert, sentenciou: “Toda grande obra literária é ou a Ilíada ou a Odisseia”. Esta última  foi adaptada para a Sétima Arte já em 1905, por Georges Méliès, o pioneiro a perceber o cinema como um espetáculo narrativo. Em “L’île de Calypso: Ulysse et le Giant Polyphème,” com o cinematógrafo acabadinho de inventar, o próprio Méliès fez de Ulisses. E, como um bumerangue, o marido de Penélope nunca mais parou de regressar a Ítaca, até na forma canina de um Jack Russell (“Wishbone”), ou do sapo Cocas, com a camaleónica Miss Piggy em vários avatares (de Penélope a Circe, sem contar uma sereia suína).

Todos aqueles são personagens ficcionais ou mitológicos, e não seres históricos – mas a ressonância perene de Homero é atestada pelo romance mais inovador da literatura moderna, o “Ulisses” de James Joyce, em que não há nenhum Ulisses – o herói homérico foi transfigurado num judeu dublinense, e Penélope, o paradigma da fidelidade, numa sirigaita que põe os palitos no marido no próprio lar-doce-lar.

Se são obras de ficção, não implica que Troia e Ítaca se reduzam a minhocas na cabeça de Homero. Por séculos pensou-se que a Ilion do rei Príamo era uma espécie de Terra do Nunca. Até que Heinrich Schliemann, comerciante alemão tarado por arqueologia, aprendeu vários idiomas (entre eles o Português) e jurou exumar Troia.  Em 1870, escavou ao pé de Hissarlik, na Turquia. E tropeçou em camadas de cidadelas mais velhas que a minha avó, umas sob as outras. A 10 metros de profundidade – eureca! – identificou as ruínas troianas e “o tesouro de Príamo”.  Infelizmente, errou. Ao se afastar da superfície (e usar dinamite), esfarelou as ruínas de 9 cidades antigas –  incluindo partes da verdadeira Troia. Schliemann fez um sorriso amarelo: ah, o que conta é a intenção, não?

Homero, a quem os Gregos chamavam simplesmente «о poeta”, era o nome de um homem, não o equivalente helénico do Soldado Desconhecido. Mas o resto (quem era, onde vivia, em que data criou, se era ou não cego) é conjectura. A “Ilíada” e a “Odisseia” podem ser obras de dois autores diferentes, decerto do século VIII a.C, e talvez primeiro como narrativas orais, depois transcritas (o alfabeto grego é uma invenção dos Fenícios, mas com a espertíssima adição das então inéditas vogais, como o alfa e o ómega).

Odisseu (Ulisses é a versão latina) é o rei de Ítaca, casado com Penélope e pai de Telêmaco. Depois do prolongamento de 10 anos, a guerra de Troia foi desempatada nos penaltis, com o golo decisivo (o cavalo de madeira) marcado por Ulisses. A história começa em “medias res” (pelo meio), e o protagonista consome uma década a remar contra a maré para regressar à base, fintando a ninfa Calipso, e feiticeira Circe e o Ciclope, entre outros empatas.

Nas guerras culturais contemporâneas, em que atiramos  primeiro e perguntamos depois, volta e meia o debate sobre o filme reduz-se a um lado deitar a língua ao outro.  Houve a controvérsia do elenco, com os identitários celebrando a diversidade da fita, cuja Grécia da Idade do Bronze desfila um arco-íris multiétnico: asiáticos, americanos, negros, hispânicos – só faltam, bem, gregos. Os conservadores fizeram beicinho, e foram instruídos de que precisamos respeitar todas as identidades do cosmos, exceto as nossas – que são umas cacas. Como se sabe, os islamitas não se importaram nem um bocadinho que Salman Rushdie desse a sua versão do Corão – parece que até consideraram os “Versículos Satânicos” uma crítica construtiva. Javier Bardem, Pedro Almodóvar e Greta Thumberg, entre outros, protestaram contra as cenas da Odisseia filmadas no Sara Ocidental, ocupado pelo Marrocos: “Vergonha!” “Sara Livre!”. Também há no filme um homem trans, Elliot Page (que em 2007 recebeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz), no papel de um guerreiro grego.

Versões criativas são válidas, e a liberdade de expressão mais válida ainda. Em Omeros, o formidável poema de Derek Walcott (Nobel de literatura em 1992), Homero é um cantor negro de blues, assim como o rapper americano Travis Scott, que abre o filme de Nolan. É talvez injusto perguntar se os atores não-brancos deviam recusar-se a serem usados como arma de arremesso contra a civilização ocidental. Até porque, para concorrer ao Oscar de Melhor Filme, as fitas agora precisam de incluir um ator de uma “etnia diversa” num papel principal, ou  30% do elenco composto por pessoas de grupos “sub-representados”.

Admito que, na ficção, não é o mesmo que, sei lá, Brad Pitt interpretar  o histórico Nelson Mandela, ou Morgan Freeman fazer de Abraham Lincoln (embora a atriz negra Jodie Turner-Smith tenha feito da alvíssima Anna Bolena, e toda a gente achou fixe). Mas chateou-me a queniana Lupita Nyong’o, que já tem um Oscar e vive numa mansão de 6 milhões de dólares em LA, mandar vir com Homero por ele “não dar mais tempo de antena às mulheres”. OK, ela não se dignou a ler uma vírgula do texto homérico – mas nem o argumento do próprio filme?

Helena (o arquétipo da nívea beleza ocidental), que  Lupita calcifica, fez os gregos “lançarem ao mar mil navios”. Penélope engonha os 108 assediadores por anos a fio, e quando o marido por fim regressa passa-lhe um raspanete. Circe transforma os homens nos porcos que já são. Calipso mantém Ulisses na palminha da mão por 7 anos, e o discurso dela no canto V é uma arenga feminista: os deuses podem fazer conchinha com as mortais, mas ai das deusas se elas fizerem o mesmo. Nausica salva um Ulisses nu e desamparado na praia. Andrómaca profere o mais pungente libelo antibélico. Afrodite e Hera manipulam o destino das nações, e borrifam-se para o próprio Zeus. Por isso, Samuel Butler até sugeriu (“The Authoress of the Odyssey”) que a “Odisseia” foi escrita por… uma mulher.

Na fita despontam anacronismos canhestros, como Telêmaco chamar a Ulisses “papá”, ou os gregos referirem a si próprios como sendo “da Idade do Bronze”. Como para Nolan o grego é chinés, ele seguiu a tradução para o inglês de Emily Wilson, a primeira feita por uma mulher (ao leitor português, recomendo a de Frederico Lourenço). Wilson – ingrata! –  escreveu na “London Review of Books” que sentia vergonha do argumento do filme, com a profundidade de um dedal. Ela considera Ulisses um sacana, quase um Hitler. Na Introdução à sua tradução, alerta, com um esgar de asco:  “It is a story, as the first word of the original Greek tells us, about ‘a man’ (andra).” Depois, tomemos e embrulhemos a misandria: Ulisses é um  “adúltero”, “ladrão e aldrabão “, “invasor colonial” e “assassino em massa”. A intrusão de Odisseu na caverna de Polifemo reflete “os processos de colonização”. Wilson troca “polytropos”, ou “astuto”, o principal epíteto de Homero para o protagonista, por “complicado”, ou “problemático”. Mas a sagacidade ardilosa de Odisseu é a sua característica suprema  – um herói muito mais da inteligência do que da força. Se lhe subtraímos a argúcia, o que resta?

Resta um gajo deprimido e traumatizado. Para o ethos grego (e dos outros povos da Antiguidade), a guerra fazia parte da vida – os leitores helénicos da Ilíada não soluçavam de peninha pelos que mataram e morreram em Tróia, seus ou alheios.  Odisseu fervilha de “hubris” (a arrogância insolente), e pavoneia-se do quanto ele – “o saqueador de cidades” – foi decisivo para a queda troiana. A glória era um anseio inebriante. Mas Nolan projeta sobre o protagonista a má consciência hodierna. É como se o herói fosse um veterano da Guerra do Vietname, com a síndrome do stress pós-traumático. Tudo o que o coitado quer é beber (folhas de lótus, o antidepressivo ideal) para esquecer.

Mas porque criar um Ulisses banana? A complexidade humana dele dispensava mutilações – é o único a salivar por ouvir canto das sereias (a beleza da arte): Adorno diz que trata-se do primeiro ouvinte de concertos da história! E sim, ele lamenta a perda dos seus homens, e sente saudades (“todos os dias”) da mulher e do filho. Mas também trucida os pretendentes e enforca servos (incluindo mulheres) que colaboraram com aqueles malandros. No grego arcaico, “herói” significava “guerreiro”, e não subentendia virtude.

Conflitos são os pilares da literatura: como ensino aos meus alunos de narrativa ficcional, ficção é fricção – são as crises que nos tiram da zona de conforto (Ulisses sua as estopinhas para voltar a casa; Agamenon é morto no regresso; Ajax suicida-se) e desencadeiam as grandes questões, que delineiam os nossos dilemas sobre significado e moralidade. A moralidade não é uma emanação evolutiva, nem uma construção social, nem um relato impressionista dependente da cultura, do tempo e do lugar. É a percepção humana de uma dimensão espiritual, do bem e do mal.  Heróis e heroínas são aqueles que, num momento marcante das suas vidas, aprendem algo importante – sobre os outros, sobre o mundo, sobre si próprios. Protagonistas trágicos são os que recusam essas lições, e pagam o preço catastrófico.

No filme de Nolan somos intimados a gramar as ações de Odisseu com a mentalidade atual e todos os seus maneirismos terapêuticos:  mindfulness é um remédio santo e toda a gente tem traumas.  Assim, os sete anos que Odisseu passa com Calipso não são de cativeiro, mas de “cura” – um retiro espiritual. Graças a isso, Odisseu consegue, a pouco e pouco, sublimar a dissonância cognitiva e lidar com a culpa.

Esse Ulisses é como o James Bond de hoje. 007 tornou-se um herói “problemático”, pois todas as qualidades que faziam dele um personagem divertido são agora reprováveis e tóxicas. No cabide de Daniel Craig, o agente com licença para matar, se puxa o gatilho, treme de remorsos – no fundo sabe que não passa de um sexista patriarcal. No filme de Nolan, Ulisses confessa, compungido, o “genocídio” que foi a queda de Troia. E Atena? Bem, ela está a chorar e a segurar a mão do marmanjo cabisbaixo: sim, a deusa da razão descamba  numa namorada compreensiva, numa “coach” existencial. Para Nolan, a “Odisseia” – a mais complexa jornada do herói da literatura universal –  é uma sessão de terapia para uma crise de “saúde mental”.

Enfim, uma palermice pegada. As civilizações antigas não consideravam os seus deuses justos ou benevolentes. Por isso, concentravam-se em oferecer sacrifícios para apaziguar as deidades, evitar que amuassem e descarregassem nos humanos insignificantes. E tão-pouco se cria na onipotência divina: no politeísmo, cada deus era poderoso, mas nenhum era todo-poderoso. O panteão olímpico não existia para o benefício da humanidade: os seus deuses não ofereciam esperança – refletiam, em vez de transcender, os caprichos e a crueldade da vida. Shakespeare resumiu a coisa: “Como moscas para crianças travessas, somos nós para os deuses. Ele matam-nos para se divertir.”

Não que os autores gregos fossem incapazes de empatia pelos inimigos, como na peça ‘As Troianas,” de Eurípedes. Mas, no filme, o ataque grego a Troia terá lúgubres repercussões civilizacionais (outra ideia de jerico de Emily Wilson). A prioridade de Nolan não é narrativa, mas ideológica – não hermenêutica, mas prescritiva. Os alicerces do Ocidente vacilam, e a catarse para a consciência pesada só virá da autoflagelação contrita. A culpa do herói não é individual, mas cultural.

A cada geração um clássico literário conta uma história diferente, e a nova geração torna-se uma coautora da obra, mas sem a desfigurar. Há a questão da ordem moral, a “regra de ouro” que muitas culturas, religiões e filosofias subscreveram, e que o Cristianismo promoveu como preceito: “Tudo o que quereis que os outros façam  a vós, fazei também vós a eles” (Mateus, 7:12) – e cujo corolário será o quase quimérico “Amai o teu próximo como a ti mesmo”. No filme, o imperativo é reciclado num compostagem ideológica como mera xenia (hospitalidade para estranhos), uma espécie de etiqueta mundana. O legado clássico puro, que o Cristianismo integrou, reconfigurou e transcendeu, hoje parece­‑nos em parte espúrio. Esparta praticava a eugenia, e Júlio César matou um milhão de gauleses e escravizou outro tanto. Não apenas a brutalidade extrema, mas a ausência de qualquer valor intrínseco dos pobres e fracos.

Os direitos humanos universais, a importância da igualdade e da liberdade, a ideia de que os mais vulneráveis são dignos de proteção, o casamento consensual, a infâmia da escravidão e do infanticídio (especialmente das raparigas) – tudo isso deriva de preceitos cristãos: «Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós são um só em Cristo».  Dantes, a compaixão e a bondade, que hoje gabamos nas hedonistas redes sociais, eram encaradas como mariquices (daí Nietzsche menosprezar o Cristianismo como uma religião de escravos, e não do Super-Homem: “Outro conceito cristão louco: o de igualdade diante de Deus, o protótipo de todas as teorias de igualdade de direitos. A democracia não passa do Cristianismo naturalizado.”).

O Ocidente é (ou era) o produto desta equação: Atenas + Jerusalém + Roma (a antiga e a que lá tem o Vaticano, incluindo a escolástica). Hoje vivemos num mundo pós-cristão, secularizado. O então presidente checo Václav Havel descreveu a Europa como «a primeira civilização ateísta na história da Humanidade» (ao contrário de Homero, os deuses estão quase ausentes do filme de Nolan). Porém, como realça  Tom Holland no seminal “Dominion” : «Inúmeros signos do Cristianismo são conspícuos por todo o Ocidente – em templos e festas populares, nos calendários e nos nomes próprios. Outros entranharam­‑se tanto que deixaram de ser perceptíveis. Funcionam em nós como óculos por meio dos quais vemos a realidade, sem que essas lentes recebam o foco da nossa atenção consciente.»

Daí que, sem perceber o tiro no pé, o ativismo contemporâneo professe – da boca para fora  – valores cuja fonte é tudo menos materialista. Nesta fita tão fiteira, Ulisses e Penélope buscam a redenção na penitência de singrar num veleiro kitsch para uma performática “jornada rumo ao oeste”, expiando mortos passados – e sobretudo futuros. Mais ou menos como Leonardo DiCaprio e Kate Winslet pisgando-se do Titanic (outro símbolo cinéfilo das patologias ocidentais) – só que agora há lugar à vontade para os dois pombinhos nas tábuas flutuantes.

A “Odisseia” de Nolan é um meme do nosso tempo – incluindo a pós-alfabetização. Espectadores podem exclamar: “Livro? Livra! Não li Homero, mas vi o filme!”. Em vez da maçada dos 12 mil versos hexâmetros datílicos, come-se pipocas e escapa-se ao calor de 2026 e do tal aquecimento global. Nada de criaturas matizadas, com texturas morais sutis, mas tudo de manifestos unívocos em diálogos expositivos. Por maior que seja a suspensão da descrença, não há imersão que aguente quando a propaganda é a alma do negócio.

Os gregos tinham uma palavrinha sugestiva para a vulgaridade:  apeirokalia, ou “falta de experiência nas coisas belas”.  Nos últimos muitos anos, os mais estimados tesouros culturais do ocidente foram desvalorizados como lixo radioativo. Ao contrabandear dogmas rasos disfarçados de epopeia canónica, o próprio filme de Nolan é um cavalo de Troia. Só que, com o tempo de Atenas substituído pelo tempo de antena, a prenda dos Gregos muda de cavalo para burro.