Ele só fez o que todos os portugueses fazem…
José Manuel Fernandes
Esqueçam todas as explicações de Luís Neves, há só uma que interessa: afinal ele só fez o que todos os portugueses fazem.
Fez obras sem projecto porque achou que podia fazer.
Fez um tanque-que-depois-foi-piscina-e-vai-voltar-a-ser-tanque porque até preferia um tanque (agora).
Não ganha muito mas vai poupando, desenrascando, foi trabalhar com o filho ao fim-de-semana, comprou os materiais ali à volta e pagou com o cartão, conhecia alguém que conhecia alguém que lhe arranjou umas daquelas sulipas ex-CP que são óptimas para fazer uma mesa e uns bancos.
Naquele caso do atrelado o que fez foi desenrascar um problema que estava enrascado, e se não encontram os papéis o problema não é dele.
Ah, é verdade, também não entregou umas declarações que devia ter entregue, mas entregou-as logo que lhe disseram que era obrigatório.
Tudo isto é um castelo de cartas? Sim, tudo pode cair ao menor sopro, mas a isso também os portugueses estão habituados pois são campeões mundiais na arte do improviso, do remedeio e do passa-culpas.
Há muitos anos, num texto sobre o que definia os portugueses, Alexandre O’Neill notou que era a expressão “a culpa não foi minha”. O nosso ministro Luís Neves aí está de novo a comprová-lo – e também a acreditar que, por se ter apresentado tão parecido com os portugueses, os portugueses lhe perdoarão.
Talvez se engane, porque cometeu um outro pecado com que os portugueses são por regra mais severos: o da arrogância.
O lugar de Luís Neves não é no governo, é em Hollywood
Carlos Maria Bobone
Admitamos que todas as explicações são suficientes. Que foi um deslize que transformou o tanque numa piscina, que saber se há documentos sobre o atrelado é responsabilidade da PJ, não dele e que uma perseguição mafiosa justificou que não entregasse as declarações de rendimentos. O que tudo isso demonstra é que Luís Neves não devia estar no governo, devia estar acima dele. Porque as declarações dele não são dignas de um ministro, são dignas de um anti-herói de série policial. O homem que navega por terrenos paludosos mas sabe sempre onde está o bem, que reergueu a polícia e que para isso precisou de andar sobre fios duvidosos, a quem conspirações de “máfias da pior espécie” desfeiam a imagem, o homem a quem tudo isto acontece não é um ministro, é um Perry Mason, um Jimmy McNulty, um desses homens com uma bússola moral tão forte que podem esquecer os processos tradicionais porque nunca perdem o norte.
Infelizmente, todas estas características que fazem de Luís Neves um grande herói não fazem dele um bom ministro. É sempre tão estranho ver um ministro a queixar-se da lei como ver um casino a queixar-se das regras de um jogo. Luís Neves diz que prendeu muitos vilões e dá a entender que faria muito mais se não estivesse preso por esta camisa de forças procedimental; talvez fosse bom perceber que o papel dele, então, não é entrar com o seu ar de cowboy, pontapear a porta do saloon e apresentar o revólver de justiceiro. Se as leis são um problema, é papel dele mudá-las, não contorná-las, para que os seus subordinados possam ser os heróis, e não os homens que lhe tratam dos papéis. O problema é que isso Luís Neves não parece disposto a fazer. O actor principal, como já mostrou muitas vezes, tem de ser ele.
É estranho alguém não perceber que esta não era uma conferência para explicar o que fez de bem, mas sim o que não fez de mal. Puxar dos galões de alvo das máfias (coisa que, convenhamos, não é especialmente inusitada num chefe da polícia) e da bússola moral afinadíssima não é, por isso, especialmente eficaz. Toda a gente pode fazer bem, mas isso não serve de troca para o que fez mal. Luís Neves parece ainda não ter percebido isso.
Luís Neves não tem condições para continuar como MAI
André Azevedo Alves
A surreal conferência de imprensa de Luís Neves confirma que não tem condições para continuar como Ministro da Administração Interna. Face ao que foi apresentado, é incompreensível a demora de três semanas para não acrescentar praticamente nada de novo nem conseguir prestar explicações minimamente satisfatórias. Além da história ridícula (mas sintomática) sobre o tanque que se transformou em piscina contra a vontade do próprio Luís Neves, o que sobra desta conferência de imprensa é um deprimente espectáculo de manifestação de arrogância e até soberba.
Perante a insistência de Luís Montenegro para sustentar um MAI insustentável (Montenegro lá saberá porquê) e a aparentemente inesgotável e incansável disponibilidade do PS para defender Luís Neves contra todas as evidências, o Chega tem todas as condições para cavalgar a conivência deste bloco central informal, como certamente não deixará de fazer na comissão parlamentar de inquérito já anunciada.
Para além dos ganhos e perdas no jogo político de curto prazo, o caso Luís Neves coloca em causa a credibilidade das instituições (incluindo uma das que até agora mais confiança reunia junto dos portugueses: a Polícia Judiciária) e desgasta perigosamente um regime cada vez mais debilitado. Para lá do tacticismo e das cumplicidades de PSD e PS, terá agora a palavra o Presidente da República António José Seguro, em quem muitos eleitores depositaram a sua confiança precisamente por o considerarem uma personalidade independente e decente. E, confrontado com este primeiro teste de fogo, Seguro deve estar consciente de que não terá uma segunda oportunidade para causar uma boa primeira impressão.
O director da PJ não devia ter sido ministro
André Abrantes Amaral
No passado 1 de Março, sobre a escolha do director da Polícia Judiciária para novo ministro da Administração Interna, escrevi aqui no Observador o seguinte: A passagem do director nacional da Polícia Judiciária para o cargo de ministro da Administração Interna não tem compreensão possível num Estado de Direito, por manifesta degradação do regime constitucional. É algo que nos deve preocupar, mas que foi considerado normal, deu azo a muita satisfação e os maiores elogios até vieram da esquerda (partidos e comentadores) sempre tão ciosa dos Direitos, Liberdades e Garantias, da separação de poderes e do cumprimento do espírito das regras constitucionais. Não haja dúvidas: vai ser difícil não continuarmos atolados nisto.
Muito sinceramente não julguei que o tempo me viesse a dar razão tão depressa. Também não deixa de ser curioso que a esquerda é quem está mais comedida. Luís Neves não devia ter sido ministro, principalmente da Administração Interna, pelas razões aduzidas em cima, que são de princípio. Mas também por questões práticas, na medida em que qualquer questão que surgisse (como surgiu) daria azo (como deu) a confusões entre polícia, ministério público e governo. A nebulosidade não se desfaz quando não fica claro quem deve agir. Pior: quando não se sabe por que motivo estas notícias vieram a público.
Há anos que assistimos a uma degradação do funcionamento das instituições e da degradação do Estado que António Costa não conseguiu contrariar. Bem pelo contrário. Infelizmente, quando escolheu Luís Neves para seu ministro da Administração Interna, Luís Montenegro não compreendeu o que estava em causa. Infelizmente para todos nós (e não apenas para o governo) o primeiro-ministro parece ainda não ter percebido. Pode ser que o Presidente da República o chame à razão. Vamos ver.
Apareceram todos menos o ministro
Helena Matos
A conferência do pai que faz obras ao fim de semana com o filho na propriedade herdada pela mulher correu bem;
As explicações do homem que foi alto quadro do Estado e anda de Ford Focus e só tem uma conta bancária marcaram;
As recordações do antigo dirigente da PJ sobre os riscos que correu, os violadores, traficantes e criminosos que prendeu impressionaram;
Quanto ao Ministro da Administração Interna não o vi. Ouvi um homem autoritário, orgulhoso e perigosamente crente que a vontade de fazer obra desculpa a falta de atenção aos procedimentos.