“Correu tudo como planeado.” É desta forma que no Governo se celebra (com algum alívio à mistura) a conferência de imprensa dada por Luís Neves esta quarta-feira. Não porque o ministro da Administração Interna tenha sido exemplar — porque não foi, reconhece-se, até porque ficaram demasiadas pontas soltas e muitas perguntas por responder —, mas porque a convicção que existe é de que Neves terá conseguido convencer o comum dos mortais da benevolência das suas ações (sobretudo na questão do atrelado) e da ausência de dolo nos erros que cometeu. A tentativa de desgaste continuará, concede-se, mas o pior já terá passado.
A estratégia era mesmo esta: depois de ter deixado uma primeira má impressão, era preciso pôr Luís Neves a falar grosso para todo o país ouvir, lembrar os “milhares de bandidos” que prendeu e os perigos que enfrentou, ao mesmo tempo que se dava espaço ao ministro da Administração Interna para reconhecer algumas das imprudências que cometeu, sempre salvaguardando que fez tudo sem gastar um cêntimo a mais ou apropriar-se de algo que não lhe era devido.
O argumentário foi-se construindo ao longo de 47 minutos de conferência de imprensa. O atrelado no terreno do amigo empreiteiro? Foi para poupar dinheiro aos contribuintes. A ausência de declaração de rendimentos por entregar? Neves não sabia e quando soube resistiu porque queria proteger a família. A casa no monte? Herdado pela mulher e reabilitado com o dinheiro do salário e, em muitos momentos, com as próprias mãos e ajuda do filho. A piscina? Nem a queria e vai desfazê-la. O património? Uma única conta bancária e um Ford Focus com 15 anos. Os cinco mil euros pagos em numerário? Era apenas para despesas correntes. Faturas? Existem todas.
“Nem sempre acertei, mas estive sempre do lado do bem” foi a frase pensada para o efeito e, no essencial, foi isto que Luís Neves tentou transmitir ao país, mesmo sabendo que o escrutínio da oposição e da comunicação social não ficará por aqui. Até porque continuam a existir questões muito problemáticas. À cabeça, como é que um atrelado aprendido numa operação de combate ao tráfico de droga é transportado de um lado para o outro com aquele nível de informalidade; como é que um diretor da PJ ignora que está legalmente obrigado a entregar declaração de rendimentos; e, talvez mais espinhoso, como é que um investigador com mais de três décadas de experiência paga obras em dinheiro vivo.
Acontece que, e foi sempre esta a intenção de quem pensa a estratégia do Governo, a bolha político-mediática não se confunde com o cidadão comum, que não perderá grande tempo a acompanhar todos os detalhes do caso. Era isto mesmo que fonte do Governo antecipava ao Observador na véspera de Neves falar: a influência da ‘bolha’ é hoje muito menor do que políticos, jornalistas e comentadores julgam ser, é preciso sangue frio para aguentar o embate e a multiplicação de espaços noticiosos e de comentário sobre os grandes casos e casinhos provoca cansaço e, em último caso, indiferença — ou até alguma empatia para com o alvo de todos os ‘ataques’. O dano que havia para ser feito já estará feito.
No final do dia, Hugo Soares, que, no domingo, já tinha sinalizado o caminho que o Governo ia seguir nesta matéria, resumiu a coisa nestes termos: “A oposição tem sempre mais uma dúvida, mais uma questão e acha sempre que ficam pontas soltas. Quem quiser ser sensato dirá o que é evidente: o ministro assumiu alguns erros, que teria tido outra conduta se tivesse de tomar as mesmas decisões, mas defendeu-as com o interesse nacional e bom senso. O país esteve distraído com casos e casinhos que hoje ficaram manifestamente justificados”. Assunto encerrado. Ou quase.
Quase porque mesmo aqueles que são próximos de Luís Neves reconhecem que será preciso esperar com o coração nas mãos pelos próximos episódios. O atual ministro da Administração Interna esteve muito tempo à frente da PJ e, como se viu ao longo deste processo, foi somando umas quantas inimizades — não é líquido que não venham a existir mais notícias embaraçosas sobre o ministro.
Abre-se, portanto, um terceiro ato neste processo: num primeiro momento, o “voluntarista” Luís Neves deu três entrevistas que correram francamente mal; agora, terminado o longo período de silêncio, organizou uma conferência de imprensa com a esperança de ser definitiva; daqui em diante, se surgirem novas informações, dúvidas ou contradições, a coisa complica-se. Há uma comissão parlamentar de inquérito pela frente, uma exigente época de incêndios e um Presidente da República que fez campanha eleitoral contra este tipo de opacidades. A margem para errar é nula e tudo terá de ser gerido com pinças.
PS engrossou a voz ainda antes de ministro falar, mas não quer se confundido com Chega
“Luís Neves já não existe. A partir de hoje a responsabilidade é do primeiro-ministro.” Na direção do PS o assunto galgou nos últimos dias, em que José Luís Carneiro fez contactos, tentou recolher dados e perceber a dimensão da polémica do MAI para chegar à conclusão de que tinha de engrossar a voz.
Pelo meio também ouviu alguns socialistas com uma urgência maior do que aquela que o PS ia mostrando publicamente em condenar a ação do ministro — como Francisco Assis, mas também como o presidente do partido, Carlos César, em reuniões internas. Até aqui, o líder do PS tinha sido moderado nas exigências, mas esta quarta-feira, ainda antes de ouvir Luís Neves, já pedia mais esclarecimentos do ministro na Assembleia da República, “tão breve quanto possível”.
A evolução aconteceu na última semana, com Carneiro a levar a cabo uma série de contactos e a apontar para esta semana o endurecimento da posição socialista, não só pela falta de esclarecimento público do ministro Luís Neves, como pelo avolumar de notícias sobre o caso. Mas ainda na sexta-feira passada, numa conferência de imprensa na sede do partido, o líder parlamentar Eurico Brilhante Dias aparecia bem mais recuado quando desalinhava da comissão de inquérito potestativa sobre o caso, apresentada pelo Chega, para não “embarcar na fragilização da Polícia Judiciária”.
Dizia mesmo que o caso de Luís Neves era “um caso individual de integridade de um membro do Governo”, considerando ser “surpreendente” que seja o foco do Chega “quando está a decorrer um processo como o dos exames, com milhares de alunos afetados”, como o dos exames nacionais, envolvendo a gestão do ministro da Educação. Admitia ser necessário um esclarecimento “cabal e claro” do ministro que não devia, dizia o socialista, deixar de se pronunciar “sobre a qualidade da resposta à nebulosa que foi criada em torno do ministro da Administração Interna quando era diretor nacional da PJ”. Parecia um assunto secundário e o PS pouco convencido da capacidade de desgaste que poderia trazer para Montenegro.
Mas quando entrou para a reunião com o primeiro-ministro, Carneiro já não teria dúvidas sobre a necessidade de subir o tom nesta altura. Saiu a assumir que “a autoridade política do ministro da Administração Interna está fragilizada. Os factos fragilizam a autoridade política do titular da Administração Interna, que tem a direção das forças de aplicação da lei”. E disse-o ao próprio primeiro-ministro, que o recebeu uma hora antes da conferência de imprensa marcada para a tarde.
Nessa rápida reunião, ouviu as explicações de Luís Montenegro. Ainda tentou fazer uma conferência de imprensa em São Bento, mas sendo aquela reunião com o primeiro-ministro privada (nunca foi tornada pública pelas vias oficiais), os jornalistas não podiam ter acesso à sala de imprensa do gabinete do primeiro-ministro. Carneiro acabou por ter de correr para a sede do partido, no Largo do Rato, ali bem perto, em Lisboa, para ainda tentar falar antes de Luís Neves. Mal conseguiu: nos diretos televisivos já não foi possível ouvir o socialista dizer mais do que duas frases, porque Neves já falava no Ministério.
Na declaração que fez, Carneiro não pediu a demissão de forma direta, mas pressionou Montenegro pela primeira vez sobre o homem que foi o PS que nomeou para a direção nacional da PJ (em 2018, reconduzindo-o em 2021): “Deve ser feita uma avaliação rigorosa por parte do primeiro-ministro e do ministro da Administração Interna sobre as condições ou não para o exercício das funções políticas”.
No PS explica-se a evolução com a necessidade de dar tempo ao Governo e diferenciar o partido da oposição que o Chega faz. Ainda que a conferência de imprensa do ministro seja descrita dentro da direção como “um atestado de óbito“, o PS continua a querer manter-se afastado do estilo do Chega. Até porque no partido não só se acredita que André Ventura está a aproveitar o caso para atacar o órgão de polícia criminal que investiga a extrema-direita, como também se teme que o escrutínio da PJ num inquérito parlamentar possa pôr em causa o Estado de Direito, abrindo uma “caixa de Pandora”. É por isso que na direção se sublinha que o PS “engrossou a voz, mas preservou o ambiente para ter informação”, no Parlamento.
É nesse mesmo sentido que se argumenta que o partido “deu todas as oportunidades para o Governo salvaguardar as instituições” e que, por outro lado, também se comenta que Montenegro só não corta a cabeça a Luís Neves “porque não pode aplicar aos ministros uma lógica diferente da que aplica a ele próprio”. De novo a Spinumviva, mas sobretudo a tentativa de redirecionamento de todo o desgaste para um só alvo: Montenegro.
Chega aponta à cabeça de Neves e pressiona Ventura
Se no Governo se celebra a relativa eficácia da conferência de imprensa de Luís Neves, no Chega festejam-se os erros que o ministro cometeu — e as pontas soltas que podem ser capitalizadas no discurso político e na comissão parlamentar de inquérito. Na reação praticamente imediata, André Ventura voltou a acelerar na pressão ao Presidente da República, desistiu do Governo (“perdeu oportunidade de decência”) e começou a trabalhar no que serão os próximos dias: é preciso continuar a desgastar o ministro da Administração Interna até ao arranque da comissão parlamentar de inquérito.
Até lá, André Ventura vai dar continuidade à estratégia, agora com mais dados: Luís Neves cometeu “várias ilegalidades”, tomou decisões “perigosas” e tudo isto está a ser desvalorizado: “A que outro político permitiamos que dissesse que é uma ‘pequena ilegalidade e irregularidade e que não é aí que o problema está’?”
André Ventura não só considera que Luís Neves falou “sobre coisas graves e sérias de forma rudimentar e autoritária”, como tentou rebaixar o ministro, ao fazer referências à “valentia” com que falou aos jornalistas, “de forma ostensiva” e “quase com tiques de autoridade”.
Num balanço final, nenhuma das explicações de Luís Neves é suficiente para deixar cair a comissão parlamentar de inquérito aos anos de mandato na Polícia Judiciária. Mais: para André Ventura a conferência de imprensa do ministro — que descreve como “uma das mais sofríveis dos últimos tempos e da nossa democracia” — só serve para dar razão ao Chega e para mostrar que as “ilegalidades” não são um problema suficientemente importante para que Luís Montenegro deixe cair um dos seus homens.
E a história do atrelado — que foi transportado para a empresa do amigo de Luís Neves, a ConstruBarcelos —, é destacada por Ventura por ser “perigosa”: havendo material perigoso envolvido, Neves deixou que ficasse “na rua” e “levianamente exposto” — uma “forma de decisão” que precisa de “escrutínio”.
Restam ainda as obras na propriedade do ministro, que continuam a levantar dúvidas ao Chega. Aliás, mais do que dúvidas, Ventura considera que Neves assumiu um crime ao assumir a “ilegalidade de fazer pagamentos em numerário, mesmo de forma faseada”, acima de três mil euros. “É uma ilegalidade claríssima assumida pelo ministro à frente do país inteiro”, sublinhou.
As tão aguardadas explicações, pedidas à exaustão pelos partidos da oposição, servem ao Chega como mais uma prova de que é preciso regressar ao discurso da pressão. Perante a tese de que “o Governo perdeu oportunidade de decência”, André Ventura virou novamente a agulha para António José Seguro — uma postura que já tinha seguido — com um pedido de intervenção para alguém que acredita ter ficado “arrepiado” com as palavras de Luís Neves: “Está a chegar o tempo em que o Presidente da República tem de ter aqui uma palavra, visto que o primeiro-ministro não a quer ter”.
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